Entrevista da Semana Titulo Entrevista da Semana

Adriana Berringer: ‘Em 2025, 81% dos gastos com saúde foram pagos pelo município’

06/04/2026 | 08:05
Compartilhar notícia
FOTO: André Henriques/DGABC
FOTO: André Henriques/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


A secretária de Saúde de São Caetano, Adriana Berringer, afirma que a situação financeira da Pasta ainda é delicada e que os valores repassados pelo SUS (Sistema Único de Saúde) Federal e Paulista são insuficientes para cobrir os custos da rede, o que obriga o município a ampliar o uso de recursos próprios para manter o atendimento. Apesar das limitações, a gestão busca qualificar os serviços e melhorar a organização da rede. Adriana ainda ressalta o papel estratégico do Hospital Estadual Mário Covas, cuja atuação considera incomensurável ao Grande ABC, e a necessidade de se lutar pela Cross (Central de Regulação de Oferta de Serviços de Saúde) Regional. 

Nome: Adriana Berringer Stephan

Aniversário: 28 de fevereiro

DGABC

Onde nasceu: São Paulo

Onde mora: São Caetano

Formação: Cirurgia-geral e endoscopia digestiva, pela Faculdade de Medicina do ABC

Um lugar: Minha casa (São Caetano)

Time do coração: São Paulo FC

Alguém que admira: Minha mãe, Elza Berringer Stephan

Um livro: Minha História, autobiografia da ex-primeira-dama dos Estados Unidos Michelle Obama

Uma música: La Barca, de Luís Miguel

Um filme: Como Eu Era Antes de Você (2016), dirigido por Thea Sharrock.

Em meados do ano passado a sra. falou que a saúde precisava passar por um processo de reestruturação diante de dificuldades financeiras e operacionais. Quais resultados concretos já podem ser apresentados?

Os dados são fundamentais para qualquer tomada de decisão de qualquer gestor público, e nós não tínhamos. Embora haja um sistema com prontuário eletrônico, os dados não são de fácil visualização e disponibilização. A tratativa com o sistema é bem complicada. Acabamos contratando um engenheiro de dados que está fazendo isso conosco, que é o que hoje está sendo chamado de SmartSanca Saúde e que já nos permite uma série de dados que são super relevantes. Hoje, conseguimos saber quantos pacientes estão esperando na porta do (Hospital Municipal de Emergências Albert) Sabin, quantos estão esperando o dentista na porta da UPA (Unidade de Pronto Atendimento). Conseguimos saber quanto tempo está sendo a média para passar na classificação e para ser atendido. Conseguimos saber quantos dos atendimentos geraram internação, a taxa de ocupação dos leitos de todo o município dentro desse painel e, ultimamente, começamos a inserir o gráfico de absenteísmo, que tem essa limitação da capacitação do pessoal de ponta, mas que já começa a acontecer dentro das consultas do Complexo Hospitalar Municipal. Sabemos quantos faltaram e qual a porcentagem. Aos poucos, estamos desenvolvendo esses dados, que já conseguem nos dar informações sobre o que está acontecendo no município.

Como está hoje a situação financeira da Secretaria de Saúde? 

A situação financeira ainda é bastante delicada. Temos uma saúde que foi estruturada de forma muito maior do que o orçamento permitia. No ano passado, começamos com orçamento de R$ 484 milhões, contra R$ 595 milhões utilizados em 2024. Então, começamos com R$ 110 milhões a menos de orçamento, além dos R$ 74 milhões para fornecedores que ficaram sem pagamento junto à Fundação do ABC. Ou seja, começamos com quase R$ 200 milhões negativos. Isso não é fácil de equacionar. Neste ano temos orçamento de R$ 551 milhões, que também ainda não é o ideal. Estamos fazendo movimentos junto à Secretaria de Fazenda para que possamos equalizar isso com um pouco mais de tempo e colocando a casa em ordem. 

Em relação aos repasses estaduais e federais, há atrasos? Os valores repassados pelo SUS (Sistema Único de Saúde) Paulista são suficientes?

Infelizmente, o SUS estadual apresenta um histórico recorrente de atrasos para nós. O programa de diabetes, por exemplo, do último trimestre de 2025, que esperávamos a entrada em janeiro de 2026, foi acontecer só agora em março. O programa Dose Certa também sofre atrasos frequentes de repasse, além da entrega dos medicamentos que recebemos do Estado. Os valores repassados pelo SUS paulista não são suficientes. Temos o dado de que, em 2025, 81% das despesas com saúde foram feitas com receita própria e apenas 18,6% com recursos oriundos do SUS federal e estadual. Desses 18,6%, 75% vêm da União e só 25% vêm do SUS estadual. Então, os repasses não são suficientes. Temos uma tabela, o MAC (Média e Alta Complexidade), que não é atualizada, que é o nosso teto junto ao Ministério da Saúde, e estamos fazendo movimentos constantes na tentativa de atualização. Produzimos muito mais do que recebemos e ainda não tivemos a concessão da revisão desse teto MAC, que chegaria em torno de R$ 27 milhões ao ano a mais para a saúde. 

O governador se comprometeu a incluir hospitais municipais na tabela SUS Paulista, o que ainda não ocorreu. Que diferença esse recurso faria no atendimento da saúde? 

