Saúde mental Profissionais do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP realizam atendimento gratuito na estação da Luz
FOTO: Nario Barbosa/DGABC

Quem passa pela Linha 10-Turquesa e para na estação da Luz pode encontrar algo incomum à rotina acelerada do transporte público, no caso, um convite para sentar e conversar. Todas as quintas-feiras, das 10h às 13h, psicoterapeutas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo) oferecem escuta gratuita aos usuários da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos).
A ação Converse com o Psicoterapeuta acontece ao lado do guarda-volumes, próximo à antiga bilheteria, e não exige agendamento. A proposta é simples, e qualquer pessoa pode se aproximar, sentar e falar sobre o que quiser, sem ficha, sem encaminhamento e sem obrigatoriedade de retorno.
A iniciativa é realizada em parceria com o Museu da Língua Portuguesa. A previsão é que o atendimento permaneça no local até o fim de agosto, conforme previsão do Museu da Língua Portuguesa.
A psicoterapeuta Ludmila Frateschi, coordenadora do projeto, explica que a proposta nasceu no hospital como um experimento para ampliar o acesso à psicoterapia em contextos não tradicionais. Segundo ela, além de um plantão voltado a pacientes que aguardam na fila de espera do instituto, o grupo decidiu levar a escuta para a rua.
“A pessoa pode vir quando quiser, falar do que quiser. Não precisa chegar dizendo que tem um diagnóstico. Pode falar de música, de trabalho, de solidão. Às vezes, falar de algo aparentemente simples já abre espaço para questões mais profundas”, diz.
Antes da atuação na estação, o projeto desenvolveu ações na região da Luz, inclusive em parceria com iniciativas voltadas à população em situação de rua. A experiência, segundo Ludmila, mostrou que há uma demanda diversa por conversa e acolhimento, muitas vezes incompatível com o modelo tradicional de terapia semanal.
Para ela, em meio a longas jornadas entre transporte e trabalho, oferecer um espaço de pausa pode ter efeito significativo. “As pessoas vivem sob pressões muito intensas. Nem sempre é sobre transformar sofrimento em doença, mas permitir que ele seja escutado.”
A Linha 10-Turquesa é utilizada diariamente por milhares de moradores do Grande ABC, conectando os municípios à Capital. Muitos desses usuários circulam pela Luz em deslocamentos para o trabalho. Somente em janeiro deste ano, o trecho foi utilizado por 433.086 pessoas por dia.
A orientadora de passeio e moradora da Capital, Paula Bento, 51 anos, decidiu sentar para conversar durante o horário de almoço. “Estava passando e resolvi parar. Na conversa, deu um nó na garganta, mas conseguimos entender de onde vinha essa angústia. Muitas vezes a gente acha que o problema não tem solução, mas numa simples conversa a solução está ali”, relata.
A usuária diz que pretende retornar na semana seguinte. “Vou colocar em prática o que conversamos e depois volto para contar o resultado.”
O porteiro Aurelino do Nascimento Pereira, 59, também participou após ver o cartaz na estação. “Me inspirou confiança de chegar e conversar. Só o fato de terem boa vontade já é importante”, afirma.
Ele avalia que ainda existe resistência para falar sobre saúde mental. “Existe tabu, sim. Às vezes, a pessoa não se sente confortável para conversar no meio de todo mundo. Talvez fosse importante ampliar e criar mais espaços estruturados para isso”, sugere.
Para a coordenadora Ludmila Frateschi, ouvir histórias tão diversas, de migrantes, trabalhadores e pessoas em diferentes fases da vida, também impacta a formação dos profissionais. “A gente escuta com técnica, com supervisão, mas principalmente com abertura. Isso ajuda as pessoas a se escutarem também.”
LEIA MAIS:
São Caetano abre inscrições para o Auxílio Transporte Escolar 2026
Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.