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Maria Gracely Batista Marques: ‘Violência não destrói só a mulher, mas toda a família’

João Vittor Espindula
Especial para o Diário
09/03/2026 | 08:10
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FOTO: André Henriques/DGABC
FOTO: André Henriques/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Maria Gracely Batista Marques, conhecida como Graça, afirma que a violência contra a mulher não atinge apenas a vítima direta, mas também toda a estrutura familiar ao seu redor. Especialista em Políticas Públicas e responsável pelo projeto Casa Abrigo Regional do Consórcio Intermunicipal do Grande ABC, Graça coordena o serviço que acolhe mulheres sob risco iminente de morte nas sete cidades da região e atua no enfrentamento à violência doméstica com foco na reconstrução da autonomia das vítimas. “É fundamental divulgar que o poder público pode ajudar a mulher a romper com a violência.”

Raio-X

Nome: Maria Gracely Batista Marques

DGABC

Aniversário: 9 de julho

Onde nasceu: Óbidos, no Pará

Onde mora: São Paulo

Formação: Assistente Social

Um lugar: O Grande ABC

Time do coração: São Paulo Futebol Clube

Alguém que admira: As mulheres do Grande ABC

Um livro: As Operárias do ABC, da Ivete Garcia

Uma música: Pra Não Dizer que Não Falei das Flores; de Geraldo Vandré

Um filme: O Último dos Moicanos, dirigido por Michael Mann; 1992

Para quem ainda não conhece, o que é a Casa Abrigo e qual o principal objetivo?

O Programa Casa Abrigo Regional do Grande ABC é um serviço que acolhe mulheres em situação de violência doméstica e familiar com risco iminente de morte. Seu campo de atuação é, exclusivamente, a região.<EM>

Além da proteção física, quais outros tipos de apoio são oferecidos durante a permanência no abrigo?

A mulher, quando é inserida no serviço, passa pelo que chamamos de portas de entrada, que são os CRAMs (Centros de Referência de Atenção à Mulher). Nos municípios onde não existe esse centro específico, o atendimento é feito pelos CRAS (Centros de Referência de Assistência Social). O Programa Casa Abrigo é um serviço altamente sigiloso. São casas mantidas no Grande ABC. Quando a vítima entra, recebe acolhimento humanizado desde o primeiro momento. A partir da chegada, a equipe passa a encaminhá-la aos serviços necessários, especialmente nas áreas de saúde física e psicológica, porque muitas chegam bastante abaladas.

Muitas mulheres ainda desconhecem o serviço. O que impede uma mulher de chegar até o abrigo?

No caso específico do Programa Casa Abrigo, a principal barreira seja a falta de informação. Por questões de segurança, o endereço não pode ser divulgado, mas é possível levar conhecimento por meio da educação, da publicidade e da divulgação dos direitos dessas mulheres. O Estado está amparado para retirá-las da situação de risco. No meu entendimento, é fundamental divulgar que o poder público pode acolhê-las e ajudá-las a romper com a violência. 

Atuando em um serviço de proteção, o que a senhora diria para mulheres que sofrem violência?

Gostaria de dizer a todos: denunciem. Porém, quando a mulher ainda não se sente pronta para formalizar uma denúncia ou romper imediatamente com o ciclo da violência, é fundamental que, ao menos, busque alguma forma de proteção. Às vezes, ela chega ao serviço e diz: ‘não queria denunciar meu marido. Só queria que vocês conversassem com ele’. Ainda assim, ao procurar ajuda, já está rompendo o silêncio. Nem sempre o primeiro passo será a respon-sabilização criminal, mas existem estratégias de orientação, acompanhamento e encaminhamento, inclusive para serviços de educação a homens autores de violência existentes na região. O essencial é que essa mulher não permaneça sozinha. Pode procurar uma delegacia, um serviço especializado ou até pedir apoio a vizinhos, que também podem denunciar e ajudar. É importante compreender que a violência contra a mulher não atinge apenas uma pessoa. Impacta toda a família que está ao redor. Por isso, buscar ajuda é sempre o primeiro passo para interromper esse ciclo.

Como começa a violência?

Existe o que chamamos de ciclo da violência. É uma espécie de padrão que serve de alerta para todas as mulheres. No primeiro momento, há uma fase de aparente amor e harmonia. O autor da violência e a mulher vivem a relação de forma afetiva. Depois começam pequenos sinais: um grito, uma crítica constante, um xingamento, crises de ciúme, proibições como impedir que ela use determinada roupa ou saia de casa. Esses comportamentos evoluem até culminar na agressão física, que pode, em casos extremos, resultar em morte. Quando não chega ao óbito, ainda assim há a violência em si. Após o episódio, inicia-se a fase do arrependimento. O agressor pede perdão, diz que estava errado, que foi por causa do álcool, que nunca mais vai acontecer. Promete mudar. A relação aparenta voltar ao ‘normal’, com demonstrações de afeto e, assim, o ciclo recomeça.

Como a Casa Abrigo acompanha os filhos dessas mulheres vítimas de violência?

