Entrevista da Semana
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Da ansiedade silenciosa à solidão amplificada pelas redes sociais, a saúde mental deixou de ser tabu para se tornar um enorme desafio. Para Claudio Lottenberg, médico e presidente do Conselho do Hospital Israelita Albert Einstein, a combinação entre hiperconectividade, mudanças no mundo do trabalho e isolamento social criou um terreno fértil para o avanço da ansiedade e depressão. Ele defende o reconhecimento dessas condições como doenças crônicas, alerta para o risco da desinformação, e aponta caminhos que passam por educação emocional, ambientes corporativos mais saudáveis, políticas consistentes e hábitos como atividade física regular.
O que mudou na maneira como o tema saúde mental era tratado no passado e como é hoje?
Reconhecer quadros de ansiedade e depressão no passado era um verdadeiro tabu. Na pandemia, quando as pessoas foram isoladas da vida social, acabaram se concentrando no ambiente digital. Surgiu a oportunidade de reconhecer algo que já existia, mas não era tão debatido. Os transtornos mentais deveriam estar enquadrados dentro das doenças crônico-degenerativas. Eles têm importância tão grande quanto diabetes, hipertensão, insuficiência cardíaca, doenças metabólicas. Mas, como mexe com o espectro comportamental, por vezes, a leitura diagnóstica não é fácil.
Quais questões têm contribuído para o aumento dos transtornos de ansiedade?
Vemos uma mudança comportamental. O grande gatilho foram as mídias digitais e as mecânicas de comunicação digital. No passado, o tempo de resposta e interação ocorria de uma vontade individual. Hoje, a gente se vê compelido a participar de chats, questionamentos, posicionamentos, quase de forma instantânea. Se duas pessoas estão conversando, mas tiverem um celular ao lado, assim que chega uma notificação no WhatsApp, há uma tendência, uma curiosidade enorme, em saber o que tem por lá. A notificação dispara alguma coisa na gente.
Quais são as consequências dessas mudanças?
Antes, quando havia tempo para poder relaxar, a gente relaxava. Sou de uma época da pré-telefonia celular. O celular é um grande incremento, mas trouxe uma dinâmica comportamental. A gente deixou de ligar para a casa das pessoas para ligar para as pessoas. Isso traz uma exigibilidade de resposta diferente e determinadas coisas são desencadeadas por essa pressão. Esse é o grande gatilho para a ansiedade.
E em relação às pressões atuais no que se refere à área profissional das pessoas?
Vivemos em um mundo muito competitivo, que se digitaliza e, em função disso, muda a configuração dos empregos. Com isso, as pessoas têm que fazer verdadeiras transformações de carreira ou se modernizar naquilo que fazem. Não é fácil suportar essa mecânica de pressão. Isso se expressa em um cenário de ansiedade que a gente vê, não só nos jovens, mas em todo mundo.
Estas circunstâncias trazem quais efeitos?
Se você fica ansioso, ao mesmo tempo, come de forma inapropriada e dorme de maneira inadequada. Tudo isso produz um ser humano com características que são justamente o oposto do que se fala quando pensamos em longevidade. Para ter longevidade é preciso ter uma alimentação saudável, atividade física regular, cuidado com a sarcopenia (perda de massa muscular com a idade) e sono adequado.
Quais os riscos de se recorrem às redes sociais e à inteligência artificial para obter orientação psicológica em vez de buscar apoio especializado?
A IA (Inteligência Artificial) vai se transformar num bem universal, como a eletricidade ou água. A questão é saber utilizá-la adequadamente. Para isso, você precisa manter seu conhecimento e, sobretudo, saber fazer a pergunta adequada. Do contrário, você não consegue se defender de uma informação falsa. Tudo o que fazemos depende de conhecimento e informação de qualidade. Tanto diante da IA como da mídia social, temos que tomar cuidado para não absorver informações falsas, pois isso traz desdobramentos ruins.
Considerando o custo dos transtornos mentais para as organizações, quais medidas podem promover ambientes de trabalho mais saudáveis?
As empresas devem entender que quadros de depressão e ansiedade, se não forem bem trabalhados, têm impacto direto na performance individual e coletiva. É preciso tratar isso dentro de uma lógica individual, acolhendo adequadamente, e coletiva, com programas gerais, reconhecendo que isso é um capítulo de saúde corporativa. Mudar cultura é difícil. No passado, a saúde mental era tabu, mas, no mundo corporativo atual, temos a oportunidade de colaborar muito. E, quando você ajuda alguém que enfrenta problemas de saúde mental no trabalho, isso tem impacto na família da pessoa. Diferentemente de um quadro de diabetes ou hipertensão, ninguém se auto-examina quando está com depressão ou ansiedade. E isso tem consequências.
Como o avanço da solidão nas grandes cidades afeta a formação de vínculos sociais?
