Entrevista da Semana Ministra das Mulheres, é assistente social de formação e filiada ao PT (Partido dos Trabalhadores) desde 1982, além de atuar por 30 anos como professora universitária até se aposentar na função
FOTO: Divulgação

No ano passado, em meio a uma explosão de casos de feminicídio no Grande ABC e em todo o Brasil, Márcia Lopes, 68 anos, assumiu, em maio, o Ministério das Mulheres do Brasil. Assistente social de formação e filiada ao PT (Partido dos Trabalhadores) desde 1982, a ministra atuou por 30 anos como professora universitária até se aposentar na função, em paralelo à vida pública. Em 2010, foi ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Ao longo de sua carreira política, teve forte atuação em processos de formulação de políticas para as mulheres, missão que ganha ainda mais força com o desafio de comandar a Pasta.
Por que, mesmo depois de dez anos da Lei do Feminicídio e punições mais rígidas, os casos de violência contra a mulher têm aumentado?
Os estudiosos dizem que há dois fatores, e um deles é a subnotificação. Os números têm aumentado porque há mais informações e um incentivo maior para a mulher denunciar. Os serviços de denúncias foram aprimorados e, dessa forma, as mulheres sentem mais confiança para seguir adiante. Muitas têm medo de que os agressores descubram que foram denunciados e passem a persegui-las. Outras dizem ter vergonha de estar passando por isso e também se sentem culpadas.
Qual seria a motivação do real crescimento dos casos de violência contra a mulher e de feminicídios?
As mulheres estão mais independentes. Pesquisas e intelectuais mostram isso: o avanço da mulher desestruturou o poder dos homens. O fato de terem conquistado espaço em todos os lugares, como na indústria, pilotando avião, CEOs de empresas, veio a desequilibrar o poder dos homens que, historicamente, estavam tranquilos. Eles dominavam e elas ficavam quietas. As mulheres galgaram espaço até na política: elas podem fazer leis e aplicar leis. Há juízas e promotoras que resguardam os direitos humanos, e eles não se conformam com mulheres que vão abrindo caminhos. As mulheres são capazes de exercer funções de liderança, e isso veio desestruturar a mentalidade patriarcal.
No fim de 2025, houve uma sequência de crimes, alguns de repercussão nacional, como o caso de Tainara Santos, arrastada e morta. Somente no Grande ABC, pelo menos quatro ocorreram em novembro e dezembro.
Há períodos do ano em que, de fato, os números aumentam. Indicadores mostram que as pessoas ficam mais motivadas a participar de festas e a se reunir nessa época. Saem para se divertir, mas o machismo exige que a mulher seja recatada.
O que o Ministério das Mulheres tem feito para inibir os crimes e auxiliar as mulheres em situação de violência?
Estamos investindo nos dois campos, para ampliar e melhorar os serviços que recebem as denúncias, acolhem e protegem as mulheres, e também na educação, sugerindo mudanças nos currículos escolares para que crianças e jovens tenham acesso às informações e desenvolvam valores e princípios que contribuam para mudar essa realidade.
A educação seria uma forma de corrigir o machismo estrutural?
Isso precisa ter uma guinada, porque a própria sociedade impõe à mulher essa posição. É impressionante como os homens, nas rodas de conversa, fazem piadas que diminuem a mulher. Sempre acredito na mudança, principalmente quando isso começa na infância, desde o ensino infantil. Todos os currículos precisam ter esse conteúdo da igualdade de gênero. Não é uma mudança rápida e simples. Não tem relação com níveis de acesso. Indicadores mostram que esse problema existe em todas as classes sociais. Precisamos de um processo de formação, de uma nova consciência, e fazer publicidade orientando e desmistificando questões como “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Temos que nos envolver, sim.
O Brasil vive um retrocesso ou existe um avanço?
Tivemos muitos resultados ao longo do tempo. Até 1932, as mulheres nem votavam. Há 50 anos, não estudavam, somente os homens. A mobilização e os movimentos sociais organizados, dos partidos democráticos na América Latina principalmente, foram muito importantes. As mulheres foram às ruas reclamar do preço do óleo, do preço do açúcar, e assim foram ganhando espaço, nas igrejas, nos sindicatos, nas universidades, os quais, conquistados com muita luta e sacrifício. Muitas foram presas, torturadas ou mortas porque ousaram questionar o sistema e as injustiças gritantes.
A sra. costuma destacar que é importante haver uma atuação com homens porque são eles que cometem a violência contra a mulher. Por quê?
Devemos levar educação aos homens e fazer com que eles assumam essa bandeira, porque são os que agridem. No sistema de justiça brasileiro, temos como medida que os réus frequentem grupos de reflexão. Apesar de ser uma medida de punição, acabam vivenciando situações para que tenham consciência. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse que iria liderar esse movimento para trazer os homens para essa reflexão. Afirmou que os homens têm que assumir essa causa, porque são eles, os parceiros das mulheres, os agressores.
