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Marcelo Dias: ‘Prevenir o feminicídio é o maior desafio’

19/01/2026 | 08:15
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FOTO: Claudinei Plaza/DGABC
FOTO: Claudinei Plaza/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Próximo de completar um ano à frente da Seccional de Santo André, o delegado Marcelo Dias faz um balanço do trabalho desenvolvido na região, que abrange também Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. Ex-seccional de Diadema, ele conta da experiência no Grande ABC e como funciona a integração entre as cidades. 

Delegado desde 1989, Dias reforça a atuação conjunta com Prefeituras e Polícia Militar, o uso de tecnologia nas investigações, aponta o feminicídio como uma das principais preocupações da Polícia Civil e detalha os planos para ampliar a proteção às mulheres, além dos desafios e metas para 2026.

Em fevereiro, o sr. completa um ano da nomeação como delegado seccional de Santo André. Que balanço faz deste primeiro ciclo e quais resultados considera mais relevantes?

DGABC

Quando eu assumi, os índices não estavam bons, não estavam em um patamar que considerasse ideal. Ao longo do ano, fizemos várias reuniões e procuramos mostrar para a equipe que a Polícia Civil tem muitas ferramentas de trabalho, e que nem todos conheciam ou utilizavam plenamente. Batemos muito nessa tecla: desde a primeira notícia-crime, no plantão, já é possível começar a trabalhar de forma mais técnica. A ideia é que as informações já cheguem para as equipes de investigação e para as delegacias especializadas com elementos concretos, e não do zero. Eles passaram a ouvir melhor as pessoas, com mais riqueza de detalhes, e isso foi fluindo ao longo do tempo. Além disso, realizamos operações conjuntas com a Polícia Militar, com saturação em áreas que precisavam de atenção. E também é importante destacar que a Prefeitura nos ajuda muito, tem sido uma parceria importante nesse trabalho.

Quais eram os índices que não estavam adequados quando o sr. assumiu e quais medidas foram tomadas?

<EM>Santo André ainda tem um índice elevado de furto de veículos. Esse sempre foi um ponto de atenção. Desde que assumi, passamos a intensificar a fiscalização em desmanches e a realizar operações em conjunto com a Polícia Militar, com apoio do COI (Centro de Operações Integradas) e da Prefeitura. Já houve queda, mas ainda não é o patamar que consideramos ideal. O roubo em geral também caiu bastante, assim como os casos de recuperação de veículos. A recuperação diminui porque, quando você reduz o roubo e o furto, naturalmente há menos veículos para serem recuperados. Mesmo assim, os números ainda exigem atenção constante. Além disso, trabalhamos muito a questão de conscientizar o policial sobre a importância da atuação correta na ocorrência, orientação em campo, reforço sobre como agir desde o primeiro atendimento. Isso tudo fez o pessoal se movimentar mais e trabalhar de forma mais técnica. Neste ano, já começamos novamente com foco em crimes envolvendo celulares. A Polícia Civil fez grandes operações nessa área. Temos a ideia de ir em lojas para verificar a procedência dos aparelhos. Queremos ter com antecedência a identificação Imei (número único de identificação de um aparelho celular) dos celulares, para termos um controle mais claro do que está circulando e do que é produto de crime.

Como é a relação da Polícia Civil com o COI e de que forma as câmeras de monitoramento auxiliam nas investigações?

O COI nos ajuda demais. A parceria é muito importante. Por meio das câmeras, eles conseguem nos apoiar tanto no monitoramento quanto na organização, como por exemplo, na manipulação do trânsito, quando precisamos, em situações específicas. Além disso, os vídeos são fundamentais para o trabalho de investigação. Muitas ocorrências que acontecem na cidade são registradas pelas câmeras do COI, e esse material é repassado para a Polícia Civil. A partir dessas imagens, nós instauramos o inquérito, analisamos a dinâmica do crime e avançamos nas investigações para identificar e prender os autores.

O sr. está à frente de quatro cidades: Santo André, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. Quais são as principais diferenças entre elas em relação à criminalidade?

As diferenças estão muito ligadas ao perfil de cada cidade. Em algumas, há maior incidência de furto, especialmente em regiões mais carentes. O furto é um crime difícil de combater, porque está muito relacionado à situação econômica e social. Em outras áreas, principalmente em regiões de divisa entre cidades, o problema é mais voltado para desmanche e crimes ligados a veículos. Vamos mapeando o que é mais recorrente em cada localidade e direcionando as operações conforme essa realidade. Se percebemos, por exemplo, que em determinada área há mais furto de veículos, intensificamos ações para localizar desmanches, inclusive em áreas de mata, e fazemos operações específicas para combater esse tipo de crime. O trabalho é sempre adaptado à característica de cada cidade.

Como funciona hoje o trabalho integrado entre as seccionais do Grande ABC, Santo André, São Bernardo e Diadema?