O homem se habituou a viver em comunidades. Faz parte do convívio humano estabelecer conexões. Se você se isola, você perde a essência da vida em sociedade. Isso é muito ruim. E, pior, você se alimenta de algo, como as chamadas redes sociais, que são, na realidade, até imaginárias. Ali, é como se as pessoas não experimentassem sentimentos de frustração, como se fossem super-heróis e tivessem só momentos de satisfação. A vida real não é assim. Nela, há frustração, tristeza, falta de acesso, limites. Quando você olha para as redes sociais, por vezes você está se alimentando de um mundo que não é real, é imaginário. E isso te distancia justamente daquele mundo de comunidade. Alguns sentimentos acabam desaparecendo, como compaixão, solidariedade, o apoio mútuo, coisas muito importantes para estabelecer vínculos verdadeiros.
O que ainda sustenta o estigma em torno da terapia e quais são as barreiras na busca por apoio psicológico?
Em primeiro lugar, o acesso. Tanto na esfera pública, no SUS (Sistema Único de Saúde), como na saúde suplementar, o assunto é tratado ainda com alguma reserva, pois envolve um financiamento maior. O estigma que existia das pessoas em relação a cuidar da saúde mental tem caído. Pelo contrário, está virando algo cool alguém dizer que faz terapia. A telemedicina, mais prática, rápida e barata, facilitou o acesso. Investir na melhora da saúde mental, com todas as interações que isso traz, não é custo é um investimento em você mesmo.
Por que a comunicação sobre saúde mental tem dificuldade em engajar os mais jovens?
Os jovens, hoje, têm tantos apelos de natureza de mídias digitais e não é simples conseguir motivá-los. Trata-se de uma conscientização que deve começar na escola e com os pais. O grande problema do País e do mundo é que o discurso que a educação é algo importante, está muito no papel. A inteligência emocional, tema de tantos livros, precisa ser levado, no sentido real, para dentro do processo de educação de um jovem. Para que ele tenha o equilíbrio necessário para desenvolver as suas habilidades. Assim como trabalhamos as habilidades técnicas, ensinando matemática, português e geografia, é preciso investir na formação emocional. São ferramentas que eles vão utilizar na vida tanto quanto a matemática, por exemplo.
Que políticas devem ser priorizadas para melhorar o bem-estar psicológico da população?
Política pública não é fruto da ação de um governo, mas da vontade da sociedade, que deve se mobilizar, apontar os problemas reais e canalizar isso para fazer com que os governos, sejam eles de direita ou de esquerda, coloquem na pauta, como prioridade. Lamentavelmente, temos uma classe política que olha para resultados imediatos e se alimenta de pontos compensatórios. É muito mais fácil você ver uma ponte que foi construída ou um hospital do que entender que você vai investir em uma coisa cujo resultado acontecerá lá na frente. Teríamos que ter uma classe política mais consistente e menos ideológica. De fato, preocupada com o interesse da população e não com seus próprios interesses. A sociedade, por sua vez, tem que colocar a questão da saúde mental como uma de suas demandas principais, se organizar, para que a conscientização se amplie.
Qual é a relevância da atividade física regular na prevenção da saúde mental?
Há cada vez mais trabalhos científicos que comprovam que a questão da atividade física tem uma repercussão importante em aspectos comportamentais. Por exemplo, a ciência diz que a caminhada permite ‘colocar a cabeça em ordem’, como se estivesse se reconfigurando. A musculação teria um papel até de natureza hormonal, liberando determinados tipos de hormônios e enzimas, que colaboram dentro de todo o metabolismo. Em termos de longevidade, uma das grandes lutas da sociedade não é só aumentar a expectativa de vida, mas é a expectativa de vida com independência. Essa inter-relação, assim como a própria alimentação, têm uma interferência em quadros de ansiedade e depressão.
Seu livro mais recente, Entre a Luz e as Trevas, de 2024, trata do conflito entre Israel e Hamas. Qual o desafio ao abordar tema tão complexo e delicado?
O mundo em que vivemos se alimenta de narrativas, onde nem sempre o contexto histórico e a consistência são fatores-chave. Muitas vezes, a maneira como algo é contado, pelo tom emocional, acaba distorcendo a realidade. A região entre Gaza e Israel só poderá ter cenário de paz quando ali forem estabelecidos dois Estados que se respeitem. É preciso encontrar uma alternativa, mas não podemos ter um Estado governado por terroristas e que ataca Israel o tempo todo. Houve aumento de 400% no antissemitismo nos últimos anos, algo perigoso. A intolerância não é boa para ninguém. Começa com os judeus, mas amanhã será com negros e homossexuais. O livro procura sensibilizar sobre isso.
Nome: Claudio Luiz Lottenberg
Aniversário: 6 de setembro
Onde nasceu: São Paulo
Onde mora: São Paulo
Formação: Medicina
Um lugar: Minha casa, em Miami, onde passo férias com minha família
Time do coração: São Paulo Futebol Clube
Alguém que admira: Shimon Peres, ex-presidente de Israel e Nobel da Paz em 1994
Um livro: Caim e Abel, de Jeffrey Archer
Uma música: Deixa a Vida Me Levar, de Zeca Pagodinho
Um filme: A Lista de Schindler (1993), de Steven Spielberg
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