Setecidades Titulo Cenário cruel

A cada 4 horas, uma moradora da região registra denúncia de violência doméstica

Dados do Ligue 180, do governo federal, indicam um total de 2.256 queixas de mulheres nas sete cidades do Grande ABC em 2025

01/03/2026 | 08:43
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Maria Aparecida Santos, Cristiane Fernandes, Cristiane Murakami, Marisa Nacade, Rosa Paiola e Marli Nacade integram a ONG Mulheres em Ação de Mauá FOTO: Nario Barbosa/DGABC
Maria Aparecida Santos, Cristiane Fernandes, Cristiane Murakami, Marisa Nacade, Rosa Paiola e Marli Nacade integram a ONG Mulheres em Ação de Mauá FOTO: Nario Barbosa/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


No Grande ABC, a cada quatro horas, uma mulher registra denúncia por violência doméstica. Os dados do Ligue 180, canal de queixas do governo federal, compilam 2.256 registros das sete cidades em 2025. Dessa forma, uma média de seis denúncias de moradoras a cada dia. 

Mauá lidera os registros de violência, com 721 queixas. Na sequência aparecem Santo André (596), São Bernardo (534), Diadema (249), Ribeirão Pires (57) e Rio Grande da Serra (16). 

DGABC

Instaurado em 2014, o Ligue 180 serve como um canal direto de denúncias, acolhimento e ajuda para mulheres. Só em 2025, a plataforma recebeu 155 mil queixas em todo o País. O Estado de São Paulo foi responsável pelo maior número, com 34 mil, entre janeiro e dezembro do ano passado. O painel de dados da plataforma foi instalado em 2025, dessa forma não foram disponibilizadas estatísticas de 2024. 

O tema de violência contra a mulher voltou a repercutir após onda de feminicídios nos últimos meses. No Grande ABC, somente em fevereiro foram registrados três casos, o maior número para o mês desde 2017. O último assassinato aconteceu na quarta-feira (25), quando a vendedora da Vivara do Golden Square Shopping em São Bernardo, Cibelle Monteiro Alves, 22 anos, foi morta com golpe de faca pelo ex-namorado, Cassio Henrique da Silva Zampieri, 25. 

A advogada, especialista em direito da Família e voluntária da ONG (Organização Não Governamental) Mulheres em Ação de Mauá, Cristiane Murakami, afirmou que os números do Ligue 180 são alarmantes, mas as vítimas estão com mais coragem para denunciar. “Temos que trabalhar para a desconstrução do pensamento masculino de que a mulher é posse. Ainda existe um machismo estrutural muito forte de ver a mulher como propriedade. Precisamos entender que a violência doméstica não é só problema para a mulher, mas sim de toda a sociedade.”

Criada em 2018, a instituição tem como objetivo ajudar vítimas de violência doméstica com suporte psicológico, assistencial e judicial. Com 42 voluntárias, a entidade atendeu 500 vítimas no ano passado.

A presidente, fundadora e funcionária pública, Marisa Nacade, ressaltou que o trabalho de prevenção é essencial. “Os números são assustadores. Aqui na ONG trabalhamos com a violência já instalada, mas precisamos de políticas públicas de prevenção. A escola, por exemplo, precisa colocar isso no currículo com urgência. Nas unidades escolares de Mauá, trabalhamos com a Cartilha Namoro Legal, que mostra como identificar um relacionamento abusivo desde nova, para não chegar ao ápice que é o feminicídio”, comentou.

Já a advogada Cristiane Murakami esclareceu que o essencial é denunciar em canais oficiais. “Em caso de agressão física, o primeiro passo é registrar um boletim de ocorrência. Se existe uma ameaça iminente, pode pedir medida protetiva, que deve sair em 48 horas;”

A presidente Marisa complementou dizendo que as agressões não persistem só na questão física, mas em diversas esferas como psicológica, patrimonial e sexual. “Não é fácil sair do ciclo de violência, às vezes por não ter um emprego ou por conta dos filhos. Mas tem caminhos e as mulheres estão tendo mais coragem”, concluiu.

PROTOCOLO

Na quinta-feira (25), a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que prevê a obrigatoriedade de divulgar o Ligue 180 em notícias relacionadas ao tema. A proposta seguiu para análise do Senado.

