Cultura & Lazer Titulo Trajetória

Do Baeta Neves ao estrelato, a história de Carol Duarte

Atriz de São Bernardo constrói trajetória internacional sem perder o vínculo com o Grande ABC

25/12/2025 | 08:45
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FOTO: Globo/Estevam Avellar e Divulgação
FOTO: Globo/Estevam Avellar e Divulgação Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Da oficina cultural no bairro do Baeta Neves, em São Bernardo, aos tapetes vermelhos dos maiores festivais de cinema do mundo, Carol Duarte, 34 anos, construiu uma trajetória que combina rigor artístico, sensibilidade social e uma relação profunda com suas origens. Hoje reconhecida como uma das atrizes brasileiras mais consistentes de sua geração, ela carrega a marca de quem se formou em espaços públicos de cultura e transformou essa base em ferramenta de criação.

“Eu comecei fazendo uma oficina de bairro, lá no Baeta Neves. Eu cresci ali”, lembra. Era 2006 quando Carol, então com 14 anos, descobriu o teatro em iniciativas descentralizadas promovidas pela Prefeitura de São Bernardo. “Tinham crianças, adultos, um operário da Volkswagen, gente do comércio. Isso foi muito importante na minha formação – não só como atriz, mas como pessoa. O teatro mudou a minha maneira de olhar o mundo, de existir”, diz.

A efervescência cultural do Grande ABC foi decisiva. Além das oficinas, Carol estudou na Fundação das Artes, em São Caetano, e frequentava assiduamente a Escola Livre de Teatro de Santo André. “Acho que vi Necrópolis muitas vezes”, recorda. “Foi um momento muito fértil. Saíram atores, atrizes, pessoas que foram para a academia. Eu sou muito grata a esse período.”

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O passo seguinte foi a EAD (Escola de Arte Dramática) da USP (Universidade de São Paulo), onde conciliava a formação com trabalhos informais para garantir a sobrevivência. “Muitas vezes eu não conseguia ficar sem trabalhar, fui garçonete”, conta. Foi na EAD que participou de um espetáculo inspirado em Graciliano Ramos. No palco, interpretava uma personagem sem nome, chamada Puta Magra. Um produtor de elenco da TV Globo estava na plateia e dali surgiria o convite para os testes de A Força do Querer.

Exibida em 2017, a novela marcou a estreia de Carol no audiovisual e projetou seu nome nacionalmente. A interpretação de Ivan Garcia, personagem transexual, rendeu oito prêmios e transformou a atriz em uma referência na discussão sobre representatividade. “Quando eu entro nessa novela das nove, entro de vez nesse mundo do audiovisual, que me recebeu muito bem”, afirma.

Logo em seguida veio o cinema. A Vida Invisível (2019), de Karim Aïnouz, levou Carol a Cannes, onde o filme venceu o prêmio Un Certain Regard. A atriz recebeu indicação ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, venceu o Prêmio Platino e foi consagrada também no Festival de Valladolid. Mais recentemente, em Malu (2024), de Pedro Freire, conquistou o Troféu Redentor de Melhor Atriz Coadjuvante no Festival do Rio e nova indicação ao Grande Otelo.

A fase internacional se consolida com La Chimera (2023), dirigido pela italiana Alice Rohrwacher. No filme, Carol interpreta Itália, uma imigrante brasileira que vive na Toscana e divide a cena com Josh O’Connor e Isabella Rossellini. “Foi um dos trabalhos mais desafiadores da minha vida, mas também muito inspirador”, resume. “Era meu primeiro filme fora do Brasil, em outra língua. Dez dias depois de passar no teste, eu já estava na Itália. Mudei toda a minha vida para ir.”

A convivência intensa no set marcou a experiência. “Eu morei com a Isabella por mais de uma semana, porque a gente precisava criar intimidade. No filme, moramos juntas”, conta. “Ela respira cinema, carrega o cinema no corpo. Virou uma amiga que eu levo para a vida.” Sobre Josh O’Connor, não economiza elogios. “Acho ele um dos atores mais interessantes da atualidade. Foi uma parceria muito bonita.” 

Atenta aos processos criativos, Carol diz que adapta sua atuação a cada projeto. “Eu sempre pergunto para os diretores o que eles gostam de assistir. Tento entender o universo de cada um, e isso faz parte do meu processo.” 

La Chimera foi exibido em Cannes, Valladolid e Telluride. No Brasil, a produção estreia nesta sexta-feira (26) na plataforma Filmicca, distribuidora e serviço de streaming de filmes independentes e autorais.

OS FAVORITOS DA CAROL

A PIOR PESSOA DO MUNDO - Joachim Trier (2021)

UMA MULHER SOB INFLUÊNCIA - John Cassavetes (1974)

NOITES DE CABÍRIA - Federico Fellini (1957)

O HOMEM CORDIAL - Iberê Carvalho (2019)

OESTE OUTRA VEZ - Erico Rassi (2024)




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