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Acordo Mercosul-UE põe à prova poder da competitividade local

Especialistas indicam que setores automotivo, químico e de metalurgia serão os mais impactados; pacto está travado no Parlamento Europeu

Beatriz Mirelle
01/02/2026 | 08:00
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Divulgação Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


O acordo entre Mercosul e UE (União Europeia), que avançou após 26 anos de tratativas, será capaz de aumentar a competitividade regional e projetar as empresas locais para o cenário global. De acordo com especialistas, os setores automotivo, químico e de metalurgia serão os mais impactados. Os 31 países que integram os dois blocos reúnem 718 milhões de cidadãos e somam PIB (Produto Interno Bruto) de US$ 22,4 trilhões. Assinado em 17 de janeiro, o pacto está travado no Parlamento Europeu.

O professor de finanças da Strong Business School Jarbas Thaunahy aponta que empresas ligadas à indústria de transformação e às cadeias industriais já integradas ao comércio exterior serão as mais beneficiadas. Simulações do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) indicam que a união dos blocos pode gerar impacto positivo acumulado de 0,34% no PIB brasileiro até 2044 (cerca de R$ 37 bilhões).

“Setores como máquinas e equipamentos, produtos químicos, bens intermediários, metalurgia e autopeças ganham destaque. A redução de tarifas sobre bens de capital e insumos tecnológicos importados da Europa pode acelerar a modernização das plantas industriais, especialmente em áreas como eletrificação e automação”, detalha.

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Por outro lado, o professor comenta que a indústria automotiva europeia apresenta níveis mais elevados de produtividade e tecnologia, o que aumenta a concorrência no mercado interno. “O Grande ABC pode ganhar competitividade se investir em inovação e eficiência, mas corre risco de perder espaço em segmentos onde não conseguir acompanhar esse avanço tecnológico.”

O Brasil exportou US$ 49,8 bilhões para a União Europeia em 2025, sendo a maior parte (22%) em combustíveis, óleos e ceras minerais, e importou US$ 50,3 bilhões – majoritariamente máquinas e equipamentos industriais (25,4%). Com o acordo, o País pode ampliar exportações de 543 produtos com a retirada imediata de tarifas. As estimativas são da Apex (Agência de Promoção de Exportações). 

A professora de Relações Internacionais do Instituto Mauá de Tecnologia Flavia Loss avalia que, em um primeiro momento, o desbloqueio desses mercados apresenta um risco. “Vamos receber da Europa produtos manufaturados com alto valor agregado. A indústria automotiva vai ser bem afetada para tentar competir com carros internacionais. Uma adaptação será necessária, não dá para pensar apenas em produtos a combustão. Hoje, as marcas já estão sendo pressionadas pela chinesa BYD e os carros elétricos. O acordo coloca ainda mais pressão para mudanças nacionais.” 

Segundo ela, a Europa entra no tratado com certeza de oportunidades imediatas, enquanto o Mercosul tem, inicialmente, apenas possibilidades. “Estamos em um processo de desindustrialização. Essa união é capaz de fazer com que a América Latina não esteja tão fechada diante do comércio internacional. Isso marca a saída do protecionismo tradicional e nos coloca para brigarmos de igual para igual.”

O presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico Grande ABC e secretário-executivo do Consórcio Intermunicipal do Grande ABC, Aroaldo Silva, também acredita que só será possível aproveitar todos os benefícios do combinado a partir de estratégias claras. 

“Defendemos que o texto esteja totalmente alinhado com a política industrial do Brasil. É necessário detalhar como essa transição vai ocorrer, ao pensar na agregação de valor. Aqui na região, queremos ter o protagonismo nessa discussão e organizar os setores industriais e o poder público para pensar na proteção dos empregos e nos desafios comerciais.” 

O Parlamento Europeu decidiu, em 21 de janeiro, pedir para o Tribunal de Justiça da União Europeia avaliar juridicamente a parceria comercial com os sul-americanos. Essa solicitação paralisa o processo de implementação. A análise pode demorar dois anos. 

No Brasil, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), pretende colocar o acordo em votação na primeira quinzena de fevereiro. O material ainda deverá ser avaliado pelos parlamentos da Argentina, Uruguai e Paraguai, porque estabelece alterações em regras comerciais e compromissos regulatórios.

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