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André Sturm: ‘Ir ao cinema é uma experiência muito coletiva’

Do cineclubismo dos anos 1980 à gestão de dois dos principais equipamentos culturais de São Paulo, o diretor do MIS (Museu da Imagem e do Som) e do Cine Belas Artes, famoso cinema da rua na Consolação, na Capital, André Sturm fala sobre os desafios de assumir instituições simbólicas

Renan Soares e Yuri Kumano - Especial para o Diário
15/02/2026 | 20:28
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FOTO: Divulgação Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Do cineclubismo dos anos 1980 à gestão de dois dos principais equipamentos culturais de São Paulo, o diretor do MIS (Museu da Imagem e do Som) e do Cine Belas Artes, famoso cinema da rua na Consolação, na Capital, André Sturm fala sobre os desafios de assumir instituições simbólicas, defende a experiência coletiva do cinema e critica um possível acordo entre Netflix e Warner. O também presidente do Sindicato da Indústria Audiovisual do Estado de São Paulo comenta ainda os bastidores da regulamentação das plataformas no País, além de seu impacto.

Nome: André Luiz Pompeia Sturm

Aniversário: 15 de julho

DGABC

Onde nasceu: Porto Alegre (RS).

Onde mora: São Paulo

Formação: Administração de Empresas na Fundação Getúlio Vargas em São Paulo

Um lugar: MIS 

Time do coração: Palmeiras

Alguém que admira: William Shakespeare (1564-1616), dramaturgo

Um livro: O Senhor das Moscas, de William Golding

Uma música: Hallelujah, de Leonard Cohen

Um filme: Quanto mais Quente Melhor (1959), de Billy Wilder

Qual foi o maior desafio pessoal e profissional ao assumir a direção do MIS e do Cine Belas Artes?

Comecei a minha vida profissional num Cine Clube aqui em São Paulo, nos anos 1980, e descobri ali a minha vida, programar e trazer filmes para o Brasil. E o Belas Artes, nessa época, era o grande cinema em que gostava de ir, e eu tinha esse sonho de um dia assumir o Belas Artes. No fim de 2012 saiu uma notícia de que o Belas Artes iria fechar. Então procurei o proprietário para dizer para ele que não fizesse isso. Assinei uma promissória e assumi o cinema. Segui com alguns sócios, consegui um patrocínio, reformamos o cinema e, de 2014 para cá, virou essa história. É um projeto muito pessoal, quase como um filho. É um enorme prazer, uma sensação de contribuir para cidade. Já o MIS é um espaço público, pertence à Secretaria de Estado da Cultura, mas é administrado por uma organização social. É um modelo de gestão inteligente, porque não é uma concessão nem uma privati-zação. É um contrato de gestão, no qual uma organização privada cultural, sem fins lucrativos, faz a gestão. Quando eu vim para cá a primeira vez, em 2011, o museu estava atravessando uma crise, estava muito apagado. Fui montando uma programação que tem dois eixos principais. Um é a simultaneidade, ou seja, ter várias atividades ao mesmo tempo; então tem cinema, música, cursos, palestras, tudo ao mesmo tempo. E o segundo eixo foi tentar fazer exposições que dialogassem com o público, seja pelas temáticas que costumavam ser tratadas, ou pela maneira de fazer as experiências. Fiquei até 2016 e voltei em 2023. 

Quais estratégias o Sr. acha que são essenciais para a sustentabilidade de um cinema de rua, em um contexto de hoje?

No shopping é o que a pessoa quer ver. Então, o que a gente oferece no Belas Artes é o que não está lá. A ideia é ter uma programação de qualidade e, além disso, oferecer um ambiente. Por isso que no Belas Artes a gente fez um balcão para as pessoas tentarem tomar café ou conversar. E aí vem a questão daqueles dois anos terríveis em nossas vidas, da pandemia, onde os cinemas estavam fechados. Eu ficava batalhando para reabrir cinema, então dei muita entrevista. Cansei de ouvir jornalistas falando assim: ‘Por que alguém vai ao cinema quando acabarem esses dois anos terríveis? A pessoa tem filme na casa dela’. Aí eu perguntava: ‘Você pede iFood?’. Ela respondia: ‘Claro que eu peço iFood, não posso ir no restaurante’, então eu voltava a questionar: ‘Quando acabar esses dois anos, você nunca mais vai ao restaurante porque você tem iFood?’. Ir ao cinema é uma experiência muito coletiva. Você vai ver uma comédia sozinho e se diverte. Já ver uma comédia em uma sala de cinema cheia é muito mais engraçado. Na música, é o mesmo. Tem Spotify, então não vou mais no show? Vai sim.

Temos visto muitas declarações, inclusive de grandes marcas, sobre reduzir o tempo da janela entre o cinema e o streaming. Entre elas está a Netflix. Qual seria o posicionamento do Sr.?

Lá no Belas Artes, eu entro em contato com a distribuidora, e alugo o filme. Eu vou pagar para a distribuidora sobre a receita da bilheteria. Então a distribuidora é sócia na exploração da obra. Na época do mercado de locadora, a distribuidora vendia a fita ou o DVD para a locadora, e o local ficava com aquilo. O custo de produção era baixo e o preço de venda era alto, então dava muito lucro para as distribuidoras. Houve um momento em que elas decidiram lançar os filmes em vídeo no mês seguinte ao cinema. Qual foi o lugar disso? Perceberam que era um mau negócio, porque cinema dá dinheiro. Naturalmente, o mercado se arrumou e passou a ter janelas, que variavam de três a cinco meses. Agora começou essa loucura. Você pode ver que, na pandemia, tinha uma conversa até de entrar simultâneo. Tem um caso particular, que é a Netflix, que tem essa postura antissala de cinema. Você veja agora, em 2025, Frankenstein, do Guillermo del Toro. É um filmaço. Deram só duas semanas para explorar o filme no cinema antes de entrar na plataforma. Eles não apoiaram e não gastaram dinheiro com publicidade. Então eles tão perdendo dinheiro, são teimosos. A janela de dois a três meses, acho que já está num número razoável. O problema é duas semanas a quatro semanas, porque transforma o cinema apenas em uma vitrine para o filme. 

