Entrevista da Semana
FOTO: Claudinei Plaza/DGABC

Em um cenário político ainda marcado por desigualdades de gênero e em que a participação feminina segue enfrentando barreiras estruturais, a ex-vereadora de Santo André Elisabete Tonobohn Siraque, conhecida como Professora Bete Siraque (PT), aborda os desafios da mulher na vida pública, o machismo estrutural e a falta de apoio familiar na busca pelo engajamento político. A andreense também abre o jogo sobre como conseguiu furar a bolha e conquistar dois mandatos parlamentares, além de falar sobre o futuro do PT. Bete Siraque abre uma série de Entrevistas da Semana com mulheres em março, mês dedicado a elas.
Raio-X
Nome: Elisabete Tonobohn Siraque
Aniversário: 18 de dezembro
Onde nasceu: Santo André
Onde mora: Vila Francisco Matarazzo – Santo André
Formação: Pedagogia – FSA (Fundação Santo André) e mestrado em História da Ciência – PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo)
Um lugar: O mar
Time do coração: Corinthians
Alguém que admira: Luiz Inácio Lula da Silva
Um livro:Torto Arado; obra de Itamar Vieira Junior
Uma música: Alucinação; de Belchior
Um filme: Ainda Estou Aqui; de Walter Salles; 2024
Bete Siraque, há poucos dias, as mulheres celebraram os 94 anos da conquista do voto, que foi instituído em 24 de fevereiro de 1932. Atualmente, o público feminino já representa 54% do total do eleitorado brasileiro. O quão importante é para a democracia a participação das mulheres na política?
São 94 anos que nós, mulheres, lutamos para ter o direito ao voto. Mas não só esse direito. Naquela circunstância, era importante a participação da mulher na conquista do voto. Agora, a importância da mulher efetivamente, enquanto sujeito de ação política, é de querer ser votada. Nós representamos 54%, em média, da população brasileira e, nas Câmaras municipais, no Parlamento em si, apenas 18% das cadeiras são ocupadas pelas mulheres. Na Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo), o espaço conquistado foi um pouquinho maior: 20%. É um episódio diferenciado e, mesmo assim, muito baixo em relação a aquilo que pretendemos. Somos a maioria e, mesmo assim, não representamos a população nem, pelo menos, em 50% em qualquer espaço, seja nas Câmaras municipais, nas Assembleias ou no Congresso. A democracia, de fato, só se torna representativa e efetiva se os seus segmentos, de fato, estiverem representados nesses lugares de poder, de decisão, e não é o que acontece. Essa é uma luta muito grande que nós, mulheres, estamos tentando realizar, que é exatamente a conquista desses espaços de poder, de ser votadas nas eleições, termos as mesmas garantias de direitos, condições, oportunidades e de igualdade em qualquer campanha, para que a gente possa, de fato, acessar esses espaços – e nem sempre isso acontece. Nem sempre as candidaturas de mulheres são, de fato, priorizadas. A gente percebe que, para romper essa barreira de chegar a uma Câmara ou na Assembleia, é um desafio muito grande. As mulheres têm de enfrentar muitos episódios de dificuldades.
Nessa linha de raciocínio da senhora, é possível traçar um paralelo: se a participação da mulher na política é uma questão estrutural dos partidos, que delimitam uma cota ao público feminino, ou porque as mulheres, de fato, não têm interesse em deixar os seus outros afazeres para buscarem a política, se engajarem politicamente e de serem candidatas na busca por um cargo eletivo?
A dificuldade das mulheres na participação da vida política se dá de várias maneiras, e não podemos defini-la por uma única questão. Historicamente, os espaços de poder foram constituídos pelos homens. A política tem dono. Histórica e culturalmente, romper isso não é uma coisa fácil, porque as mulheres têm outros afazeres, como cuidar dos filhos, do marido, da casa e trabalhar fora. Por isso, defendo o fim da escala seis por um. Porque, para as mulheres, não é seis por um: é sete por zero. Trabalhamos a semana inteira e, quando estamos em casa, há os afazeres domésticos, enfim. Então, para a mulher romper com essas questões que foram historicamente colocadas, não é fácil. Não é fácil se engajar na vida política, seja por preconceito ou pela dificuldade de acessar essa vida que, muitas vezes, lhe parece estranha. Além disso, os familiares muitas vezes não estimulam; pedem para que as mulheres não se metam nisso (política). Há um desestímulo e uma barreira machista. Quando você chega lá, tem que romper uma série de dificuldades e preconceitos. Entendo também que estão ocorrendo mudanças de comportamento em relação às mulheres, de quererem também estar nesse lugar de decisão, de poder opinar sobre as coisas que consideram importantes para a vida da sociedade, sobre a participação delas, sobre colocar posicionamentos, sobre defender coisas que são fundamentais para uma sociedade justa, para a vida delas e da própria família e para aquilo que entendem ser bom. Tenho percebido também que a juventude de mulheres está chegando muito engajada, empoderada e isso é um alento, porque é importante que as mulheres tenham interesse na participação. É importante que nós, mulheres, possamos de fato ter representatividade e poder de decisão para que as pautas historicamente sucateadas possam ter um outro olhar a partir do entendimento das mazelas da nossa sociedade, das dificuldades relacionadas aos cuidados à primeira infância, à melhor idade, à questão do mercado de trabalho, à saúde integral da mulher e ao combate ao feminicídio. Quando a mulher se engaja, cria-se um facilitador para que o debate de fato aconteça. Não adianta sucatear. Se existe feminicídio, é porque tem algo muito grave existente, que é o machismo, o sentimento de posse, é a subjugação da mulher, com o homem determinando aquilo que deve acontecer. É por isso que o feminicídio acontece. porque o machismo está arraigado na nossa sociedade.
