Artigo Por mais que seja uma convenção, a cada fim de ano se repete o ato de avaliar ações passadas e projetar o que se fará no próximo ciclo. Especialistas das mais diferentes áreas são convocados a dizer o que é possível ser feito para melhorar uma dimensão da vida, uma política. Quais projetos serão ou devem ser realizados para o futuro?
Não fui motivada a escrever sobre projetos, mas sim sobre desejo. A atitude desejante alarga a ideia do projeto, desloca-o do seu sentido de organizar planos, de traçar metas (inalcançáveis), propor certezas (impossíveis). O desejo nos convoca à imaginação, dimensão tão importante, e frequentemente tão esquecida, nas políticas educacionais.
As políticas educacionais – e de certa forma toda política – buscam padrões de certeza, de previsibilidade, de garantia, de controle. Na medida em que são realizados investimentos públicos, é razoável que tais dimensões sejam consideradas. O problema é quando tais políticas se resumem, como muitas vezes se faz nos últimos anos, a operar com esses modelos. Tal escolha simplesmente não funciona.
Não é com metas de aprendizagem, medidas por exames em larga escala, evidências quantitativas de resultados das escolas, controle do trabalho de docentes e dirigentes nas escolas, tentativas de garantir um conhecimento neutro e desvinculado da vida das pessoas, que se faz educação. Pelo menos, não é assim que se faz a educação que desejo para 2026.
Quando a política é vista desse modo, é desconsiderado que a educação, e mais especificamente o local privilegiado (mas não exclusivo) para seu acontecimento – a escola –, é da ordem do imprevisível: envolve a relação com o outro, afetos e subjetividades. Envolve permanência e mudança, simultaneamente; remete a histórias pessoais e coletivas; conflitos entre visões de mundo, entre questões de raça, gênero e sexualidade. Essas diferenças vêm gerando ataques por parte dos que temem a diferença do outro, esse outro que ousa deslocar certezas e abalar o que julgamos definitivo.
Desejo para a educação em 2026 mais investimento no salário e nas condições de trabalho dos docentes, mais compromisso e acordos pautados nas diferenças dos múltiplos contextos da escola e menos tentativas de uniformizar o que todas as escolas ensinam; menos crença nas métricas e fundamentos curriculares e mais solidariedade e atuação política pela justiça social e a democracia, visando combater desigualdades. Isso implica, por exemplo, não usar o poder (e a polícia) para combater a religião na qual não se acredita, a sexualidade ou a cor do outro que não se aceita, a posição política que não se admite existir.
Em defesa de formas desejantes na política, talvez possamos apostar que seja possível, na educação, vivermos juntos – e bem – em 2026.
Alice Casimiro Lopes é professora titular da pós-graduação em Educação da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro).
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