Artigo A expansão acelerada de escolas médicas no Brasil intensificou o debate sobre a qualidade da formação. Nesse contexto, o Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica) surge como importante indicador. No Grande ABC, o Centro Universitário FMABC obteve conceito 4, com 89,8% dos estudantes acima do nível esperado e a 44ª posição entre cerca de 350 cursos, desempenho comparável ao de instituições públicas tradicionais.
Esse resultado reflete uma trajetória sólida, baseada na integração com o SUS (Sistema Único de Saúde), na qualificação docente e, sobretudo, na forte inserção dos alunos em cenários reais de prática. O internato supervisionado é etapa essencial da formação, permitindo o desenvolvimento de competências clínicas em contato direto com pacientes, com orientação qualificada e alinhada às diretrizes nacionais.
Mas esse modelo começa a enfrentar um risco crescente: a disputa pelos campos de estágio. A abertura de novas escolas, muitas com desempenho insatisfatório, tem levado a uma concentração de instituições nos mesmos serviços de saúde. Sem planejamento regional e regulação clara, unidades passam a receber múltiplas escolas, gerando superlotação e comprometendo o processo pedagógico.
Esse “overbooking educacional” afeta diretamente a qualidade do internato, que exige supervisão adequada e número equilibrado de alunos por preceptor. O excesso reduz a vivência prática e limita o aprendizado, transformando o estágio em atividade predominantemente observacional.
Outro ponto é o modelo de relação com os municípios, poder manter parcerias históricas baseadas em contrapartidas institucionais, como capacitação de profissionais, implantação de serviços e apoio à rede, fortalecendo o SUS. Em contraste, observa-se a adoção de pagamentos diretos por campos de estágio, criando uma lógica concorrencial que pode desorganizar tanto a assistência quanto a formação.
Além disso, nem sempre os preceptores vinculados a esse modelo estão alinhados aos projetos pedagógicos, o que reduz a qualidade formativa. Diante desse cenário, surge a preocupação: será possível manter padrões de excelência com campos de prática saturados?
A qualidade da formação médica depende não apenas das instituições, mas também das condições dos cenários de aprendizagem. A cooperação construída no Grande ABC entre o FMABC e os municípios trouxe ganhos concretos, mas está ameaçada. A mercantilização dos campos de estágio compromete a formação e penaliza instituições comprometidas com a qualidade. O SUS, como patrimônio público, não pode ser tratado como moeda de negociação educacional.
Roseli Oselka é pró-reitora de Graduação do Centro Universitário FMABC (Faculdade de Medicina do ABC).
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