Esse trabalho é feito com troca constante de informações. Às vezes, acontece um roubo em uma farmácia ou outro tipo de crime que possa atravessar os municípios, e a informação é repassada para nós. Da mesma forma, quando ocorre algo em Santo André, nós também encaminhamos para eles. Teve, por exemplo, um caso do rapaz que atacava ônibus com pedras, atingindo pessoas principalmente na região dos olhos. Assim que surgiram os primeiros registros, começamos a conversar entre os seccionais, trocar dados, ver o que cada um tinha de informação, o que já havia sido apurado e o que ainda faltava. Fomos cruzando os dados, analisando por onde ele estava passando, quais trajetos fazia, em que pontos havia atacado, e esse trabalho conjunto foi fundamental para conseguir localizar e prender o autor. Essa integração tem dado resultado justamente porque não fica ninguém trabalhando isolado.

Como está hoje o efetivo? Existe alguma previsão ou conversa sobre reforço em Santo André, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra?

Está previsto para os próximos dias o ingresso de novos escrivães. Devem ser mais de 1.000 no total para o Estado, mas isso é distribuído entre todas as regiões. O Demacro (Departamento de Polícia Judiciária da Macro São Paulo), por exemplo, cuida de nove seccionais, e cada seccional tem várias delegacias. Então, ainda não sabemos exatamente quantos virão para Santo André e para as demais cidades da nossa área. Teremos a certeza quando sair a divisão oficial. Ao mesmo tempo, há um movimento natural de afastamentos, aposentadorias, pedidos de transferência, e isso acaba abrindo espaço. Por isso, o Estado também está abrindo novos concursos. Já temos delegados em formação na Academia de Polícia, com previsão de chegada entre setembro e outubro. Enquanto isso, precisamos trabalhar com o que temos, investindo em ferramentas e em estrutura para dar mais agilidade à investigação, com um efetivo que atualmente gira em torno de 500 pessoas.

Qual é hoje a maior ‘dor de cabeça’ da Polícia Civil nas regiões comandadas pelo sr.?

O feminicídio é, sem dúvida, uma das maiores preocupações na região. Tentamos, de todas as formas, ver o que pode ser feito para diminuir esses casos, mas é um tipo de crime muito difícil de prevenir, porque muitas vezes é instantâneo. Em muitos casos, é uma discussão, uma decisão impulsiva, e a tragédia acontece. Depois vem o arrependimento, o ‘o que eu fiz?’, mas aí já é tarde. Isso torna o enfrentamento muito complexo. A prevenção passa muito pela educação, pela conscientização e pelo trabalho preventivo, mas, infelizmente, não é simples evitar esse tipo de crime. 

Em setembro do ano passado, tivemos a morte do ex-delegado-geral, Ruy Ferraz. Qual foi o impacto desse episódio na Polícia Civil?

É uma grande perda, sem dúvida. Ele foi um grande delegado, uma pessoa respeitada, que sempre enfrentou o crime organizado de forma firme. Infelizmente, ameaças e crimes fazem parte da nossa carreira. Mas não tem como recuar, se fizer isso, está perdido. É preciso enfrentar, seguir em frente e continuar o trabalho. Podemos ver também que a polícia fez um ótimo trabalho na investigação e prisão dos criminosos envolvidos no caso.

No fim do ano passado houve a mudança no comando da Secretaria de Segurança de São Paulo, do Guilherme Derrite para o delegado Osvaldo Nico Gonçalves. Como o sr. avalia essa escolha?

Ainda é muito cedo para fazer uma avaliação mais profunda. O tempo é curto. Mas o delegado Osvaldo Nico é uma pessoa que conhecemos há muitos anos, é um profissional muito vibrante, positivo, que trabalha em ritmo intenso, sempre indo para cima. Vejo como uma mudança natural. Agora é acompanhar, ver como será o andamento do trabalho e quais caminhos serão adotados a partir dessa nova gestão.

Quais os principais objetivos da seccional para 2026?

Nosso principal objetivo é continuar reduzindo os índices de furto de veículos. Estamos fazendo reuniões com a Prefeitura de Santo André, com a Polícia Militar, alinhando estratégias, e a ideia é intensificar esse trabalho para baixar ainda mais esses números. Também estamos avançando na área de proteção à mulher. Um dos projetos importantes é a inauguração de uma DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) em Ribeirão Pires. Já estamos em tratativas com a Prefeitura, com apoio de deputados e vereadores, para viabilizar essa estrutura e a expectativa é conseguir colocar essa delegacia em funcionamento ainda neste ano. Outra preocupação é com o atendimento às vítimas de violência sexual. Hoje, muitas mulheres de Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra precisam se deslocar até Santo André para realizar exames no IML (Instituto Médico Legal), o que acaba dificultando e, em alguns casos, atrasando o atendimento. Já fizemos reuniões no Demacro para tentar viabilizar a realização desses exames nas próprias cidades.

Raio-X

Nome: Marcelo Francisco Augusto Dias

Aniversário: 31 de maio

Onde nasceu: São Paulo, Capital

Onde mora: Guarujá

Formação: Direito

Um lugar: Igaratá - SP

Time do coração: São Paulo Futebol Clube

Alguém que admira: o pai, Milton Dias

Um livro: Nosso Lar, de Chico Xavier

Uma música: My Away, de Elvis Presley

Um filme: Advogado do Diabo (1997), dirigido por Taylor Hackford




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