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Tamyris Bonilha: ‘Tivemos cuidado de não olhar Mauá como uma ilha’

Bruno Coelho
20/04/2026 | 08:13
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FOTO: Celso Luiz/DGABC
FOTO: Celso Luiz/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Com a portaria de funcionamento oficializada e sede própria definida, o IFSP (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo) está pronto para abrir seus primeiros cursos regulares em Mauá, com previsão de início em fevereiro de 2027. Em entrevista ao Diário, a diretora-geral do campus, Tamyris Bonilha, detalha como a instituição pretende integrar o ensino técnico à digitalização da indústria 4.0 no Grande ABC, destacando que a estratégia foi desenhada para complementar as cadeias produtivas locais sem isolar o município de seus vizinhos. Tamyris também ressalta o papel do Consórcio Intermunicipal do Grande ABC e a importância política de Mauá para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Nome: Tamyris Proença Bonilha Garnica

Aniversário: 29 de maio

DGABC

Onde nasceu: Sorocaba, São Paulo

Onde mora: Bauru, São Paulo

Formação: Doutora em educação e pedagoga

Um lugar: Escola 

Time do coração: Brasil

Alguém que admira: Paulo Freire

Um livro: Pedagogia da Esperança, de Paulo Freire

Um filme: Escritores da Liberdade (2007), de Richard LaGravenese

Como está o cronograma para o início das operações do IFSP em Mauá?

O Instituto Federal já iniciou atividades desde o ano passado por meio do que nós chamamos de ações de extensão, em parceria com o poder público municipal, Poder Legislativo e outras instituições educativas da cidade. Então, esses cursos visam atender demandas do território e são cursos livres de formação inicial e continuada, com cargas horárias que são variadas de 20, 40, 60 e 160 horas. Então são atividades que já foram desenvolvidas em parceria com os campi já em funcionamento, como por exemplo o campus São Paulo e o campus Suzano, porque nós ainda não tínhamos portaria de funcionamento. A portaria chegou em fevereiro, então para este ano, além desses cursos que nós já realizamos, vamos continuar ofertando os cursos livres de extensão em parceria, sobretudo, com a Secretaria de Educação de Mauá e com o arranjo produtivo, na área da indústria, e agora vamos ter o Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego), a partir do mês de maio e junho.

Tocando no ponto da infraestrutura, esse prédio já está adequado para receber todos os cursos previstos? E quais são esses cursos técnicos?

Os cursos técnicos previstos e aprovados, por meio de consulta pública no segundo semestre do ano passado, são na área da indústria, dentre eles, mecatrônica, fabricação mecânica, planejamento e controle de produção e no eixo que nós chamamos de informação e comunicação, que é informática. Esses serão os cursos que são de ensino médio integrado, quando o aluno faz o ensino médio mais o técnico, e ele fica o dia todo na escola, cumprindo essa carga horária, que varia de 3.000 a 3.200 horas. Fora o curso de nível médio, temos ainda em nível médio só o técnico profissionalizante, o que chamamos de cursos concomitantes subsequentes ao ensino médio, que serão de controle, automação, mecânica e informática para internet. Dentro do mesmo eixo, há uma oferta um pouco diversificada de modo a aproveitar a força de trabalho disponível dos professores, entendendo que essas são áreas que as cadeias produtivas demandam aqui no Grande ABC. Sobre infraestrutura, temos o prédio que foi recentemente adquirido pelo governo federal, antiga Fama. Há espaço suficiente para o funcionamento e temos lá quase 60 salas de aula.

Mauá é uma cidade dormitório. É muito comum as pessoas irem para outros polos industriais, apesar de a cidade ter o Polo Petroquímico e o Sertãozi-nho. O IFSP chega em Mauá para reduzir essa distância entre a população e os polos industriais locais?

Nós estamos, estrategicamente, dialogando com as instituições já existentes, como Fatec (Faculdade de Tecnologia), Etecs (Escolas Técnicas Estaduais), Senai, instituições privadas, para encontrar o lugar do Instituto Federal nessa parceria. Então não vamos fazer a oferta de cursos já existentes, como por exemplo um curso de Química, que diretamente atende ao Polo Petroquímico. Vamos buscar as cadeias produtivas associadas àquilo que é a produção do PIB (Produto Interno Bruto) da cidade, naquilo que se faz necessário com vista da indústria de transformação, que gera emprego e, principalmente, gera riqueza, além de encontrar os profissionais que, em um cenário médio e longo prazo, se farão necessários. E aí foram justamente as áreas da mecatrônica que junta esse eixo metal-mecânico das indústrias automobilísticas, que é uma característica muito forte aqui na região, com a questão da digitalização, o avanço da informação e da tecnologia. Isso tendo em vista a nova indústria Brasil também, que prevê a digitaliza-ção, a migração de uma indústria tradicional para uma indústria 4.0. Então, é preciso preparar as cadeias para que esta indústria já em funcionamento, e sobretudo o Polo Petroquímico, possa continuar se desenvolvendo, gerando riqueza e empregabilidade para todo o território.

