Entrevista da Semana
FOTO: André Henriques/DGABC

Com mais de 25 anos de experiência como engenheira química, a gerente de produção da Braskem, Ivete Jesus, é responsável pelas unidades de produção de polietileno no Grande ABC e em Cubatão, à frente de operações estratégicas para o negócio. De Salvador, onde nasceu, a Santo André, onde mora, a trajetória dela é marcada pela resiliência, autonomia e determinação diante barreiras de gênero, raça e classe. Atuando para ampliar a competitividade da empresa, ela destaca ao Diário que o conhecimento é o caminho para driblar preconceitos. Fala também sobre a necessidade de lideranças que priorizem a transparência e o diálogo assertivo.
Raio-X
Nome: Ivete Jesus.
Aniversário: 7 de julho.
Onde nasceu: Salvador.
Onde mora: Santo André.
Formação: Engenheira química pela Universidade Federal da Bahia, com especialização em Segurança do Trabalho pela mesma instituição, MBA pelo Insper e formação executiva em liderança pelo MIT Professional Education.
Um lugar: Morro de São Paulo (BA).
Time do coração: Vitória.
Alguém que admira: Vice-presidente Industrial da América do Sul da Braskem, Ana Carolina Viana.
Um livro: Inteligência Positiva, de Shirzad Chamine.
Uma música: O Leãozinho, de Caetano Veloso.
Um filme: Tomates Verdes Fritos, de Fannie Flagg (1991).
Quais são as prioridades para 2026 do setor de produção de polietileno das duas plantas da Braskem?
Temos trabalhado em projetos para garantir maior confiabilidade, produção contínua e expansão do fornecimento da cadeia de plásticos. Projetos relacionados a novas resinas também estão no nosso radar, porque possuímos várias aplicações. Pensamos em novos catalisadores que consigam reduzir os custos para sermos mais atrativos nos mercados nacional e internacional.
Quais são os maiores desafios para ampliar o potencial competitivo da empresa?
A demanda por polietileno no mundo não aumentou. A oferta, sim. Vários países que eram compradores dessa resina passaram a produzi-la, como a China. Os preços têm encolhido. Nesse cenário, o objetivo é colocar produtos mais em conta e melhor qualidade que consigam dar mais visibilidade à nossa produção.
O que a Braskem tem feito para reduzir o custo operacional? Quais recursos ajudam nessa economia?
Para produzir, usamos energia elétrica, gás combustível, gás natural, compramos catalisadores e insumos mais baratos, sem perder a qualidade. Dentro da indústria, que é onde meu time entra, tentamos realizar processos mais enxutos. Se antes eu usava cinco toneladas de matéria-prima, será que consigo fabricar a mesma quantidade de produto com quatro toneladas e meia? Ser competitivo é fazer mais com menos. Ao falar da cadeia do plástico como um todo, o principal recurso é a nafta, que vem da cadeia do petróleo e é regida pelo preço internacional do barril. Procuramos inúmeros fornecedores para ajudar a diferenciar o processo.
Como as atuais oscilações do preço do barril de petróleo por causa do fechamento do estreito de Ormuz têm afetado o trabalho da Braskem?
A guerra no Irã refletiu rapidamente nos valores, que são designados de forma global. Nossa provocação é compreender o mercado geopolítico, especificamente esses conflitos e brigas de poder. Entender as movimentações da China, dos países do Oriente Médio, do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A nossa área de inteligência de mercado visa conseguir se antecipar para sabermos como lidar caso o setor petroquímico enfrente alguma instabilidade.
A pauta sustentável também é uma das prioridades quando se debate competitividade. Como a empresa garante que os indicadores de sustentabilidade sejam otimizados nas áreas industriais?
Todas as empresas emitem um relatório anual de sustentabilidade, com indicadores de consumos de água e energia e geração de resíduos. Nós somos instigados a trabalhar a partir desses números. Qualquer engenheiro da Braskem que trabalha na área industrial recebe metas para melhorar esses patamares.
Como a senhora equilibra o trabalho nas duas unidades e quais são as estratégias dessa liderança?
Clareza e presença. Moro no Grande ABC e vou para Cubatão duas vezes por semana. Estar próxima da equipe, seja presencialmente ou de forma remota, é o segredo. Eu gosto de estar no chão de fábrica, ir a campo, colocar EPI (Equipamento de Proteção Individual), conversar com o pessoal que está na linha de produção e ver cada obstáculo e processo. Só assim consigo entender como posso ajudar.
Uma pesquisa da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) revelou que nove em cada dez meninas entre 6 e 10 anos entrevistadas em São Paulo, na Cidade do México e em Buenos Aires acreditam que a engenharia é uma profissão para homens. Como foi o processo para escolher essa profissão?
Eu sou filha de pedreiro e dona de casa. Sou a terceira de quatro filhos. Meus pais não cursaram ensino superior. Então, não pensava nisso. Minha irmã mais velha começou a dar aulas particulares em casa e quando chegava nas questões de matemática, ela me pedia ajuda. Foi ela quem me sugeriu fazer escola técnica, onde cursei metalurgia. Só tinha eu de menina na sala. Até para estagiar foi difícil por ser uma área majoritariamente masculina. Apesar disso, consegui o emprego. Com o dinheiro, paguei um cursinho e passei em engenharia química na UFBA (Universidade Federal da Bahia). Sempre gostei de exatas. Na universidade, me deparei com pessoas de outro nível social. Era bem diferente da minha realidade. Mas como conhecimento é nosso, algo que ninguém pode nos tirar, corri atrás e me formei.