Como a violência contra a mulher avança até se transformar em um feminicídio?
Há uma total naturalização da violência, tanto que muitos homens nem sabem que são agressivos e as mulheres não conseguem identificar quando isso acontece. É importante reconhecer logo no início para não deixar chegar ao fim da linha. Até o feminicídio, geralmente há anos de agressão, que começam por palavras, dizendo que a mulher é feia, gorda, que a roupa não é adequada, que não pode assumir determinadas profissões. Juliana Soares, por exemplo, que levou 61 socos, disse que durante os dois anos de relacionamento ele era nervoso e grosseiro, mas que acreditava no que sempre dizia, que não iria mais fazer isso, até chegar ao ponto de ter que reconstruir toda a face destruída pelas agressões dele.
A Juliana conseguiu sobreviver, o que não foi possível para tantas outras.
Quando as mulheres sobrevivem, sempre torcemos que se abram para lutar e se unam a outras mulheres determinadas. Felizmente, temos a Lei Maria da Penha, que nos ajuda muito. Uma lei que foi resultado da decisão de uma mulher que foi à luta. Foi corajosa e proporcionou essa grande contribuição, pois a Lei Maria da Penha é uma das mais conhecidas do Brasil e do mundo.
Muitas mulheres estão conseguindo reagir e lutar pela mudança desse cenário?
É uma tragédia enfrentar todos os dias, em média, quatro feminicídios e mais de 200 estupros. Por outro lado, as mulheres estão se organizando. Temos mais de dez fóruns de mulheres espalhados por todo o Brasil – do hip hop, das catadoras de lixo, sindicalistas, indígenas, quilombolas – que se reúnem para falar de suas vidas e de como enfrentam o machismo. Estamos caminhando.
A sra. destacaria alguma luta em especial que precisa avançar?
As mulheres ainda ganham menos exercendo a mesma função, mesmo demonstrando que têm capacidade. Temos de lutar para colocar em prática a lei de igualdade salarial.
A sra. esteve na região em 18 de dezembro e conversou com os prefeitos no Consórcio Intermunicipal do Grande ABC sobre uma possível implementação da Casa da Mulher Brasileira.
Há duas áreas no Grande ABC para a instalação de unidades da Casa da Mulher Brasileira, uma em Santo André e outra em São Bernardo. Santo André enviou, no fim de setembro, um ofício solicitando a unidade, e o documento está sendo analisado. Há um prédio da Secretaria de Patrimônio da União que pode receber o equipamento de proteção e apoio às mulheres. Em São Bernardo, conforme conversei com o prefeito e presidente do Consórcio, Marcelo Lima (Podemos), há um prédio da Prefeitura.
Em qual fase está a negociação no Grande ABC?
Combinei de agendarmos uma data para retornar à região e discutir o assunto. Todos os prefeitos foram muito abertos e pretendemos falar sobre emendas parlamentares, porque, havendo a possibilidade desse recurso, os esforços para a implementação seriam muito mais rápidos.
Como funciona a Casa da Mulher Brasileira e quantas unidades foram implementadas no Brasil?
A Casa da Mulher Brasileira foi retomada pelo Ministério em março de 2023. Lá, as mulheres têm um espaço de atendimento humanizado e serviços para atender aquelas em situação de violência. Recebem acolhimento, apoio psicossocial e jurídico, apoio no cuidado com as crianças – já que essa é uma responsabilidade que recai majoritariamente sobre a mulher –, além de cursos profissionalizantes para incentivar a autonomia financeira, alojamento de passagem, entre outras ações que garantam condições para enfrentar a violência. Temos, em todo o Brasil, 11 Casas da Mulher Brasileira, seis novas a serem implantadas e mais 15 em projeto.
Qual a importância de termos esses espaços para a mulher e para a criação de políticas públicas?
É muito importante termos uma rede forte e espaços para as mulheres, principalmente na política. A mulher precisa votar em mulher para termos representatividade e para que sejam criadas leis e políticas públicas voltadas às mulheres. As mulheres que estão na política são agredidas por homens que não as aceitam nesse espaço. Mas não podemos baixar a guarda achando que nada do que foi feito valeu a pena, porque vale. O movimento feminista avançou muito. Também não podemos jamais votar em homens que agridem mulheres.
Nome: Márcia Helena Carvalho Lopes Aniversário: 13 de junho de 1957 Onde nasceu: Londrina, no Paraná Onde mora: Em Londrina e Brasília Formação: Serviço Social pela Universidade Estadual de Londrina Um lugar: Onde tenha mar Time do coração: Corinthians Alguém que admira: Minha mãe, Geraci, de 97 anos Um livro: Caça às Bruxas e Capital: Mulheres, Acumulação, Reprodução, de Silvia Federici Uma música: Conselho, de Almir Guineto Um filme: A Cor Púrpura, Steven Spielber, 1985Raio X
Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.