Alerta hídrico Região vê sumirem 158 hectares, ou 2%, em um ano; avanço imobiliário é uma das causas, diz biológa
FOTO: Eduardo Merlino/PMSA

O Grande ABC perdeu o equivalente a 222 campos de futebol em relação a superfícies hídricas em um ano. Os dados são do MapBiomas e mostram a diminuição de 158 hectares de corpos cobertos d’água, computados em rios, reservatórios, lagos e outros.
Os campos com padrões FIFA (Federação Internacional de Futebol) têm medidas de 105 metros por 68 metros, totalizando 7.140 metros quadrados, que corresponde a cerca de 0,71 hectares.
Em 2023, a região registrou 8.629 hectares de espaços aquáticos, cerca de 10,4% de todo o território das sete cidades. Já em 2024, tinha 8.471 hectares, uma perda de 2% em um ano.
Esse decréscimo acompanha a estatística do Brasil. No País, o MapBiomas registrou uma perda de 400 mil hectares de superfície de água em 2024, quando registrou 17,9 milhões de hectares. Em 2023, foram compilados 18,3 milhões.
A parcial do Grande ABC acendeu um alerta para um cenário atual vivido pelas cidades. A falta de conservação desses espaços pode alavancar a crise hídrica nos sistemas de mananciais paulistas. Os reservatórios que abastecem a Região Metropolitana de São Paulo estão em níveis críticos e desde agosto a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) implementou racionamento noturno nos municípios.
A bióloga e professora da USCS (Universidade Municipal de São Caetano), Marta Marcondes, disse que o avanço imobiliário prejudica a questão ambiental. “Ao longo dos anos, fomos percebendo um crescimento significativo de supressão de vegetação em áreas que deveriam ser preservadas. A gente tem um avanço imobiliário, vemos desmatamento para fazer condomínios e construções de galpões logísticos. Quando se perde vegetação, você perde automaticamente a capacidade de água”, reforçou a docente.
Diante disso, Marta afirmou que essa perda de território aquático pode, sim, agravar a crise de abastecimento. “É importante que a gente fale que é uma crise de gestão, porque já tivemos uma situação assim há 10 anos e foi falado que precisaríamos fazer toda recuperação dos mananciais. Então, se não fizermos a lição de casa, vamos ter crises e isso vai influenciar diretamente o abastecimento”, completou.
A cidade que registrou a maior queda de áreas no período foi São Bernardo, com 115 hectares de redução, justamente a cidade que possui o maior território hídrico (7.261 em 2024) – veja dados por cidade na tabela.
Outro problema observado pela especialista é a falta de planos de preservação de rios. “Constantemente, ao invés dos municípios fazerem o processo inverso de renaturalização de rios e córregos, a gente vê cada vez mais os municípios enterrando esses córregos, sem levar em consideração a mata ciliar”, comentou Marta.
Ainda de acordo com a especialista, geralmente uma cidade enterra rios ou córregos para despejo de esgoto e ganha espaço para construção de vias e estradas. “Um exemplo foi a Avenida dos Estados, onde o rio Tamanduateí foi retificado”, disse.
Apesar da perda do território coberto por água, o Grande ABC registrou um pequeno aumento de cobertura florestal. Foi um ganho de 39 hectares em relação a um ano, de 2023 para 2024, com uma área total de 40,2 mil hectares.
Mesmo assim, Marta indicou que esse acréscimo é de grande importância, porém não equipara a redução de corpos hídricos. A formação de uma área hídrica leva mais tempo, e por isso esse pequeno aumento não é equivalente, explicou a especialista.

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