Problemas do setor Pesquisa da CNI aponta que exigência de garantias reais e falta de linhas de crédito adequadas também dificultam acesso ao crédito a curto prazo
André Henriques/DGABC

Oito de cada dez empresas industriais que tiveram dificuldade de obter crédito de curto ou médio prazo (em até cinco anos) avaliam que os juros elevados foram o principal entrave para o acesso. Depois, citam como maiores problemas a exigência de garantias reais, como bens móveis ou imóveis (32%), e a falta de linhas de crédito adequadas à necessidade das empresas (17%). Os dados são da CNI (Confederação Nacional da Indústria), em parceria com a ABDE (Associação Brasileira de Desenvolvimento). Especialistas avaliam que o Grande ABC segue a tendência nacional e 2026 pode ser um ano difícil para o setor.
“A atual política monetária é bastante restritiva e encarece o crédito. Com a Selic em 15% ao ano e juros reais em torno de 10%, o financiamento fica mais caro e desestimula investimentos em expansão e inovação”, explica a analista de Políticas e Indústria da CNI, Maria Virgínia Colusso.
O diretor do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo) de Santo André, Eduardo Mazurkyewistz, pontua que os juros afetam principalmente AS pequenas e médias empresas. A regional andreense também inclui os municípios de Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra.
"Essas cenário dificulta a renovação do parque fabril, a adoção de novas tecnologias e qualquer plano de expansão. O governo dispõe de linhas de fomento com juros subsidiados, mas esbarramos com a exigência de garantias reais. A maioria das pequenas e médias indústrias não possui esse tipo de ativo, o que acaba inviabilizando o acesso a esses recursos. Ficou ainda mais restritivo para investir no Brasil”.
Para 2026, Mazurkyewistz destaca que não há orçamento público que gere superávit, o que impacta todo o sistema econômico. “Não há perspectiva de mudança significativa no curto prazo.”
MAIOR PATAMAR
A Selic está no maior patamar desde 2006. O Boletim Focus, divulgado ontem pelo Banco Central, indica que o mercado financeiro espera que o índice fique em 12,25% até o final de 2026.
Ela também diminui a procura por crédito. De acordo com o levantamento, 54% das empresas não buscaram crédito de longo prazo e 49% não procuraram crédito de curto ou médio prazo entre fevereiro e julho de 2025. Somente 26% contrataram ou renovaram no curto prazo e 17% no longo. O estudo aponta que, nesse período, 43% das médias empresas não conseguiram obter crédito acima de cinco anos.
“O governo federal lança algumas linhas de financiamento extremamente burocráticas que, geralmente, ficam com empresas mais estruturadas e deixam de fora o pequeno e médio empreendedor. Eles também são prejudicados quando precisam disponibilizar um imóvel, por exemplo, para comprar uma máquina”, detalha o diretor do Ciesp de São Bernardo, Mauro Miaguti.
Ele afirma que os problemas das indústrias com juros altos são uma questão antiga, que se agravou em 2025. Miaguti indica que o setor automotivo é o mais afetado no Grande ABC, ainda mais com a chegada de multinacionais, que aumentam a competitividade.
“Somado aos juros bancários, essa porcentagem atrapalha muito, porque a empresa precisa focar no cuidado financeiro, ao invés de investir na produção. A taxa básica do jeito que está inibe o consumo da população, o que reprime a demanda e barra a oferta”, comenta. “A expectativa por uma queda na Selic é positiva, mas muito aquém do que seria justo com quem investe em produção industrial.”
A sondagem ouviu 1.789 empresas industriais de 1º a 12 de agosto de 2025. Desse total, 713 são de pequeno porte, 637 de médio porte e 439 de grande porte. A primeira reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), que define a Selic, será entre 27 e 28 de janeiro.
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