Hip Hop Rapper vai percorrer faixas dos 14 álbuns da carreira em show no Sesc da cidade
FOTO: Divulgação/Allan França

O espaço de eventos do Sesc Santo André recebe nesta sexta-feira (13) o show 50 anos de Hip Hop e 50 anos de MV Bill. A ideia é estabelecer paralelos entre a trajetória pessoal do artista e a consolidação do movimento cultural que surgiu na década de 1970. Ao Diário, o rapper afirma que vai percorrer faixas dos 14 álbuns que já lançou e trazer ao público histórias dos processos de composição e inspirações de cada música.
Alimentado por fontes inesgotáveis da música negra brasileira, como o rap, o samba e o funk, MV Bill relata que esse projeto foi montado em 2023 e, agora, chega aos palcos. “O Sesc abraçou essa ideia e estou animado para cantar músicas de momentos importantes da carreira, que mesclam a minha vivência com a essência questionadora e política do hip hop.”
De acordo com ele, revisitar a própria discografia foi uma oportunidade para se reconectar com os motivos que o levaram ao rap. “A música é o que me move, o que mantém viva a minha essência. Fico feliz que, mesmo jovem, entendi a potência dessa cultura que me criou. Quando comecei, era um menor de idade sem nenhuma perspectiva, às vezes sem nem ter almoçado direito, mas que acreditava que o sonho poderia dar certo”, recorda.
Com olhos voltados à Cidade de Deus, bairro na cidade do Rio de Janeiro onde nasceu, MV Bill trará ao público clássicos desde CDD Mandando Fechado (1998), relançado um ano depois como Traficando Informação, até o trabalho mais recente, intitulado como Na Visão do Morador (2024). “A paixão pelas composições e a gratidão pelo hip hop são o que me conectam ao passado. Esse movimento foi a luz em um momento que eu estava perdido no planeta. Enquanto o brilho existir e a chama continuar viva, seguirei na produção.”
CANETA É MUNIÇÃO
Uma das principais características das músicas de MV Bill é a contação de histórias, com letras capazes de dar vida aos enredos a partir da singularidade da vivência de quem ouve.
“Hoje chamam de storytelling. Sempre fez muito sucesso nos Estados Unidos, mas não é todo mundo que consegue executar dessa forma. Quando era adolescente, ouvia os rappers norte-americanos e conseguia entender a mensagem mesmo sem saber inglês. Os clipes e os jeitos de rimar eram capazes de ajudar na interpretação.”
Entre as obras mais recentes, Traumas, lançada há dois anos, relata as vivências de Zé Maria e Dona Glória, personagens que passam momentos de terror, violência e ameaça.
O artista afirma que o processo de composição também inclui a busca pela conscientização social que o rap exige.
“Existem várias versões de um mesmo Brasil. Inúmeras histórias que me dão munição. Não é só escrever. A rima deve ser precisa e fazer sentido com o flow e o clima do beat. Depois de anos de prática, fico feliz em saber que são combinações que consigo administrar. Ter a capacidade de mexer com o imaginário do outro é muito bom, ainda mais ao pensar que cada um cria seu próprio videoclipe. Também é uma oportunidade de expandir a mente sobre a realidade.”
ÁGUA DA FONTE
A perspicácia e inteligência de MV Bill têm como base as inúmeras referências do artista, como Rappin Hood, Thaíde, Beth Carvalho, Arlindo Cruz, Almir Guineto, Fundo de Quintal, Alcione, entre outros. “Eu interpretava sambas-enredos que meu pai fazia na escola aqui da área. Entender a importância desse repertório me deu capacidade de também conseguir ‘samplear’ (retirar parte de uma gravação que já existe e reutilizá-la).”
Segundo ele, trechos da música Estilo Vagabundo, que conta com a participação da irmã dele, Kmilla CDD, e relata a discussão de um casal, tem trechos de Vou Lhe Deixar No Sereno, de Zeca Pagodinho. “Já Marginal Menestrel é um rap com samba rock, que surgiu a partir da influência de Bebeto. É inevitável fazer com que essas fontes respinguem na minha carreira.”
O espetáculo de MV Bill na Rua Tamarutaca, número 302, na Vila Guiomar, começa às 20h e ainda tem ingressos à venda. Os valores variam de R$ 18 (credencial plena), R$ 30 (meia-entrada) e R$ 60 (inteira).
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