Cultura & Lazer Titulo Entrevista da Semana

Marilia Marton Correa: ‘A cultura precisa tirar as pessoas da bolha’

Fabio Junior
Especial para o Diário
23/03/2026 | 08:05
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FOTO: Nario Barbosa/DGABC
FOTO: Nario Barbosa/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


À frente da Secretaria de Cultura, Economia e Indústria Criativa do Estado de São Paulo, Marilia Marton construiu trajetória marcada por atuação na gestão pública e pela articulação entre cultura, inovação e desenvolvimento urbano. Ao longo desse percurso, acompanhou as transformações do conceito de cultura, que hoje vai além das linguagens tradicionais e incorpora áreas como tecnologia, design e economia criativa. Para Marília, acompanhar a velocidade das mudanças tecnológicas e manter políticas públicas flexíveis são essenciais para que a cultura continue exercendo seu papel de formação crítica.

Raio-X

Nome: Marilia Marton Correa 

DGABC

Aniversário: 23 de julho 

Onde nasceu: São Paulo 

Onde mora: Bom Retiro, São Paulo 

Formação: Socióloga

Um lugar: Campo 

Time do coração: São Paulo FC

Alguém que admira: Jô Soares

Um livro: Assassinatos na Academia Brasileira de Letras, de Jô Soares

Uma música: Luiza, de Tom Jobim

Um filme: DNA do Crime (2023), serie televisiva de Heitor Dhalia, Bernardo Barcellos e Leonardo Levis

Em que momento de sua trajetória, a sra. decidiu que gostaria de atuar diretamente na gestão pública e na área da cultura?

Acho que na minha trajetória as coisas foram acontecendo muito pelo caminho de Deus. Entrei na faculdade em 1997 e em 1999 já estava trabalhando na Assembleia Legislativa (de São Paulo) com o deputado Turco Loco, que atuava nas áreas de esporte, cultura e juventude. Então, comecei a me relacionar com essas áreas ligadas aos jovens, às questões sociais e culturais. Quando fui fazer política, na verdade, queria trabalhar com comunicação. Depois tive experiências na Secretaria da Educação, na Prefeitura e em outras áreas da gestão pública. Poderia ter feito jornalismo ou comunicação, mas eu queria ser especialista em política. A gestão pública está na minha trajetória. Então, foram os caminhos que me levaram a trabalhar nesse universo.

Antes de assumir a secretaria estadual, a sra. teve atuação importante em São Caetano. De que forma essa experiência no Grande ABC influenciou sua visão sobre políticas culturais regionais?

Em São Caetano trabalhei como secretária de Governo e, depois, na Câmara, como diretora administrativa. Foi uma experiência diferente, porque já tinha trabalhado na Assembleia Legislativa, mas ali era uma atuação mais política. Na Câmara tive uma visão mais administrativa. Em São Caetano havia um desafio: como uma cidade com ótimos indicadores poderia se adaptar aos desafios do século XXI. Foi nesse período que fiz mestrado em cidades inteligentes. Quando olhamos para regiões como o Grande ABC, vemos que foram historicamente ligadas à indústria. Porém, a indústria também está mudando, com automação e novas tecnologias.

Quais políticas têm sido mais eficazes para democratizar o acesso à cultura?

Ampliamos o ProAC (Programa de Ação Cultural), que é o principal programa de fomento cultural do Estado. Também estimulamos co-produções entre empresas da Capital e do Interior, fortalecendo núcleos criativos em outras regiões. Além disso, ampliamos programas como o Revelando São Paulo para várias cidades do Interior. Hoje a secretaria chega a realizar atividades culturais em todos os 645 municípios do Estado.

Como equilibrar investimentos entre Capital, Interior e regiões metropolitanas, como o Grande ABC?

Criamos várias estratégias, como o aumento do fomento para o Interior e programas de difusão cultural. Também incentivamos produções cinematográficas em diferentes cidades do Estado. Assim conseguimos estimular a produção cultural fora da Capital. 

A cultura enfrenta dificuldades para ser prioridade nas políticas públicas. Qual o foi o maior desafio que encontrou ao assumir a Pasta? 

Tive o privilégio de voltar para uma secretaria que já conhecia, porque tinha trabalhado aqui por cinco anos como chefe de gabinete. Então, conhecia bem a estrutura e sabia quais eram os desafios internos da secretaria. O trabalho foi amadurecer a Pasta para entender o que é cultura hoje. Hoje cultura não é só teatro, música ou cinema. Também inclui games, cultura pop, realidade virtual, design, moda, gastronomia e publicidade. Ampliamos o entendimento de cultura dentro da secretaria e começamos a trabalhar com essas novas linguagens.

Qual o potencial da economia criativa para gerar emprego e renda?

