Baixa letalidade Entre 2015 e 2025, região contabilizou 358 ocorrências; São Bernardo liderou as notificações
FOTO: Claudinei Plaza/DGABC

Entre 2015 e 2025, o Grande ABC registrou 358 notificações de acidentes com abelhas, uma média de 32 casos por ano, segundo dados do Núcleo de Informações Estratégicas em Saúde do Estado. Apesar do volume, a taxa de letalidade é considerada baixa, com apenas um óbito em todo o período, notificado em Diadema, em 2021 .
O ano mais crítico foi 2024, com 74 ocorrências somadas nas sete cidades, seguido por 2019, quando foram contabilizados no SUS (Sistema Único de Saúde) 53 casos na região.
Em 2025 foram 49 registros, sendo o terceiro ano com mais ocorrências em 11 anos, registrando 13 casos em São Bernardo, 13 em Mauá, 12 em Ribeirão Pires, quatro em Santo André, três em Diadema, dois em São Caetano e dois em Rio Grande da Serra.
Na média regional, a maioria das ocorrências envolve adultos entre 20 e 39 anos, faixa considerada economicamente ativa. Homens e mulheres dividem os casos com 50% para cada sexo. Crianças menores de 14 anos e idosos acima de 70 representam a menor parcela dos registros, com 6% e 3%, respectivamente.
São Bernardo concentra em 11 anos mais da metade (51%) das notificações, com 182 casos. Em seguida aparecem Mauá (61), Ribeirão Pires (56), Diadema (33), Santo André (19), Rio Grande da Serra (4) e São Caetano (3).
A Prefeitura são-bernadense, por meio da Divisão de Veterinária e Controle de Zoonoses da Secretaria de Saúde, atribui os altos índices a uma combinação de fatores. “O número de notificações no município pode estar relacionado a uma combinação de fatores, como a extensão territorial, uma população de mais de 800 mil pessoas, a existência de 35 UBSs (Unidades Básicas de Saúde), dez UPAs (Unidades de Pronto Atendimento), e uma unidade de Pronto Atendimento distribuídas em todo o território, o que garante uma notificação eficiente dos casos”, explica trecho da nota.
A secretaria também associa a área ambiental, como regiões de Mata Atlântica, áreas de proteção e zonas de mananciais como possíveis motivos. “A presença significativa de áreas verdes e fragmentos de mata, além de locais próximos à Represa Billings, são ambientes que favorecem a instalação de enxames”, pontua.
VENENO
De acordo com a médica alergista e imunologista Maine Bardou, doutora pelo Centro Universitário FMABC (Faculdade de Medicina do ABC), nos primeiros minutos após a picada de abelha, o veneno provoca a liberação de histamina (substância química produzida naturalmente pelo corpo) pelos mastócitos (células do sistema imunológico), causando dor e coceira.
Incidentes com mais de 100 picadas em adultos podem causar reações graves, alerta especialista. “O veneno das abelhas é uma solução aquosa complexa, composta por proteínas (como a melitina e fosfolipase A2), peptídeos e aminas vasomotoras. Várias dessas proteínas possuem propriedades alergênicas, capazes de desencadear reações imunológicas em pessoas sensíveis” destaca.
A médica diferencia a reação inflamatória comum, restrita ao local da picada, da reação alérgica sistêmica. A anafilaxia, considerada a forma mais grave, pode comprometer pulmões e o sistema cardiovascular. “O veneno pode levar rapidamente ao óbito devido a edema de glote (inchaço agudo da laringe), broncoespasmo grave (contração intensa dos músculos das vias aéreas) ou choque anafilático (reação alérgica fatal)”, alerta.
Períodos de calor intenso também elevam a atividade das abelhas. O Centro de Controle de Zoonoses de São Bernardo orienta a população a não mexer em colmeias. Em casos de enxames em residências, a recomendação é acionar profissional especializado para remoção adequada.
Situações com múltiplas picadas ou envolvendo pessoas alérgicas exigem atendimento médico imediato.
Fundada há 40 anos, empresa ajuda moradores com insetos Com quatro décadas de experiência no manejo de enxames, o apicultor Antônio Padovani Júnior, conhecido como Toninho das Abelhas, 67 anos, afirma que a presença de colmeias em áreas urbanas se tornou parte da rotina. Segundo ele, a expansão das abelhas africanizadas a partir da década de 1970 contribuiu para o aumento da ocupação em telhados, forros e estruturas de prédios. A empresa mantém duas equipes em campo diariamente para atender chamados de residências, condomínios, empresas e espaços públicos. Em janeiro deste ano, foram 463 ligações relacionadas a abelhas e marimbondos. Desse total, 168 atendimentos foram realizados. “Tem excesso de chamado. Muitas vezes não conseguimos atender todo mundo”, relata. O apicultor começou na área atendendo a vizinhança, em São Caetano, ao passar do tempo, tomou a decisão de abrir o próprio negócio.O trabalho é voltado à retirada técnica e preservação dos enxames. “As abelhas resgatadas são encaminhadas para criadouros mantidos por nós ou destinadas a apicultores interessados em ampliar a produção”, explica. Ele pontua que as abelhas têm diversos benefícios para a saúde e que o veneno pode ser usado para casos de artrite e artrose, por exemplo. Toninho recebe chamados encaminhados por órgãos municipais, como Centros de Controle de Zoonoses, Defesa Civil e também o Corpo de Bombeiros, quando se trata de equipamentos municipais e espaços públicos. Nesses casos, o atendimento é realizado sem custo. Além da remoção, o SOS Abelhas desenvolve ações educativas, com palestras, visitas monitoradas e cursos. O espaço mantido no Bairro Barcelona, recebe estudantes, escoteiros e grupos interessados em conhecer o manejo de abelhas com e sem ferrão. LEIA MAIS:
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