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São Paulo, 472: céu e inferno pulsam

25/01/2026 | 15:40
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 Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


A maior, a mais tudo do País, para o bem e para o mal, organismo vivo e, como tal, São Paulo registra transformações intestinas o tempo inteiro mastigando e deglutindo seus quase 12 milhões de habitantes de forma cada vez mais acelerada diante de nós, desfigurando até a sua própria História.

Nasci por aqui, e estranho que praticamente quase nada do que formaria minha memória afetiva se manteve intacto. O Hospital e Maternidade Matarazzo, onde cheguei ao mundo, agora é hotel chique, com pedaços discutíveis de preservação, depois de anos de total abandono e quase desmoronamento. Dos lugares onde estudei, só a Faap ainda está no lugar, e mesmo assim me parece outra quando a vejo totalmente cercada, com a beleza de sua fachada mexida e as suas escadarias vazias de alvoroços.

São Paulo é mestra em encantamentos e nessas mágicas das quais não podemos nos distrair sob pena de perder referências e até, aliás, de nos perdermos em caminhos por não mais reconhecê-los, e isso às vezes em pouquíssimo tempo que ali não passamos. Descrevo a região central onde me estabeleci, bem paulistana; mas como repórter de cidades pelo Jornal da Tarde conheci muito bem toda a dimensão dessa cidade e suas quebradas, como chamam hoje suas periferias e limites inimagináveis, com barcos, represas, balsas, linhas quilométricas de ônibus, estradas de terra e esperanças de melhorias que certamente muitos ainda aguardam as soluções deitadas nas gavetas das promessas.

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Vivo na região mais contemporânea, central, onde as ruas são um eterno Salão do Automóvel por onde passam os modelos mais exclusivos. Onde muita, mas muita gente, se veste de preto; aliás, se veste como bem entende, e lança moda. Onde os gêneros são realmente fluídos. Onde o luxo anda junto também com a miséria e muitos dormem pelas ruas – e algumas dessas pessoas tem nomes e até histórias conhecidas por estarem tanto tempo ali, peregrinas da região. Conheço gerações que vi nascerem e terem filhos e filhos, e grávidas cada vez mais jovens, quase crianças.

A cidade que tenta se comparar de forma jeca e desnecessária a Nova York tem ainda muito o que se ver, conhecer. Ruas e bairros inteiros eleitos como melhores em listas de revistas internacionais, como o Bom Retiro e, agora, a Barra Funda, onde enormes galpões se transformaram em galerias de arte formando até um roteiro oficial, mesmo que ainda em meio ao abandono – tudo junto e misturado. O Centro Antigo merece uma caminhada para observar a arquitetura e mesmo até alguns de seus escombros.

São Paulo é tudo ao mesmo tempo agora. Se revela a cada momento, céu e inferno, suas contradições e falta de planejamento, sua personalidade múltipla e rica, seus barulhos e stress constantes, medida a cada feriado com a fuga desesperada de seus moradores em êxodos pelas estradas para se refrescarem.

São Paulo, de qualquer forma, vale a pena. E a gente canta Parabéns para ela. Reclamando, elogiando, olhando para os lados, ganhando ou perdendo, mas ainda uma terra de oportunidades.

Marli Gonçalves é jornalista, cronista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo e autora de Feminismo no Cotidiano.




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