E como está a seleção do corpo docente para o campus?

A contratação de professores dentro do Instituto Federal se dá por meio de concurso público. Então para que isso aconteça é preciso que o Ministério da Educação, por meio de uma portaria, autorize a contratação mediante liberação do que nós chamamos de código de vaga. Recentemente, o presidente Lula assinou um decreto de lei, que foi votado pelo Congresso Nacional, fazendo justamente a previsão de liberação desses códigos. Agora precisa que a Setec (Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica), departamento ligado ao Ministério da Educação, faça essa distribuição dentro dos campi. Há uma estimativa de que a gente vai receber por volta de 20% a 30% da nossa capacidade máxima de professores, que hoje, por lei, é 70%. Mas isso é uma estimativa, não há nada ainda oficializado. Então, a depender desse número, vai-se iniciar um processo interno institucional para a contratação via concurso. Por estarmos em um ano eleitoral, o que se aventa é a possibilidade de dar contratação temporária, sem que gere um vínculo efetivo, por um tempo determinado, e ao término desse dessa etapa, muito provavelmente, se caminha para um concurso efetivo.

O processo seletivo dos alunos ocorre até o fim do ano?

Havendo a liberação desses códigos para contratação dos professores, a previsão é que a partir do segundo semestre começaremos a lançar o material da divulgação do vestibulinho para, de outubro a dezembro, realizarmos os processos seletivos e, em fevereiro, os aluno poderão ingressar.

Existe um histórico de evasão escolar no ensino técnico, o que é um grande problema. Qual é a estratégia que a senhora pretende implementar no IFSP a fim de garantir a permanência dos alunos?

Sabemos que a lacuna de formação de técnicos no Brasil, daquilo que se prevê no Plano Nacional de Educação, está muito longe de alcançar a meta. De todo modo, fica o nosso compromisso, e é uma política do Instituto Federal de São Paulo, e eu diria que da rede federal de ensino, no cenário nacional, um compromisso pela permanência e êxito. Então existem programas que visam justamente não só captar como também comunicar ao aluno da escola pública que o Instituto Federal é para ele, e dar um mínimo de condição para que possa pleitear no vestibulinho uma vaga. E depois que ele entra, temos programa de assistência estudantil, que também à destinação de recurso via Ministério da Educação, para que esse aluno possa ter um auxílio-alimentação, um auxílio-moradia, um auxílio-transporte, e no caso da mãe, um auxílio-creche, para que o estudante tenha o mínimo de condição de se manter no curso.

Como está a relação do IFSP com o Consórcio Intermunicipal do Grande ABC?

O Consórcio Intermunicipal é estratégico dentro do Grande ABC. Não é à toa que existe essa instituição que justamente vem para articular os sete municípios em torno de objetivos que são comuns. Então nós tivemos muito cuidado de não olhar Mauá como uma ilha. É um município inserido na Região Metropolitana de São Paulo, mas que tem um arranjo muito específico dentro do Grande ABC. São municípios que apresentam questões, que dizem respeito à industrialização, desenvolvimento da tecnologia, de empregabilidade. É uma cidade de operários, tal como o Diadema. Então, o Consórcio Intermunicipal foi fundamental para que juntos pudéssemos entender qual seria a contribuição do Instituto Federal de Mauá e de Diadema olhando para a região.

O IFSP é requisitado em muitos municípios. Por que Mauá saiu na frente e conquistou a unidade no Grande ABC, segundo sua avaliação?

Acho que é um movimento político. Mauá é estratégica para o nosso presidente da República, e é uma cidade que já deveria ter recebido o Instituto Federal há muito tempo. Esse movimento não é novo. Como disse o prefeito Marcelo Oliveira (PT), tem quase 15 anos ou mais, em que diferentes grupos políticos já reivindicavam essa necessidade. Então ter uma instituição pública gratuita de qualidade é premissa para o desenvolvimento da cidade. E em Mauá o que fez grande diferença foi justamente o apoio do poder público municipal, que abraçou essa ideia.

E como é que está a situação do campus Diadema?

Diadema, assim como Mauá, tem feito muito esse diálogo junto ao território, mediado pelo Consórcio Intermunicipal. A Prefeitura também adquiriu o prédio do antigo Centro Cultural Okinawa e estava em tratativa para a emissão de certidões. Tem caminhado também com o desenvolvimento de ações de extensão, em parceria com a Secretaria de Educação, formação para profissionais da educação, e está na expectativa igualmente da liberação de códigos para os primeiros cursos regulares no ano que vem.

O presidente Lula citou possivelmente um terceiro campus, em São Bernardo. Houve evolução desde então?

Desde o anúncio, a equipe da Diretoria de Infraestrutura do Instituto Federal tem feito visitas a imóveis junto ao prefeito Marcelo Lima (Podemos). Acho que um antigo prédio da Universidade Metodista de São Paulo está justamente nessa fase de verificar a adequação, a aquisição dele para que então a consulta pública se inicie. Então, de fato, há expectativa de que venha mais um campus para o Grande ABC.




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