E qual a visão do Sr. sobre o impacto da compra da Warner pela Netflix?

Acho extremamente ruim. Eu rezo todos os dias, à noite e de manhã, oro para o Espírito Santo, para não permitirem. Porque a Warner é uma das empresas de cinema, que produz, que tem um acervo espetacular e que tem uma história de ser, entre as empresas norte-americanas, a que mais apoiou a criatividade. Ir para mão da Netflix significa perder a empresa mais ousada dentro da ousadia que um estúdio norte-americano pode ter, evidentemente. A compra significa limitar a criatividade e tornar todo aquele acervo inacessível, porque eles não vão deixar ninguém exibir. Vão colocar parte disponível só na própria Netflix. Então espero que o órgão de controle norte-americano vete esse negócio. E, claro, faltou falar o mais importante: o público. Quem mais é prejudicado é o espectador, que perde acesso ao cinema e, mais ainda, vai ter um monopólio. Eles vão poder definir o preço, e vai encarecer. 

Como o Sr. avalia o desempenho do cinema brasileiro nas duas últimas temporadas de premiação?

Essa presença do cinema brasileiro no Exterior é importante destacar. É claro que é maravilhoso ter ganhado o Oscar de filme estrangeiro, com Ainda Estou Aqui. Foi a primeira vez na história. Vínhamos crescendo, resultado de políticas públicas. Isso reverbera no mundo. Nem precisa de propaganda. Prêmios servem para isso, para estimular a vontade das pessoas.

Outra questão é que o Sr. tem dirigido também o avanço legislativo da Lei do Streaming, no Congresso. Qual o balanço da legislação e como o audiovisual brasileiro pode ser inserido na regulamentação?

O setor audiovisual brasileiro foi regulado em 2001. Ninguém nem imaginava que pudessem existir as plataformas, então elas não entraram na lei. Quando elas começaram a funcionar no Brasil, ficaram fora da lei. Não estou dizendo que elas descumprem a lei, é que não tem uma lei para elas. Então, já há muitos anos começou-se uma discussão no Congresso. Nós conseguimos, em novembro do último ano, aprovar o projeto na Câmara dos Deputados, que foi resultado de muito debate e esforço de muitos setores. Penso que aprovamos um projeto que ficou bom. Ficou ótimo? Não. É um projeto que eu teria escrito? Não. Mas é um projeto possível. Democracia é o reino do possível. Então é um projeto positivo, que cria a obrigação de que as plataformas recolham, como contribuição ao audiovisual brasileiro, um percentual da arrecadação, do faturamento delas. Também cria uma cota de conteúdo brasileiro dentro dos catálogos. Então, é uma revolução. A estimativa que a gente fez do que daria, do jeito que foi aprovado na Câmara, é algo entre 1,5 e 1,8 bilhão (de reais) por ano em investimento. Estou muito otimista de que a gente vai aprovar essa lei no Senado. Nós não estamos falando de investimento direto na produção brasileira, estamos falando de garantia de espaço para o conteúdo brasileiro. Tem plataformas estrangeiras, mundiais, no Brasil, que têm zero conteúdo brasileiro. Se essa plataforma tiver que ter 5%, significa adquirir com rapidez uma quantidade razoável de filmes. Pelo número de plataformas que existem, nós vamos ter um investimento maciço no conteúdo brasileiro. 

Sobre o Belas Artes, que teve um rompimento com a Reag, se tem alguma definição atual sobre um novo patrocínio e qual é a importância de ter apoios como esse para manter o cinema?

Tem umas pessoas que falam que precisa de patrocínio porque não tem público. Não é isso. O que acontece é que o cinema de rua paga um aluguel, de imóvel de rua. Então, estou competindo com uma loja de departamentos, com uma agência bancária e com outros negócios que têm uma rentabilidade por metro quadrado muito maior. Por quê? Quando você vai numa loja de departamentos, tem banheiro, mas escondido, lá no fundo. Quando você vai no cinema, tem regras que lhe obrigam: a cada 100 cadeiras, tem que ter um banheiro. Então a gente tem que gastar uma área enorme do espaço que aluguei com banheiro, corredor e exigências de acessibilidade. A minha área de faturamento real, onde tem poltrona, é 30%. Uma loja tem uma arara por metro quadrado. Então se uma loja pode pagar R$ 100 mil, eu não posso. O meu negócio não dá. Por isso que os cinemas de rua acabaram. Porque se está em um lugar em que o entorno decai muito, as pessoas param de ir porque estão com medo. Se ele está num lugar que valoriza muito, ele é posto para fora e colocam um negócio mais lucrativo. Por isso que a gente precisa de patrocínio: para pagar o aluguel. Já com a Reag, eu não vou dizer que a gente rompeu, porque isso seria injusto. O que aconteceu foi que a Reag passou por questões complexas e importantes, e não fazia sentido manter o patrocínio. Então foi feita uma rescisão amigável, um acordo. Eles foram muito corretos, pagaram inclusive uma multa para que a gente pudesse buscar outro patrocinador, mas daqui a pouco vamos começar a ficar preocupados. Algumas empresas procuraram, existem conversas em andamento. Estou otimista que a gente vai conseguir. Mas posso dizer aí: quem quiser patrocinar o Belas Artes, é o cinema mais bacana de São Paulo!




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