Diante do cenário traçado com relação ao machismo estrutural, como a senhora conseguiu romper a bolha e ser eleita duas vezes vereadora em Santo André e concorrer à Prefeitura, terminando na segunda colocação, atrás de outros nomes tradicionais da política da cidade?
Tenho uma trajetória. Sou professora de formação. Pedagoga formada na Fundação Santo André, fiz especialização e mestrado na PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) em História da Ciência. Trabalhei nos governos do Celso Daniel (PT) e no do João Avamileno (PT); fui secretária-adjunta de Educação. Construí meu caminho na Educação e, quando você atua nessas áreas, abre-se a possibilidade do diálogo com muita gente. Minha caminhada até a chegada na vereança foi consequência de um trabalho realizado ao longo da minha história, da minha vida política. Sou filiada ao PT desde que eu tenho 18 anos. Sempre militei e a vereança foi consequência dessa trajetória. (Enquanto vereadora) tinha um propósito: o de transformar o mandato para abordar assuntos fundamentais para a vida das pessoas, como saúde, educação e assistência social.
Puxando o histórico das últimas eleições, o PT, principalmente em seu berço, o Grande ABC, perdeu protagonismo. Atualmente, das sete Prefeituras, administra apenas uma. Além disso, a militância e algumas lideranças partidárias se queixam do afastamento da base. O Partido dos Trabalhadores precisa se reinventar?
Essa é também uma análise histórica que precisa ser feita em relação a 2016 e de 2015 para cá. Toda a consequência que teve o golpe do impeachment (da presidente Dilma Rousseff – PT – em agosto de 2016) e da prisão do presidente (Luiz Inácio) Lula (da Silva – PT – em abril de 2018) foram processos que trouxeram muitas feridas para nós, do Partido dos Trabalhadores, e mesmo assim, conseguimos contornar e eleger o Lula. Agora, do ponto de vista partidário, evidentemente, é importante fazermos a reflexão da forma que nosso presidente nacional, o Edinho Silva, tem dito: precisamos voltar a ocupar mais os territórios para ter mais espaço de fala, seja num núcleo, numa associação, numa comunidade, seja onde for. E como é que a gente fortalece? Fazendo militância, dialogando com as pessoas, debatendo os temas que são de interesse da população, independentemente de você estar ocupando o cargo eletivo ou não. Isso é uma tarefa nossa, que somos parte de um partido de massa, um partido que tem uma história longa de transformações e mudanças importantes. O que ocorre (para o distanciamento) é que, toda vez que governamos o País, passamos a nos dedicar às pautas colocadas pelo governo e deixamos de lado a nossa tarefa militante.
Algumas lideranças do PT têm sinalizado que o partido, além de se reconectar com a base, precisa criar uma nova liderança para o pós-Lula, e o caminho seria o de construir uma nova identidade, reposicionamento ou até mesmo mudança de marca a partir da união de frentes progressistas de esquerda. Há, mesmo que de forma embrionária, essa possibilidade?
O Lula é o nosso comandante maior e, independentemente de ele ocupar função pública, sempre será aquela figura que vai contribuir de alguma forma para ajudar a pensar os rumos da política no País. Então, evidentemente, espera-se que ele seja reeleito para o seu quarto mandato a bem do Brasil. Porém, para depois disso, o Lula será essa figura que todo mundo vai querer ter perto, até para ajudar a pensar. O presidente não é uma figura que, como qualquer outra pessoa, depois que se aposenta, veste o pijama e vai curtir as férias. Tem uma função política social, uma responsabilidade com o País que ele nunca vai deixar. O PT precisa, no pós-Lula, entender e repensar como vai se estruturar. Temos vários nomes dentro do PT que foram forjados ao longo da sua trajetória política, da sua luta, que podem assumir cargo dessa magnitude como o do Lula. Em abril teremos o Congresso do PT e espero que, nesse momento, possamos discutir o partido para além do período eleitoral. É um debate que ainda não está tão aberto internamente no partido, mas que já começa a apontar para algumas discussões. Existe muito chão para ser percorrido ainda. Lideranças internas nós temos para assumir tarefas, a exemplo do próprio (ministro da Fazenda, Fernando) Haddad, que em um dos piores momentos da nossa história, em 2018, assumiu a tarefa de sair candidato a presidente e se saiu muito bem, ainda que não tenha sido eleito. Se saiu muito bem agora enquanto ministro da Fazenda e é uma das promessas do PT.
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