O governador fez aquele evento conosco no ano passado. Até o momento, isso não aconteceu. Recebemos aqui em São Caetano somente a produção que é feita pelos exames cardiológicos, ou seja, é muito baixo o que recebemos de tabela SUS Paulista. Isso seria fundamental para todos os municípios, especialmente para os que são gerenciados por organizações sociais de saúde. Que possamos passar a fazer jus a esses valores, porque isso traria aumento significativo para o orçamento e para a condução da saúde, podendo ampliar a oferta de exames e de consultas com esse valor adicional.

A sra. presidiu a Fundação do ABC. Como vê a importância do Hospital Mario Covas no atendimento da região e na formação dos estudantes de Medicina?

Presidi a Fundação do ABC no biênio 2020-2021, exatamente nos anos da pandemia. Foi um ensinamento. Sou egressa da Faculdade de Medicina do ABC. Infelizmente, não tive a oportunidade de frequentar o Mário Covas enquanto aluna, porque ainda não estava pronto. Porém, o que o Mário Covas faz para a região é incomensurável, a importância que o serviço do hospital tem para nós. Não só na formação. A Faculdade de Medicina do ABC está sempre bem colocada nas avaliações nacionais exatamente pela qualidade da formação do seu egresso. Os alunos têm um campo de estágio muito qualificado no Mário Covas, com a oportunidade de formarmos alunos com a graduação que precisamos ter. A Faculdade de Medicina do ABC tem grande parte da sua formação hoje vinculada ao Mário Covas, o que é muito importante para a instituição de ensino e à região também. É um hospital que atende os sete municípios com maestria, de alta complexidade, que realiza uma série de procedimentos. Todos os municípios fazem muito bom uso do que o Mário Covas tem a nos oferecer. Portanto, é um equipamento fundamental à Faculdade de Medicina do ABC e para a saúde da região.

A Cross (Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde) Regional ainda não é uma realidade. Que diferença faria para a região tendo em vista a regulação hoje é feita pelo Estado? 

É um sonho que temos e pelo qual precisamos batalhar para tirá-la do papel. Temos uma região muito bem montada, estruturada, cada cidades com as suas peculiaridades, e a possibilidade de os municípios se ajudarem. Termos uma Cross que regulasse os hospitais estaduais da região somente para nós seria fundamental. Além disso, a Cross Regional vai permitir que possamos ampliar essa cooperação. Já nos ajudamos hoje entre os municípios, mas poderíamos fazer essa ajuda de uma forma regulada e balizada, com os municípios acolhendo melhor a região como um todo. 

Já há uma solução para o projeto do Pronto Cardio?

O Pronto Cardio era financeiramente inviável. Um serviço de hemodinâmica requer retaguarda de uma equipe cirúrgica em um centro cirúrgico de alta complexidade que não temos no município, além de ter um custo exorbitante para a quantidade de procedimentos que temos, em média, para serem realizados na cidade. Estamos trabalhando na habilitação do espaço para uma nova utilização. Ainda continuamos sem a adequação da cabine primária. Estamos agora iniciando a licitação para adequar a cabine. Quando chegamos, o prédio tinha 11 leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e não tinha água quente. Havia uma série de problemas. A questão da água quente já foi superada, mas temos outro problema lá: os leitos de UTI estão fora da norma. As camas não cabem nos boxes que foram construídos. Então, vamos fazer a adequação. Se um paciente precisar de atendimento e a cama dele for deslocada para ser entubado, por exemplo, impedimos a circulação no restante da unidade por aquele corredor. Então, vamos adequar o prédio para que possamos transferir toda a nossa UTI para lá, ampliando, assim, o número de leitos. 

O recadastramento de usuários da rede municipal de saúde gerou críticas de parte da população?

O recadastramento, claro, gerou um pouco de desconforto para o usuário. Não era o que queríamos, mas agora está em uma fase estabilizada. As coisas estão sendo feitas de uma maneira mais calma. O recadastramento teve um resultado expressivo. Começamos junho (de 2025) com 260.927 cadastros e agora fevereiro chegamos com 196.704. Estamos falando de mais de 60 mil cadastros excluídos e que deixaram de fazer uso da saúde municipal.

Quais as principais metas da secretaria para os próximos anos? 

Há muita coisa para fazermos. Acreditamos que o principal seja a qualificação da oferta que damos e também da informação que precisamos ter. Precisamos seguir nesse processo de reestruturação e de qualificação. Um dos nossos lemas é “qualificar para cuidar”. Temos uma série de projetos. O projeto da central de regulação municipal, por exemplo, é algo importante que trará uma diferença significativa na regulação dos nossos usuários. Temos também o núcleo de jornada cirúrgica, que não deixa de cumprir uma função de regulação, mas que também nos trará mais informações e, com isso, permitirá a tomada de decisões baseadas em evidências. Antes, muitas decisões eram tomadas sem essa base comprovada. Temos uma lista extensa de tudo o que gostaríamos de fazer, mas é claro que tudo tem tempo e custo. Por isso, seguimos avançando com parcimônia e com os pés no chão, fazendo o que é possível para oferecer ao município de São Caetano a melhor saúde possível.




Comentários

Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.


;