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Netos de sobreviventes do genocídio armênio rememoram massacre que matou 1,5 milhão

Descendentes que vivem em Santo André e São Bernardo contam histórias de luta e dor de seus familiares

24/04/2026 | 08:50
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FOTO: Nario Barbosa/DGABC
FOTO: Nario Barbosa/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Há 111 anos, em 1915, o Império Otomano, atual Turquia, dava início a um dos maiores genocídios da história, que culminou na morte de 1,5 milhão de armênios. Os que conseguiram fugir dispersaram-se mundo afora. Alguns deles desembarcaram no Porto de Santos com destino à Capital e os demais seguiram para outros municípios do Estado. Descendentes que residem no Grande ABC compartilham nesta sexta-feira (24), Dia de Reconhecimento e Lembrança do Genocídio Armênio, as histórias que marcaram suas famílias e rememoram a luta de seus antepassados. 

A psicóloga Paula Pamboukian, 43 anos, é uma dessas descendentes. Moradora de São Bernardo há duas décadas, a paulistana é neta de Nazareth Hagop Pamboukian, nascido em 1913, e Marie Dermendjian, de 1920, ambos já falecidos, que chegaram ao Brasil em 1952. 

“Estou aqui para contar essa história porque eles conseguiram fugir do genocídio. Tiveram que deixar tudo para trás, saíram com a roupa do corpo e chegaram sem nem falar português. Quem conseguiu escapar, fugiu como deu, os que não conseguiram entraram na fila e morreram”, lembra. 

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A fila que a psicóloga cita, conhecida como ‘Marcha da Morte’, refere-se a deportações forçadas em massa de armênios que tiveram que caminhar enfileirados em direção ao deserto da Síria. Comandadas por militares do Império Otomano, as vítimas passaram por torturas e foram dizimadas sistematicamente. Segundo registros históricos, as mulheres eram violentadas pelos soldados. Quem não foi assassinado pelas tropas, acabou morrendo de fome ou sede. 

“Minha avó contava que viu soldados otomanos abrindo o ventre de uma grávida armênia. Ela falava também uma história sobre uma criança da família que foi tomada pelos soldados quando tentaram se esconder para cruzar a fronteira para a Síria. Como era muito difícil para ela falar sobre o assunto, isso ficou um pouco fantasmagórico, mas é uma história que acompanha minha família. Por isso, não podemos deixar de falar sobre”, enfatiza Paula. 

Antes de virem para Capital, os avós da moradora de São Bernardo fugiram para a Síria e depois se estabeleceram no Líbano, onde viveram em uma colônia de refugiados armênios. “Tenho algumas fotos deles lá, nesta região libanesa. Entre os registros também tem meu bisavô com soldados”, conta. 

Paula faz questão de transmitir a história de sobrevivência de seus antepassados e da cultura armênia para seu filho, o estudante Daniel Pamboukian, 16. “Quero manter essa história viva e sinto que também faz parte de quem sou. Tenho muito orgulho de ser (descendente) armênio porque sei que eles passaram por muitas coisas difíceis e mesmo assim conseguiram superar essas adversidades”, afirma o jovem.

Em Santo André, o engenheiro químico Celso Pamboukian, 54, diz que todos os anos lembra com tristeza do episódio que marca gerações da família. Ele e Paula não se conhecem, tampouco possuem parentesco. A semelhança está no sobrenome, comum na Armênia, e na ligação que os descendentes têm entre si e com o compromisso de manter viva a memória. 

“O genocídio é uma página bem triste de nossa história. Penso em meu avô fugindo de lá, sem nada, e nunca mais vendo a família. Não queremos que o massacre seja esquecido para que nunca se repita com nenhum outro povo”, ressalta. O morador de Santo André é bisneto de Jacoub Pamboukian, nascido em 1906, chegou na Capital por volta de 1917 e morreu em 1986.

Brasil ainda não reconhece ataque como extermínio

O genocídio armênio é negado pela Turquia e não teve reconhecimento oficial de muitos países, entre eles o Brasil. Apesar de o Senado Federal ter aprovado uma moção de solidariedade em 2015, a oficialização não ocorreu pelo governo brasileiro devido a possíveis razões diplomáticas e econômicas com o país turco.

Atualmente, 30 países ao redor do mundo reconhecem o massacre da Armênia como genocídio. O Uruguai foi o primeiro a adotar essa posição, em 1965. Apenas muitos anos depois outros países passaram a fazer o mesmo, como a Rússia, que reconheceu o fato em 1994.

A historiadora e professora da USCS (Universidade Municipal de São Caetano) Priscila Perazzo explica que um genocídio é caracterizado por uma matança em massa sistemática. “É quando uma população inteira é exterminada em um razoável período de tempo, articulada, normalmente, pelo próprio Estado. Às vezes, o objetivo é o extermínio ou não, e se torna pela quantidade de pessoas mortas”, destaca.

O genocídio na Armênia, que ocorreu em um contexto de confrontos durante a Primeira Guerra Mundial e de queda do Império Otomano, que segue o islamismo, foi justificado como uma medida de segurança porque os armênios eram cristãos e uma ameaça à soberania turca. O país armênio, que foi o primeiro a oficializar o cristianismo, era aliado da Rússia no conflito global. 

O Holocausto, que dizimou seis milhões de judeus, é um genocídio que, inclusive, teria sido influenciado pelo massacre armênio, de acordo com registros históricos. A evidência vem da frase usada pelo ditador Adolf Hitler pouco antes de invadir a Polônia, em 1939. “Afinal, quem fala hoje do extermínio dos armênios?”, disse o nazista para justificar a violência.




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