A senhora trabalhou por um tempo no Polo Industrial de Camaçari, na Bahia, maior complexo integrado do Hemisfério Sul, antes de ser transferida para São Paulo. Como foi até ingressar na Braskem?
Iniciei minha carreira na Gerdau e, posteriormente, atuei na DNV, com foco em segurança de processos. Visitava bastante o Polo. Durante essa viagens, ficava encantada pelas indústrias, achava a coisa mais linda do mundo as fumaças que saem das torres. Consegui uma vaga afirmativa em uma empresa chamada Monsanto, que hoje é Bayer, e foi nesse momento, em 2004, que entrei na vida industrial. Fui coordenadora de laboratório e de produção. Em paralelo, casei e engravidei. Quando estava na licença-maternidade, comecei a ‘namorar’ a Braskem. Uma amiga sugeriu que eu mandasse o currículo e achei que não passaria porque estava com uma bebê recém-nascida. Mas, eu passei no processo seletivo. Entrei na Braskem em 2011 e, nove anos depois, recebi a proposta de trabalhar no Grande ABC. Cheguei aqui em 2020 e, após dois meses, foi declarada a pandemia. Enfrentamos essa crise sanitária e, em um momento em que todos estavam em casa, a fábrica exigiu ainda mais do meu trabalho porque nossa produção foi altamente demandada.
Como as demandas geradas pela ascensão profissional são conciliadas com a maternidade?
Quando passei na Braskem, conversei com meu marido porque era uma grande decisão. Eu mudaria para uma grande empresa para atuar na área produtiva. Tudo isso com uma filha pequena. Decidi arriscar. Enfrentar a pandemia com duas crianças em um novo Estado me provou que não existe mais isso de que a mulher precisa escolher focar no desenvolvimento da carreira ou no zelo da família. Sempre tive em mente que não deixaria nenhum sonho profissional para trás. A paternidade responsável também ajuda nisso. Minhas meninas estão com 10 e 15 anos. Quero ser referência de determinação para elas.
Ao longo da sua história, a senhora mencionou diferentes marcadores sociais, como o fato de ter sido a única mulher no curso técnico e as diferenças sociais na faculdade. Como avalia a presença feminina na sua área de atuação?
Consegui chegar em um cargo de liderança porque outras mulheres vieram antes e abriram as portas. Muitas vezes, eu me enxergo como a única nos espaços e isso não me agrada. Não gosto de ver que algumas mulheres que passam na porta da indústria pensam que esse não é um lugar para nós. Não deve ser assim. Se quisermos estar aqui, podemos sim nos dedicar e sermos protagonistas na área. Ainda temos muitos aspectos para trabalhar. Com a minha presença, elas conseguem ter um olhar diferente. Mulher veste EPI, uniforme, bota, capacete. Pode vir maquiada. Não tem problema nenhum. Nada disso interfere na competência. Na minha posição, busco ter o trabalho de educar meus colegas homens. Muitos reproduzem falas e preconceitos automaticamente. Não basta ter um ambiente diverso se ele não priorizar, de fato, a inclusão. Vejo comentários e falo: ‘você diria isso se fosse sua irmã ou sua filha?’. A comunicação assertiva é uma ferramenta para mudar o cenário de desigualdade.
Além do gênero, de que forma a questão racial se impõe no seu trabalho? Como a senhora analisa essa desigualdade dentro das estruturas corporativas e o que ainda precisa mudar?
Quando eu estava na escola técnica, não via muito essa diferença. Na Bahia, a maioria da população é negra. Mas, quando eu entrei na faculdade, foi uma baque, me senti fora do meu habitat. Apesar de estar em Salvador, era um lugar extremamente branco. Quando trabalhei na área operacional em Camaçari, a maioria das pessoas também era negra. Quanto mais você sobe de cargo, vai para gerência, liderança, menos pessoas pretas você vê. Eu não era representada em nenhuma instância, mas existe um negócio que abre portas: tudo o que você conquista de conhecimento é seu e pode ser usado muito a seu favor. Foi o que mudou minha vida. Apesar de vieses da branquitude e do machismo, nós somos cobrados por resultado no fim do dia.
Na sua avaliação, a indústria ainda é um ambiente hostil para minorias? Como reverter esse cenário?
Sou uma líder nordestina, mulher e negra. Tem gente que me olha e só falta dizer: ‘cadê o homem branco?’. São desafios. Para o negro, a luta nunca termina. Às vezes, em reuniões, não conversam comigo, só direcionam as falas para outros executivos. Quando estamos na posição do ignorado, essa movimentação é perceptível. Não afeta no meu trabalho, mas são sinais que escancaram as desigualdades que ainda são perpetuadas. Há uma expectativa de que quem vai resolver é o homem. Não é mais assim. O que me conforta é quando um colaborador, que nunca teve uma líder parecida comigo, elogia o trabalho. Nós, mulheres, temos vantagens competitivas, que passam pela humanização e sensibilidade. Esse olhar diferenciado faz com que os conflitos sejam solucionados com mais rapidez e empatia.
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