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Denise Szabo: ‘Cultura não é gasto, é investimento’

Yuri Kumano
Especial para o Diário
16/03/2026 | 08:00
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FOTO: André Henriques/DGABC
FOTO: André Henriques/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


A produtora cultural e documentarista Denise Szabo vem consolidando seu nome no audiovisual do Grande ABC. À frente da Ibirá Cultural, ela atua na criação de filmes que resgatam memórias, identidades e histórias muitas vezes invisibilizadas na região. Entre seus projetos mais recentes está o documentário Vou-me Embora, que aborda a vinda de nordestinos para o Grande ABC e lança luz sobre as trajetórias que ajudaram a moldar a identidade das cidades da região. Denise também investe na formação e fortalecimento do setor criativo local, com oficinas e iniciativas culturais.

Raio-X

Nome: Denise Szabo

DGABC

Aniversário: 30 de novembro

Onde nasceu: São Caetano

Onde mora: São Caetano

Formação: Cinema na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina)

Um lugar: Florianópolis 

Time do coração: Corinthians

Alguém que admira: A mãe, Leda Szabo

Um livro: Ainda Estou Aqui, Marcelo Rubens Paiva

Uma música: Por Onde Andei, Nando Reis

Um filme: Visages, villages, de Agnès Varda, 2017

Qual foi o ponto de partida para a criação de Vou-me Embora e o que te motivou a contar essa história?

Eu fiz um filme chamado Cartas para Cecília para minha avó. Ela faleceu e, a partir da morte dela, surgiram algumas histórias familiares. Sou descendente de nordestinos e sempre surge essa visão dos sudestinos de que a pessoa sai do Nordeste por conta da seca ou da fome. Sempre pensei que essa fosse a história dos meus avós, mas uma tia me disse: ‘Não, na verdade, eles vieram por causa da política, meu pai era político e foi ameaçado de morte’. Ninguém falava disso. Eu passei a minha infância, adolescência e boa parte da vida adulta sem saber dessa história. Com isso, fui pesquisar sobre migração do Nordeste para São Paulo e, principalmente, sobre as disputas políticas da região, porque eu tinha uma preocupação de que esse filme, para além da história da minha família, não fosse um filme sobre retirantes vindo para São Paulo, como se a cultura nordestina fosse somente baseada na miséria.

Como foi o processo de pesquisa por trás do documentário e como a Sra. enxerga o papel dos acervos em preservar a história da região?

A gente teve alguns processos de pesquisa. O primeiro, que é o momento anterior ao projeto, é um levantamento de dados: quem são as pessoas que migraram, qual é o perfil delas, de onde vieram; uma coisa mais técnica, no sentido de: ascensão, a não ascensão social, perfil dos bairros, demográfico, etc. Depois disso, vem o filme, onde a gente começa a pesquisar imagens que eu chamo de imagens ideais. Então, por exemplo, seria interessante a gente ter uma imagem da Marinha para o filme, e aí a gente começa a procura por essas imagens. Então, tem todo esse trabalho de pesquisa nos acervos. As principais fontes são sempre Cinemateca, Arquivo Nacional, Fundação Pró-Memória, o antigo INCE (Instituto Nacional de Cinema Educativo) e outros. Sobre a memória do Grande ABC, eu acho que existe um problema: nossos acervos são ricos em material, mas mal cuidados. Quando eu falo sobre a riqueza do material, é porque realmente isso pode ser aproveitado em produções audiovisuais, mas acaba sendo deixado de lado. Esse material, inclusive, pode reverter para as secretarias no sentido da preservação, porque os acervos nos ajudam a entender o nosso presente também, não é só coisa velha largada. A gente precisa olhar para a memória do Grande ABC com um pouco mais de carinho. É muito difícil encontrar material da região, principalmente audiovisual.

Como surgiu a ideia de criar a Ibirá Cultural e qual é a principal missão da produtora?

A Ibirá nasceu em 2019 a partir de uma vontade que surgiu ao longo da minha carreira. Eu fazia filmes como freelancer, até o momento em que eu comecei a contratar pessoas para ajudar nos filmes, com áudio, fotografia, produção, etc. Em certo ponto, pensei assim: ‘Quero abrir uma produtora, acho que chegou o momento de dar esse passo’. Hoje, a produtora tem, além da produção, a formação com o Grande ABC Lab e exibições, como a Mostra Retomada Grande ABC de Cinema, com produções de cineastas locais. Sinto que a missão é justamente essa: reforçar a potência que a região tem, porque temos muitas pessoas boas por aqui.

Quanto ao Grande ABC Lab, como nasceu esse projeto e como a Sra. vê a importância da formação de novos produtores e gestores culturais na região?

