Acolhimento Município substituiu, antes do País, os ‘manicômios’ por residências terapêuticas; assistência humanizada fortaleceu o Caps
FOTO: Nario Barbosa/DGABC

Primeiro município do Brasil a substituir os antigos hospitais psiquiátricos por residências terapêuticas, em 1999, Santo André realizou nos últimos cinco anos 329.281 atendimentos nas unidades dos Caps (Centro de Atenção Psicossocial), considerando os dados de 2021 a 2025 do Siasus (Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS - Sistema Único de Saúde). Somente neste ano, 14.670 acolhimentos foram realizados nas cinco unidades voltadas à saúde mental.
De acordo com o coordenador de Saúde Mental de Santo André, Vinícius Atalaia, o município instituiu duas Residências Terapêuticas antes da promulgação da Lei da Reforma Psiquiátrica, de 2001.
“Os manicômios isolavam os pacientes de seus vínculos e tinham um caráter higienista, excluindo da sociedade, não somente pessoas com transtornos mentais, mas as consideradas desviantes, como homossexuais, prostitutas e mães solteiras. A evolução do cuidado com a saúde mental é notória ao longo desses 25 anos em que a Reforma Psiquiátrica atua para consolidar o modelo de Atenção Psicossocial implementado no SUS”, avalia Atalaia.
A cuidadora Andreia Lima, 52, está em acompanhamento há 32 anos para tratamento de depressão e transtorno bipolar. Ela é paciente do Caps III Praça Chile. “Passei 22 anos na rede privada, onde fui apenas um prontuário, e foi aqui que ganhei estabilidade. Estou a um passo de sair. Sem o acolhimento dos profissionais e tratamento individualizado do Caps eu jamais conseguiria”, ressalta Andreia.
O auxiliar administrativo Edgard Henrique Oliveira, 46, é irmão de Erik Oliveira, 34, paciente do Caps III Vila Vitória, diagnosticado com esquizofrenia e deficiência intelectual. “Em 2018, com a morte da nossa mãe, seu quadro piorou. Ele não queria sair de casa para nada. Busquei o auxílio do Caps e consegui, com a ajuda da equipe, inseri-lo novamente no convívio social. Hoje o Erik participa da oficina de futebol, voltou a estudar e está sem crises”, conta.
“Os profissionais são muito humanos e me ajudaram a lidar com as limitações dele e entender o mundo da saúde mental. Este é um serviço extremamente essencial para a população”, reflete Oliveira.
O coordenador Vinícius Atalaia ressalta que há alguns anos Santo André conseguiu retomar sua verve inovadora na saúde mental em consonância com sua trajetória histórica. “Este é um resultado de muito diálogo, trabalho e projetos desenvolvidos por um coletivo de gestores, usuários e sociedade civil.”.
O reconhecimento vem também por meio de prêmios. O mais recente, recebido no início deste mês pelo Cosems-SP (Conselho de Secretarias Municipais de Saúde) pelo trabalho intitulado Território é onde o nome cabe: reconhecimento e identidade de gênero no cuidado, que promove o acolhimento de pessoas trans pelo uso do nome social.
VIDAS DO SUS
Esta é a segunda reportagem da série que aborda as boas práticas do SUS nos municípios do Grande ABC. No próximo domingo (3), será publicada a terceira história.
O grande desafio é despertar em cada um que o SUS é feito por todos nós’
Implementado há 36 anos, o SUS (Sistema Único de Saúde) universalizou o acesso à saúde, atendimento que antes era vinculado à Previdência Social e era oferecido somente aos trabalhadores de carteira assinada. Considerado um dos maiores sistemas do mundo, enfrentou desafios ao longo dos anos e passou por constante evolução.
A gestora da Clínica da Família Alzira Franco de Santo André, Andréia Aparecida Tavares Bastos, atua na rede municipal há 23 anos e acompanhou de perto a evolução do sistema. “Quando comecei, era tudo mais simples e escasso. Tinham menos ambulâncias, levava dias para transportar um paciente de um hospital para outro. Era tudo mecânico, nada eletrônico. Hoje temos equipamentos de alta tecnologia”, descreve.
Apesar de todos os avanços, Andréia destaca que ainda é preciso avançar na qualificação e valorização profissional. “Não se trata somente de melhores salários, mas do reconhecimento do serviço público pela população. Vemos nas redes sociais o menosprezo aos servidores e a banalização das consultas. Muitos tratamentos são abandonados. O grande desafio é despertar em cada um que o SUS é feito por todos nós”, aponta a gestora.
O sistema público de saúde de Santo André conta com 33 UBSs (Unidade Básica de Saúde), oito UPAs (Unidade de Pronto Atendimento), cinco Caps (Centro de Atenção Psicossocial), duas unidades hospitalares – Hospital da Mulher e CHM (Centro Hospitalar Municipal), além do futuro Hospital Vila Luzita, com previsão de entrega para outubro –, entre outros equipamentos.
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