Editorial O aumento de 243% no número de processos por racismo ou injúria racial no Grande ABC em apenas um ano, segundo reportagem publicada nesta edição do Diário. expõe realidade que a região não pode relativizar. Mais do que estatística, o dado revela persistência de práticas discriminatórias que atravessam o cotidiano e atingem cidadãos em espaços de trabalho, lazer ou serviços. A ampliação das denúncias, como apontam especialistas, decorre de maior consciência das vítimas, mas isso não diminui a gravidade do cenário. Cada registro representa uma violação de direitos e reforça a necessidade de resposta institucional firme, capaz de combinar repressão legal com ações preventivas.
A discussão não pode prescindir do reconhecimento de que a sociedade brasileira carrega marcas profundas da escravidão, cuja herança estruturou desigualdades e naturalizou hierarquias raciais. Mesmo após a abolição formal, ocorrida em 13 de maio de 1888, pretos e pardos seguem enfrentando barreiras simbólicas e materiais, reproduzidas por comportamentos que se manifestam em falas, gestos ou recusas de atendimento. A chaga social permanece aberta porque nunca houve enfrentamento amplo de suas causas históricas. Limitar o debate à esfera penal significa tratar efeitos, sem alcançar origens que seguem presentes na formação cultural coletiva. É preciso mudar isso.
Punir responsáveis é dever do Estado e sinaliza que a lei alcança todos. Contudo, a superação do preconceito exige investimento contínuo em políticas educacionais, desde a mais tenra infância, capazes de promover respeito, reconhecimento da diversidade e compreensão do passado nacional. Escolas têm papel central na medida em que podem incorporar conteúdos que abordem relações raciais de forma transversal, estimulando reflexão e empatia. Ao assumir essa agenda, o Grande ABC pode transformar indignação em aprendizado social, reduzindo a reincidência de práticas discrimi-natórias e avançando na construção de convivência baseada em direitos e igualdade. Chega de racismo!
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