Destaque Torcedora do Azulão, Larissa Gil Coca é a atual presidente da Comando Azul, e reflete sobre o papel feminino no futebol
Nario Barbosa/DGABC

Em 2008, uma “matada de aula” levou Larissa Gil Coca, hoje com 34 anos, ao Estádio Anacleto Campanella. Na época, ela aceitou o convite de um amigo para assistir um jogo do São Caetano e decidiu ficar na arquibancada da Comando Azul, mas o que começou como curiosidade virou compromisso.
Residente do bairro Boa Vista, no município são-caetanense, ela passou a frequentar todos os jogos da equipe, mas se afastou quando se casou e engravidou. O seu retorno aconteceu em 2018, onde em pouco tempo assumiu funções administrativas.
Três anos atrás, foi eleita presidente, cargo que ocupa até os dias de hoje, tornando-se a única mulher no Brasil a presidir uma torcida organizada. “Não pensei em ser presidente, eu basicamente só quis ajudar. A presidência foi consequência do trabalho”, comentou.
A rotina vai além da festa, pois Larissa coordena a entrada de instrumentos e bandeiras junto à PM (Polícia Militar), ordenando a distribuição de ingressos e articulando a presença da torcida dentro e fora de casa. “Ser organizada é ter responsabilidade. A gente responde por pessoas, por patrimônio e pela imagem do grupo”, disse.
Em um ambiente historicamente masculino, ela diz que já ouviu comentários machistas, mas nunca deixou que isso a definisse. “Já disseram que eu só estou aqui por ser mulher ou porque sou bonita. Isso desmerece qualquer profissão. Mas estou aqui por mérito e dedicação”, rebate. “Faltam mais mulheres ocupando esse espaço. A arquibancada também é nossa”, completou.
Mesmo com o time vivendo um momento difícil, disputando a Série A-4 do Campeonato Paulista, Larissa mantém o discurso de esperança. Ela relembra o período um crítico, onde o Azulão sofreu uma goleada de 9 a 0 para o Pelotas-RS, pela Série D do Campeonato Brasileiro, em 2020.
“Ali eu pensei que o São Caetano iria acabar. Foi um dos momentos mais duros como torcedora. Mas eu também aprendi que a gente não abandona o que ama na pior fase”, recorda.
Entre as memórias mais marcantes está o título da Copa Paulista de 2019, quando na final, diante do XV de Piracicaba, levou seu filho Nicholas Gil Marques ainda pequeno para o local da partida, que na época tinha apenas um ano de vida. “Ter meu filho comigo naquele título foi especial demais. E quero que ele cresça entendendo o que é o amor por um clube, o que é pertencimento”, afirma.
Taróloga e cartomante, ela organiza os próprios horários para conciliar sua profissão, maternidade e presidência na torcida. Em dia de partidas no meio da semana, muitas vezes não consegue ficar até o fim, mas faz questão de estar presente. “Apoiar o São Caetano é uma das coisas que eu mais amo fazer. Mesmo que eu fique apenas meia hora, eu venho. Jamais vou abandonar”, reforça.
No mês da mulher, ela deixa um recado simples: “Não esperem convite. Estejam presentes, assumam responsabilidades. O espaço não é dado, é conquistado”, finaliza.
OUTROS NOMES
Larissa faz parte de uma trajetória construída por outras mulheres que desafiaram o patriarcado das arquibancadas. A pioneira foi Dulce Rosalina, que assumiu em 1956 a presidência da TOV (Torcida Organizada do Vasco), tornando-se a primeira mulher à frente de uma organizada no País.
Em 1994, no Nordeste, Fátima Batista presidiu a TUF (Torcida Uniformizada do Fortaleza), uma das grandes representantes do Leão da Pici, que hoje atua como coordenadora do futebol feminino da instituição. Mais recentemente, Carla Ribeiro comandou a Urubuzada, ligada ao Flamengo, entre o período de 2022 até 2024.
Histórias como essas reforçam que o futebol brasileiro, seja dentro ou fora de campo, também é lugar de uma liderança feminina.
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