Em casos frequentes de agressões, o governo federal orienta a mulher a acionar a central de atendimento. Já em situações de emergência, o indicado é ligar para a Polícia Militar no 190.

‘Luto para minha filha não ser esquecida’

Em 9 de julho de 2024, a decoradora especialista em mármore, Sandra Regina Costa, 54 anos, recebeu uma ligação que nunca esperava. Por volta das 11h30 daquele dia, a Polícia Civil procurou seu contato para dizer que sua filha e empresária, Alessandra Christina dos Santos, 34, tinha sido encontrada morta e carbonizada.

Alessandra foi assassinada e queimada viva dentro de um carro após o ex-companheiro, Miqueias Bezerra de Almeida, 43 (na época com 41 anos), atear fogo no veículo com um galão de gasolina. O crime aconteceu no Parque São Vicente, em Mauá.

Segundo o Boletim de Ocorrência, Almeida declarou que mantinha um relacionamento extraconjugal com Alessandra.

Após um ano e cinco meses da morte da empresária, no dia 3 de fevereiro de 2026, Almeida foi condenado, pelo Tribunal do Júri da Comarca de Mauá, a 22 anos e 6 meses de prisão em regime fechado por homicídio qualificado por motivo fútil contra uma mulher.

“Minha filha, por ser uma menina muito reservada, não era de se abrir. A gente conversava pouco sobre a relação. Após um ano de relacionamento, Alessandra começou a mudar o comportamento, chorava muito e se isolava. Três dias antes do ocorrido, conversamos e ela estava bastante assustada. No dia 9, infelizmente não deu tempo. Uma amiga dela até falou que se tivesse falado antes, talvez estivesse viva”, comentou Sandra.

A mãe contou que nesse período foi difícil tocar a vida sem a presença da filha. “A Alessandra era maravilhosa, super educada, tenho muito orgulho dela”, disse. 

E, a partir da sua dor, Sandra resolveu se juntar à ONG Mulheres em Ação de Mauá. Sandra relembrou que as voluntárias da entidade foram até o velório para prestarem homenagem.

Para ela, o julgamento foi um alívio. “Foi difícil ficar frente a frente com o réu (Miqueias de Almeida) e ouvir a legista descrever as circunstâncias da morte. Foi um crime premeditado, a condenação foi um alívio, parece que saiu um peso de mim. Durante esse período, vi a necessidade de ajudar outras mulheres, porque a ONG me ajudou muito. A Alessandra nunca será esquecida, falo com ela todos os dias e dentro de mim continua viva. Vou lutar para que o caso da minha filha não seja esquecido”, comentou Sandra.

O cenário não deixa celebrar o mês da mulher, diz ONG 

A presidente da ONG Mulheres em Ação de Mauá, Marisa Nacade, destacou que março, representado pelo Mês da Mulher, serve para reflexão do papel feminino na sociedade e sobre a violência atual vivida no Brasil.

“Não é mês de festa, nem de receber flores. Estamos em 2026 e ainda neste mês temos que discutir sobre violência contra a mulher. Infelizmente, o atual cenário não permite celebrar a data”, afirmou a gestora da organização.

Ainda de acordo com ela, a luta é longa para rever conceitos pré-estabelecidos na mentalidade de muitas pessoas, mas acredita que um dia a mudança pode acontecer. “Desconstruir uma sociedade machista e patriarcal como a nossa não é uma tarefa fácil. Mas somos resistentes e persistentes. Somos chamadas para diversas palestras em escolas e empresas na cidade. Se cada um fizer sua parte, vamos viver em uma sociedade onde as nossas filhas e netas não sofram violência”, concluiu.

Já para a advogada, especialista em Direito de Família e voluntária na ONG, Cristiane Murakami, além de reflexão, nesse período do ano é necessário relembrar tudo que já foi conquistado pelas mulheres. “Recentemente, celebramos 92 anos do direito ao voto feminino (24 de fevereiro). Até pouco tempo, não podíamos jogar futebol também. É para celebrar o que foi conquistado e lutar para conquistar ainda mais”, adicionou.

DIA DA MULHER

Celebrado em 8 de março, o Dia Internacional da Mulher virou símbolo da luta. A data faz referência à greve das trabalhadoras russas contra a fome em 1917, sendo reconhecida pela ONU (Organização das Nações Unidas) em 1975. 




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