Em Santo André Moradores penduram brinquedos nas fachadas, dividindo opiniões entre sustos, curiosidade e o encanto infantil
André Henriques/DGABC

Quem passa pela Rua Minas Gerais, na Cidade São Jorge, em Santo André, dificilmente fica indiferente à decoração de uma determinada casa. A fachada tomada por bonecas, cabeças de personagens, fantasias e objetos pendurados faz qualquer pedestre diminuir o passo. Não tão longe dali, na Rua Paula Nei, na Vila Pires, outro endereço causa efeito similar, deixando olhos arregalados, crianças apontando para o alto ou arrancando risos.
As duas ficaram conhecidas informalmente como as “casas das bonecas”. Na Cidade São Jorge, o responsável pelo cenário é Mário Ribeiro Rocha, 59 anos, desempregado. Ele mora no endereço há cerca de 20 anos e conta que tudo começou de forma despretensiosa, há aproximadamente 15. “Achei três sacos cheios de bonecas. O pessoal do bairro também começou a me trazer algumas. Não tinha onde colocar. Comecei a amarrar no portão de casa”, lembra.
O que era improviso virou marca registrada. Hoje, bonecas de diferentes tamanhos dividem espaço com cabeças de personagens, perucas e fantasias. “Não ligo para o que pensam de mim, o importante é o que eu sou”, diz Rocha, enquanto aponta para as inúmeras bonecas pendurados.
Ele afirma que nunca planejou chamar atenção, mas reconhece que a fachada virou um ponto conhecido no bairro. Apesar da repercussão, diz levar uma vida tranquila. “Deixo os brinquedos na frente da casa e nunca mexeram.”
Para alguns, porém, a imagem causa estranhamento. A vendedora Fátima Fassi, 69, que trabalha nas proximidades, comenta sobre o efeito. “Acredito que é bem interessante e chama a atenção. O pessoal aqui do bairro passa e fica olhando. Eu não teria paciência para ficar pendurando, mas sei que gostam. Acho legal, mas não faria”, afirma. A motorista de aplicativo Priscila Moraes, 33, que mora na rua de trás da casa “famosa”, percebe a diferença de reação entre gerações, a exemplo da filha dela, Rafaela Moraes, 3. “Ela (Rafaela) ama. Sempre que passa, fica mostrando, principalmente o Quico (do seriado de televisão Chaves). Para criança, chama atenção. Para adulto, às vezes, é meio estranho, peculiar”, comenta. A alguns bairros de distância, na Vila Pires, a história tem um ponto de partida parecido. Na casa de número 151 da Rua Paula Nei, o aposentado José Carlos Santos, 63, começou a pendurar bonecos há quase duas décadas. “Começou pelo Shrek”, diz, se referindo ao célebre ogro verde, personagem da animação homônima. A partir dali, foi encontrando objetos na rua, que eram incorporados à fachada. Santos afirma que continua colocando peças sempre que pode, embora hoje enfrente algumas dificuldades com a visão. “Enquanto estiver vivendo, não paro”, garante. “O pessoal passa por aqui e fala que sente presença de fantasmas e que já viram as bonecas se mexerem. Digo para vir aqui de madrugada”, brinca. Já na Avenida Nossa Senhora dos Navegantes, número 1.601, no bairro Eldorado, em Diadema, a memória do artista Helenildo Domingos da Silva, conhecido como Zé Pretinho, permanece. Falecido em 2023, aos 71 anos, Silva transformou a cerca de casa com bonecas, carrinhos e aviões pendurados ao lado de placas de madeira com frases criadas por ele. Reconhecido por exposições em diversos lugares do Grande ABC, o artista autodidata atraiu diversos curiosos. Nos últimos dias de vida, começou a retirar as peças, como se pressentisse uma despedida. Hoje, parte do acervo permanece guardada no local em que Silva criava suas obras, enquanto alguns moradores ainda param para perguntar pelo “velho das bonecas.”
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