A cultura tem uma cadeia produtiva enorme. Quando pensamos em um espetáculo de teatro, não existe só o ator. Existem iluminadores, figurinistas, maquiadores, sonoplastas, produtores, técnicos e muitos outros profissionais. Depois da pandemia houve uma grande perda de mão de obra especializada, e foi por isso que criamos o CultSP Pro, que é a escola de profissionais da cultura, para formar novos trabalhadores para esse setor.

Como a tecnologia pode ajudar na preservação do patrimônio cultural?

A digitalização de acervos e o uso de novas tecnologias ajudam a democratizar o acesso à cultura. Temos pesquisado muito sobre tecnologias que ampliem o acesso e permitam preservar o patrimônio cultural.

O Grande ABC tem uma forte tradição cultural ligada ao movimento operário, ao teatro e à música. Como o governo do Estado pretende fortalecer essa identidade cultural na região?

Temos feito várias parcerias. Existe a Fundação das Artes em São Caetano, e também parcerias como o projeto Criar, do qual Santo André e São Caetano fazem parte. Também temos as Fábricas de Cultura em Diadema e em São Bernardo, que são equipamentos do Estado dentro do território. Além disso, o CultSP Pro tem feito parcerias com os municípios para levar cursos de acordo com a vocação de cada cidade. Realizamos uma pesquisa chamada Giro Pro, na qual reunimos artistas, secretários de cultura, conselhos e representantes locais para ouvir o que cada município precisa. A partir disso, desenhamos cursos específicos para cada lugar. Cada cidade tem sua particularidade. Santo André, por exemplo, é um berço de comediantes e tem uma cena forte de stand-up. Então, o que levamos para São Bernardo não é necessariamente o mesmo que levamos para Santo André. O objetivo é fortalecer a identidade cultural de cada região.

A sra. defende a presença da cultura na educação. Como políticas culturais podem contribuir para a formação crítica e criativa de crianças e jovens?

Recentemente divulgamos uma pesquisa feita em parceria com a Fundação Itaú, a Santa Marcelina, que administra o Projeto Guri, e a Prefeitura de São Paulo. A pesquisa comparou crianças que fazem atividade musical com as que não fazem. O resultado foi impressionante. Aquelas que participam do Guri apresentam avanços na cognição, na inteligência emocional e até no desempenho em matemática e lógica. Em média, a criança que faz música chega a ter um ano de desenvolvimento à frente em relação à que não faz. Por isso, estamos trabalhando para integrar cultura e educação. Com o avanço das escolas de período integral, estamos ampliando o Projeto Guri dentro das unidades de ensino. No ano passado eram 100 escolas, neste ano serão 200. Também estamos desenvolvendo programas de dança, expressões corporais e teatro para ampliar essa presença da cultura dentro da educação. 

Em um cenário de mudanças tecnológicas e sociais rápidas, qual é o papel da cultura para fortalecer a identidade e o senso de pertencimento das comunidades?

As redes sociais e os algoritmos tendem a nos colocar em bolhas. Quando isso acontece, a pessoa começa a ver sempre as mesmas coisas e perde a diversidade de olhar. O papel da cultura é justamente romper essas bolhas. Às vezes a cultura incomoda, desafia, provoca. Você pode assistir a um espetáculo divertido ou a uma peça que lhe faz refletir profundamente. A cultura amplia o repertório das pessoas e faz com que elas enxerguem o mundo em toda a sua diversidade. Essa é a grande responsabilidade de quem trabalha com cultura: ajudar a formar repertório e pensamento crítico.

Quando a sra. olha para o futuro da cultura no Estado de São Paulo, quais são os principais desafios que ainda precisam ser enfrentados?

A cultura está em constante transformação. Quem assumir a secretaria no futuro certamente vai enxergar desafios diferentes dos que eu vejo hoje. Um dos grandes desafios é acompanhar a velocidade das mudanças tecnológicas. Por exemplo, quando criamos o CultSP Pro, optamos por um modelo mais flexível justamente para conseguir acompanhar a velocidade da cultura e das novas tecnologias, como a IA (Inteligência Artificial). Se não tivermos essa agilidade, corremos o risco de ficar atrasados em relação às transformações que estão acontecendo no setor.

Qual é o papel da cultura no fortalecimento das vozes femininas e na luta por mais igualdade social?

Hoje o espaço cultural é muito ocupado por mulheres. Em muitas áreas da cultura já vemos uma presença feminina predominante. No universo criativo, as mulheres têm uma capacidade muito grande de transitar entre diferentes áreas e pensar de forma transversal. Isso contribui muito para os processos criativos. Mesmo em setores que historicamente eram mais masculinos, como o cinema, já vemos uma mudança significativa, com cada vez mais mulheres atuando e produzindo.

Quais foram os principais desafios que a senhora enfrentou como mulher na gestão pública?

Brinco que sou uma mulher feminina, sou casada, sou hétero, mas luto como os homens. Foi assim que sobrevivi na política. A gestão pública ainda é um ambiente desafiador, mas acredito que as mulheres têm conquistado cada vez mais espaço.




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