No ar Dados da Enel SP revelam salto de 283 para 406 casos na região; especialistas apontam risco de choque, curto-circuito e apagões
André Henriques/DGABC

O número de ocorrências envolvendo pipas na rede elétrica disparou no Grande ABC entre 2024 e 2025. Dados da Enel Distribuição São Paulo mostram que os registros saltaram de 283 para 406 no período, crescimento de 43,4%, índice superior à média de 29% registrada em toda a área de concessão da companhia.
Em Santo André, os casos passaram de 72 em 2024 para 122 em 2025. Já em Mauá, houve aumento de 80 para 113 ocorrências. Também apresentaram alta Diadema (de 55 para 68), São Bernardo (de 53 para 68), Ribeirão Pires (de dez para 17) e São Caetano (de quatro para 11). A única cidade com queda foi Rio Grande da Serra, que passou de nove para sete registros.
Segundo a concessionária, o uso de cerol e da chamada linha chilena representa ameaça severa à infraestrutura elétrica e à população. Por conter material abrasivo e, em muitos casos, fragmentos metálicos, esse tipo de linha pode romper a camada isolante dos cabos e provocar curtos-circuitos. Em situações mais graves, pode conduzir eletricidade e causar eletrocussão.
Professor de Engenharia Elétrica do IMT (Instituto Mauá de Tecnologia), Edval Delboni, explica que a linha chilena contém pó metálico, geralmente de alumínio, o que a transforma em condutora de eletricidade.
“Se alguém estiver empinando uma pipa e essa linha chilena encostar na fiação elétrica, em um ponto que não tenha isolação, ocorre uma descarga elétrica. E, caso a pessoa esteja segurando a linha condutora e com os pés no chão, ela acaba se tornando um condutor da eletricidade, e a descarga segue para a terra”, afirma o especialista.
O professor ressalta ainda que boa parte da rede de distribuição é composta por cabos nus. “Uma grande maioria da nossa rede elétrica de alta tensão não tem isolação, essa que corre nos postes. A rede compacta tem uma capinha, mas não é para evitar choque. Não é para colocar a mão nem para encostar a linha chilena”, explica.
Delboni cita ainda casos em que pipas com linha metálica atingiram estruturas de alta tensão e provocaram desligamentos amplos. “Uma pipa caiu sobre a rede da subestação de alta tensão. Como a pipa era muito comprida, encostou em várias fases. Entre uma fase e outra, teve um curto-circuito. Desligou a subestação inteira”, relata.
Ele acrescenta que materiais metálicos na estrutura da pipa potencializam o perigo. “O metal é um excelente condutor. Se você encostar na rede elétrica e estiver segurando um material metálico, vai ter condução para você.”
Além do risco de choque elétrico, também existe a possibilidade de incêndio em caso de falha nos sistemas de proteção, que garantem a integridade do sistema. “Quando há uma descarga elétrica de uma fase para outra, se a proteção não desligar corretamente, pode provocar um incêndio”, alerta.
Para o especialista em segurança pública e ex-secretário de Segurança Cidadã de Santo André, Temístocles Telmo, o Estado de São Paulo possui legislação específica proibindo a comercialização e o uso desse tipo de material, e os municípios também podem aplicar multas. No entanto, ele pontua que a fiscalização enfrenta obstáculos.
“É uma prática popular, acontece em terrenos abertos, margens de rodovia. Muitas vezes é difícil distinguir no momento da abordagem se a linha é comum ou adulterada”, explica.
Além de ferimentos graves, especialmente em motociclistas e pedestres, as pipas presas na rede elétrica afetam a dinâmica urbana. “Compromete a funcionalidade da cidade. Um curto pode deixar bairros inteiros sem energia . É um problema de segurança urbana”, afirma.
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