Conectados Grande ABC e município que festeja 472 anos se entrelaçam no fluxo diário entre as divisas
André Henriques 28/8/25

O Grande ABC tem suas raízes ligadas à Capital, que comemora hoje seu aniversário de 472 anos. É um município tão próximo das sete cidades que, além da história, suas rotinas se entrelaçam, com moradores se deslocando de uma região à outra diariamente.
O aprendiz de Recursos Humanos Luiz Guilherme de Melo Bonifácio, 17 anos, é um destes munícipes. Todos os dias, às 7h30, sai de casa a caminho do Terminal de Diadema, cidade onde mora, para embarcar no trólebus com destino ao Jabaquara, Zona Sul da Capital.
“Depois disso, ainda preciso pegar duas linhas de trem. Trabalho na Lapa e, na volta, vou a São Bernardo, para a faculdade de Comércio Exterior. Realizo várias viagens no dia”, diz o estudante, que está nesta rotina desde maio do ano passado.
A médica do trabalho Monyque Gerbelli, 39, desde 2019 faz o trajeto São Bernardo-São Paulo, em direção ao bairro Vila Olímpia. “Preciso sair bem cedo de casa, às 5h40, e deixo minhas filhas, de cinco e sete anos, com minha mãe. Faço academia por lá, tomo banho e vou direto para o escritório”, descreve a profissional, que leva cerca de duas horas para concluir o percurso.
O designer gráfico Osvaldo Sampaio Freire, 46, faz o caminho inverso. Morador da Zona Leste da Capital, vem todos os dias a São Bernardo. “Vou de carro, saio às 6h40, deixo minha esposa (a gerente de vendas Luciana de Araujo Rab, 44) no trabalho dela no Ipiranga (bairro paulistano) e vou para o meu. No fim do dia, faço o caminho contrário, vou buscá-la e retorno para casa”, conta.
HISTÓRIA
A arquiteta e urbanista Silvia Helena Passarelli, docente da UFABC (Universidade Federal do ABC), explica que durante praticamente todo o período colonial e imperial (1500 a 1889), a região fazia parte da periferia da Capital.
“O Grande ABC abrigou fazendas e ranchos de paradas nas estradas que ligavam o Litoral à cidade de São Paulo e outras localidades. No começo do século XX, a região tinha características suburbanas, com atividades industriais e rurais se mesclando. A Capital atuava como centro comercial e financeiro, além de servir como ponto de conexão para todas as estradas que levam ao interior do Estado.”
Em meados do século passado, houve as separações administrativas que determinaram as sete cidades. “Mesmo com as emancipações, os municípios sempre tiveram uma relação grande nos deslocamentos internos, tanto no trabalho como nas atividades de comércio, educação, saúde, cultura e lazer. Ao mesmo tempo, São Paulo era um forte atrativo para a população do Grande ABC no que se refere à busca de trabalho, serviços e comércios mais elaborados.”
LAZER
A analista de produto Geovana Oliveira, 30, há cinco anos vai de Santo André, cidade natal, à Capital. “Trabalho na Luz, bem longe de onde moro. Pego ônibus e trem. Perco muitas horas no transporte. Só temos um dia de home office e isso contribui muito para a qualidade de vida.”
Apesar de desgastantes, os deslocamentos para o município vizinho são constantes, pois Geovana fez seu curso de pós-graduação na cidade, para onde também vai aos fins de semana para realizar atividades culturais. “Gosto de passear na Avenida Paulista, ir ao Masp (Museu de Arte de São Paulo), além dos bairros Brás e Bom Retiro para fazer compras. Às vezes, vou a bares para o happy hour.”
A historiadora e docente da USCS (Universidade Municipal de São Caetano) Priscila Perazzo ressalta que apesar da qualidade da arte regional, há este fluxo em direção às atividades culturais da Capital.
“Na década de 1990 ainda não tínhamos shopping center e McDonald’s. Mas mesmo com essa formação de que parece que fomos montados para orbitar São Paulo, existia já no Grande ABC uma produção cultural intensa, inclusive cinematográfica, de música e literatura. Porém, ela não entra para a indústria, concentrada na Capital. Aqui era feita pelos moradores para as pessoas da região”, explica.
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