Em 2013, eu comecei a dar aulas no CAV (Centro de Audiovisual de São Bernardo) e quando eu entrei lá achava aquilo fascinante, no sentido de, com 16 anos, eu gostaria de ter tido a oportunidade de ter feito um curso como aquele. Na Ibirá Cultural, eu também sempre quis que tivesse formação, que não fosse somente uma produtora, e foi assim que surgiu o Grande ABC Lab, no sentido de que quero produzir filmes, mas também formar pessoas gratuitamente ou a um custo muito baixo, exatamente porque eu acho que é isso que vai fazer com que o nosso mercado se democratize, que seja menos elitizado do que ele é, e isso também proporciona novas narrativas. Vamos formar gente daqui da região para trabalhar na região.

Quais são os maiores obstáculos para produzir cinema independente na região?

O primeiro obstáculo é o financiamento. É legal, eu gosto, tem muita coisa que até faço de graça porque realmente quero, mas não é assim que se trabalha. O amor, infelizmente, não paga as contas. Isso é algo sério e que precisa estar claro, inclusive para os servidores que fazem os fomentos. É um absurdo que se fale em editais de R$ 25 mil. É uma visão retrógrada, porque esses R$ 25 mil não vão para a mão do proponente e, se estiverem indo, é porque não há uma gestão dos recursos. Para um curta pequeno documental, tem no mínimo oito pessoas. Se você divide R$ 25 mil por oito, não paga um aluguel. O segundo ponto é entender que cultura gera renda. Cultura não é gasto, é investimento. A cada R$ 1 investido em cultura, você tem um retorno de quase R$ 7, que, inclusive, é um dado da FGV (Fundação Getúlio Vargas). É um investimento em cidades como as nossas, que estão se desindustrializando, e a cultura é um espaço para que se recupere a arrecadação fiscal. Isso foi algo que deu certo em Londres (Inglaterra), Sydney (Austrália), Detroit (Estados Unidos) e outras cidades do mundo. O Grande ABC teria esse perfil, mas ainda existe uma visão de que a cultura é um passatempo, um hobby, e não é.

 Na pré-estreia de Vou-me Embora, a Sra. comentou que as cidades da região precisam de uma lei de incentivo à cultura mais robusta. Quais seriam os principais pontos que uma lei assim deveria contemplar?

As cidades têm fundos de cultura, mas elas não têm, de fato, uma lei de incentivo à cultura que tenha fomento direto e indireto. São Bernardo, Santo André ou São Caetano possuem uma limitação desse recurso. É importante que a gente tenha um fomento direto, que, inclusive, deve ser o mais robusto, mas a gente já tem maturidade para ter o fomento indireto, que é via ISS (Imposto Sobre Serviços) e IPTU (Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana), que são impostos municipais, aos moldes do que é o Promac (Programa Municipal de Apoio a Projetos Culturais), na Capital. Mogi das Cruzes, por exemplo, é uma cidade da Região Metropolitana que tem um tamanho semelhante às cidades do Grande ABC, e que tem uma lei de incentivo à cultura. O grande medo das prefeituras é sempre: ‘mas vai reduzir a arrecadação’, e não é assim. Vamos supor: eu posso destinar 50% do meu IPTU; ao invés de eu pagar para a prefeitura, eu pago para esse projeto cultural que foi pré-aprovado aos moldes da Lei Rouanet. E aí se fala: ‘Ah, não, mas eu tô reduzindo a arrecadação’, e não se reduz a arrecadação, exatamente porque, quando eu tenho uma produção, seja ela audiovisual ou literária, o dinheiro fica na cidade. Vou dar um exemplo de um filme que fiz em São Caetano. Gravamos o filme em três diárias, toda a equipe veio, todas as refeições foram feitas nos restaurantes daqui, 80% dos insumos foram comprados no comércio local e é por isso que se diz que voltam os tais dos R$ 7. Existe um retorno fiscal muito maior, porque você movimenta o comércio local e gira a economia.

 Ao longo da sua trajetória no audiovisual, quais mudanças a Sra. percebeu nas oportunidades oferecidas às mulheres no setor?

Acho que não houveram avanços, principalmente no âmbito regional, no sentido de que a gente não tem uma política voltada ao empreendedorismo feminino no cinema local. Até mesmo dentro dos editais, o máximo que se tem é uma pontuação bônus, e ainda assim de uma forma feita só para cumprir a legislação que o governo federal impõe. As mulheres estudam mais e têm mais formação — isso é um dado (Fundação Seade) — e, ainda assim, têm menos oportunidades em relação aos homens, tanto de maneira institucional quanto estrutural. Já vivi situações dentro do audiovisual de extremo machismo, acho que quase todas as mulheres já viveram isso, inclusive no setor público, e ainda não são tomadas as devidas providências. Esses temas não são levados a sério.

Quais mudanças a Sra. espera ver nos próximos anos em relação ao cenário feminino no audiovisual regional?

Eu gostaria de ver uma política estruturante para as mulheres, no sentido de haver oportunidades reais, por exemplo, editais com valores significativos e não somente uma questão. ‘Não, vamos deixar aqui um edital de valor pequeno para elas’. E também oportunidades de bolsas de estudo, planos de carreira e coisas que realmente possam fazer com que nós, mulheres, cresçamos, e principalmente que a gente consiga atingir uma equidade nos cargos de liderança, o que ainda está longe de acontecer.




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