Pesquisa da Fundação Seade Segundo levantamento, região mantém alta demanda, mas desigualdades afetam o acesso
FOTO: Claudinei Plaza/DGABC

No ano passado, 90% dos moradores do Grande ABC afirmaram que gostariam de ter mais atividades culturais em suas cidades, o que equivale a nove em cada dez pessoas. O dado faz parte de uma pesquisa exclusiva da Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados), realizada a pedido do Diário. O levantamento mostra que a demanda por maior oferta cultural na região já era elevada em 2018, quando chegou a 96%.
A pesquisa aponta que o consumo cultural mudou de forma nos últimos anos. O cinema, por exemplo, perdeu força – a frequência caiu de 52% da população em 2019 para 35% em 2025. Em contrapartida, shows, peças teatrais e espetáculos de dança se consolidaram como principal opção de lazer, alcançando 46% dos moradores.
A análise por perfil mostra que o acesso segue condicionado por fatores sociais. No cinema, 71% dos jovens de 18 a 29 anos frequentam salas de exibição, contra apenas 21% dos idosos. A desigualdade também aparece na renda, enquanto 43% das pessoas com mais de dez salários mínimos vão ao cinema, apenas 20% das que recebem até um salário mínimo frequentam o local.
O mesmo padrão se repete em outros equipamentos culturais. Museus concentram público jovem e de alta renda – 56% entre 18 e 29 anos e 63% entre aqueles que ganham mais de dez salários mínimos. Já as bibliotecas vivem um cenário de esvaziamento: 83% da população não frequentaram esses espaços no último ano, com índices ainda mais baixos entre pessoas com menor escolaridade (10%).
A questão econômica também pesa nas escolhas. Em 2025, 17% dos moradores participaram apenas de atividades gratuitas – quase o dobro de 2018. Já a parcela que paga por todas as experiências caiu de 18% para 11%. Entre os mais pobres, 28% dependem exclusivamente de eventos gratuitos, enquanto nas faixas acima de três salários mínimos, 47% das atividades são pagas.
Aos 42 anos, o pintor predial desempregado Reinaldo César Delfim, morador de Santo André, é um exemplo de como o custo e o desinteresse acabam afastando parte da população das atividades culturais. Frequentador ocasional da biblioteca no passado, hoje ele admite que substitui a leitura pelo celular e, mesmo estando no grupo minoritário que visita o espaço, utiliza o local apenas pelo Wi-Fi. “Estou sem dinheiro”, diz, com sinceridade. Para ele, além do preço, a falta de atratividade também pesa, como os museus, que considera pouco acessíveis ou desorganizados, defendendo uma expansão nas opções. No último ano, frequentou apenas um show gratuito.
Já a estagiária de pedagogia Eliana Ferreira de Oliveira, 53, também de Santo André, apresenta um perfil oposto. Atuando com crianças, ela mantém o hábito de frequentar teatro, cinema e bibliotecas, além de participar de projetos educacionais que levam alunos a espaços culturais. Ainda assim, relata que já deixou de participar de atividades por falta de dinheiro. “Abri mão em momentos de desemprego”, diz Eliana, que espera uma ampliação na oferta de eventos gratuitos. Para ela, além da questão econômica, falta divulgação. “Muitas crianças nem conhecem a cultura da cidade”.

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Leitura
Na leitura, 29,5% da população não leram nenhum livro, enquanto apenas 10,5% são considerados leitores assíduos (mais de cinco livros). O índice de não leitores chega a 43% entre quem tem apenas ensino fundamental, contra 16,5% entre os que têm ensino superior. A pesquisa exclui títulos escolares e religiosos.
A avaliação dos equipamentos culturais aponta avanços. Museus atingiram nota média 8, a mais alta da série histórica, enquanto bibliotecas subiram para 7,4. A conservação de monumentos, embora tenha melhorado para 6,4, ainda aparece como ponto crítico.
No Estado, 6.082 pessoas com 18 anos e mais foram entrevistadas em outubro e novembro de 2018; 6.645 em dezembro de 2019 e janeiro de 2020; 3.674 em novembro de 2022; 14.505 em outubro e novembro de 2023; 14.556 de outubro a dezembro de 2024; e 14.560 de outubro a dezembro de 2025. Cerca de 10% desses números correspondem ao Grande ABC.

Consórcio e ex-MinC avaliam cobrança como positiva
O alto índice de moradores que desejam mais acesso à cultura na região é visto como um sinal de vitalidade e não de deficiência da produção cultural na região. Para o prefeito de Ribeirão Pires e presidente do Consórcio Intermunicipal do Grande ABC, Guto Volpi (PL), o fato de 90% da população demonstrar interesse por mais atividades culturais deve ser interpretado como um indicativo positivo.
Para ele, a pesquisa reforça uma tendência já percebida no dia a dia da gestão. “A população quer consumir ainda mais cultura, e isso é extremamente positivo. O que a gente tem visto, não só aqui em Ribeirão Pires, mas em todas as cidades da região, é que as prefeituras têm oferecido grande quantidade de eventos culturais gratuitos para a população, em todas as áreas da produção cultural. E acredito que este é o caminho”, afirma Guto.
Nesse cenário, o Consórcio estrutura o programa Grande ABC + Cultura, com a proposta de integrar as cidades e criar um circuito multicultural regional ao longo do ano, descentralizando as atividades e ampliando o acesso. Guto destaca que o principal desafio está no acesso ao circuito pago, ainda restrito a uma parcela da população. Por isso, a aposta segue sendo em programações acessíveis e diversificadas, capazes de atingir diferentes perfis sociais. A proposta também inclui a utilização mais ativa de equipamentos públicos, como bibliotecas e centros culturais, com oficinas, eventos e ações formativas.
A avaliação é compartilhada pelo historiador, escritor e ex-secretário nacional de Cidadania Cultural do Ministério da Cultura, Célio Turino. Idealizador do Programa Cultura Viva e dos Pontos de Cultura, além de ter participado da formulação da Lei Aldir Blanc, ele vê no dado um indicativo de potencial cultural. “Vejo de forma otimista esse número. Porque uma característica da cultura é que ela não tem limite, ela não tem fim. Quanto mais você tem acesso, mais você quer”, afirma.
Turino fala que o dado revela uma busca por diversidade e experiências mais amplas, em contraponto a uma “monocultura” dominada por produtos de grande massa. Sobre a queda da leitura, o especialista aponta uma transformação estrutural no comportamento contemporâneo. “Está havendo uma regressão mundial na leitura, porque o livro exige um processo de atenção, de imersão muito grande. E esse fenômeno das redes sociais tem provocado uma dispersão cada vez maior. As pessoas estão com dificuldade de reter a atenção, e isso se reflete no livro.”
O ex-secretário nacional de Cidadania Cultural reforça que a leitura exige concentração e imersão, habilidades cada vez mais raras, mas fundamentais para o desenvolvimento cognitivo e emocional. “No tempo atual, nós estamos em uma encruzilhada humana. Com a inteligência artificial, a gente tem uma ferramenta que interfere de forma exponencial na relação mental de elaboração das pessoas. Nós poderemos, daqui a algumas gerações, ser uma outra espécie, que deixou-se atrofiar exatamente pela ferramenta que criou.”
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