Na questão da educação, quando a mulher ingressa no serviço com filhos ou filhas de até 17 anos, essas crianças e adolescentes são matriculados em escolas próximas às casas de acolhimento. Caso não haja vaga disponível, a equipe providencia a matrícula em outra unidade da rede. Todos são inseridos regularmente em sala de aula. É importante deixar claro que o Programa Casa Abrigo é um serviço voltado, prioritariamente, para mulheres em situação de violência. Os filhos e filhas de até 17 anos podem acompanhá-las justamente porque, muitas vezes, a mulher hesita em aderir ao serviço por não ter com quem deixar as crianças. 

Os casos recentes de feminicídio na região representam um aumento da violência ou uma maior visibilidade do problema?

Dar visibilidade é fundamental. Quando os casos vêm a público, a sociedade passa a olhar para o problema com mais atenção. Violência contra a mulher não é algo banal, não é um jargão. Não deveria existir. Por isso, é preciso divulgar, sim. A mídia tem um papel importante ao dar luz a essa realidade. Quanto mais o tema é exposto, maior a chance de enfrentarmos a questão de forma efetiva.

A estrutura atual é suficiente para as sete cidades?

O Programa Casa Abrigo acolhe até 40 pessoas e, até o momento, não enfrentamos falta de vagas. Conseguimos atender a demanda do Grande ABC dentro da nossa capacidade atual. O máximo que já ocorreu foi, em um fim de semana específico, ultrapassarmos a capacidade em três ou quatro vagas, sem comprometer o atendimento.

Qual é o maior desafio?

Acredito que o maior desafio no enfrentamento à violência contra a mulher e, neste contexto que o Programa Casa Abrigo se insere, é garantir o acesso das mulheres às políticas públicas efetivas. Muitas ainda não sabem que têm direitos. Estamos em 2026 e, recentemente, tivemos casos de mulheres com quatro filhos vivendo em condições extremamente precárias, com crianças que se alimentavam com as mãos e faziam necessidades em qualquer lugar. Quando chegam ao serviço, muitas perguntam: ‘tenho esse direito?’ Têm, sim.

Caso a mulher precise buscar documentos ou pertences, como a Casa Abrigo garante a segurança nesse processo?

Quando a mulher chega ao Centro de Referência e surge a necessidade de retornar à residência para buscar documentos, roupas ou até um brinquedo do filho muitas vezes, a criança não dorme sem um objeto específico, ela não vai sozinha. Nesses casos, é acompanhada pela Guarda Municipal, geralmente pela Patrulha Maria da Penha de cada município. Todas as cidades do Grande ABC contam com esse serviço, que atua especificamente no enfrentamento à violência contra a mulher. Quando o retorno não é possível ou quando a mulher sequer possui documentação, a própria equipe das Casas Abrigo providencia os encaminhamentos necessários para a emissão de novos documentos, garantindo que a falta de registros não impeça seu recomeço.

Após a etapa inicial, como a Casa Abrigo prepara essa mulher para reconstruir a vida?

Com o passar do tempo, a mulher é preparada para o desabrigamento. O que significa isso? É o processo de construção da autonomia: inserção no mercado de trabalho, acesso à moradia e, em alguns casos, mudança de cidade ou até de Estado, quando necessário para garantir segurança. O programa trabalha desde o início com a perspectiva do desabrigamento qualificado, estruturando condições para que essa mulher deixe o serviço com mais independência e segurança para reconstruir a vida.

Pode contar um caso de reconstrução?

Relato o caso de uma mulher que é um grande exemplo, até porque ela se tornou palestrante. Ela chegou à Casa Abrigo sem núcleo familiar e em situação de risco real de morte. A legislação prevê que o período de abrigamento seja, em regra, de até seis meses, mas isso depende de cada caso. No dela, a cada reavaliação ficava evidente que ainda não havia condições de desligamento. Ela continuava sob risco, não tinha família de apoio, não conseguia emprego e, além disso, enfrentava um câncer. Foi durante o acolhimento que iniciou o tratamento da doença. Permaneceu entre dois e três anos na rede de proteção. Depois de curada, ingressou na faculdade de Psicologia. Saiu de uma situação extrema, venceu o câncer, concluiu o ensino superior, conseguiu emprego e se tornou palestrante, falando sobre violência contra a mulher a partir da própria história de superação.

Para a mulher que sente que está em perigo, qual o primeiro passo?

O passo fundamental é se reconhecer na situação de violência e buscar ajuda. Ela pode ligar para o 180, que é a Central de Atendimento à Mulher do governo federal, acionar o 190, telefone de emergência da Polícia Militar, ou procurar a delegacia mais próxima. O importante é não permanecer sozinha diante do risco.<EM>

O que vizinhos ou familiares devem fazer ao presenciar violência?

É o mesmo procedimento que mencionei anteriormente. Se você vive uma situação de violência ou é testemunha de violência contra a mulher, pode ligar 180, acionar o 190 ou procurar a delegacia mais próxima. O mais importante é denunciar.

Teve algum caso que marcou a senhora?

Trata-se de uma mulher que entrou na Casa Abrigo com duas crianças: uma recém-nascida e a outra com menos de 2 anos. Ela enfrentava um grave problema de dependência química e estava bastante debilitada. As crianças ainda eram amamentadas. Diante da situação, a equipe técnica precisou realizar o desmame imediato. As crianças sofriam não apenas pela interrupção da amamentação, mas pelos efeitos da dependência. Não era um choro comum de um bebê com fome. Era choro de desespero.




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