Aniversário de Luiz Gonzaga DJs falam sobre respeito à tradição, garimpos de discos e função de questionar letras ultrapassadas
FOTO: Divulgação

Baião, xaxado, xote, arrasta-pé e piseiro. Sanfona, zabumba e triângulo. Tudo em um toca-discos ou em um sistema de controladores de som. Na data que marca o aniversário de 113 anos de Luiz Gonzaga e se comemora o Dia Nacional do Forró, membros de coletivos do Grande ABC, como Forró da Rapadura e Forró Pé de Calçada, relatam as trajetórias de criação e mostram como ajudam a resgatar e fortalecer essa cultura.
“A relação do forró com a região é muito forte. Temos uma grande concentração de nordestinos. As tradições estão presentes, seja com o forró e outros ritmos e danças do eixo Norte-Nordeste, como carimbó, frevo, maracatu. A criação do coletivo, que antes era o baile É Bunito Ver, foi um cruzamento entre pessoas que amam a cultura nacional”, diz o mestre em Educação Física e professor Khaled Wares, 37 anos, morador da Vila Pires, em Santo André.
Ele, Gabriel Lima (conhecido como Caranjamboh) e Jéssica Souza são DJs no Forró da Rapadura, grupo que se diferencia por usar apenas vinil. “Para nós, usar o toca-discos é um resgate histórico. Mantivemos o diálogo com o que foi construído anteriormente ao mesmo tempo que colocamos nossa identidade”, pontua.
Wares destaca que o contato com esse gênero musical é uma forma de aprender sobre a história do Brasil e repensar a sociedade. “Conversamos muito sobre o que vamos tocar e quais discos vamos garimpar nos sebos da região. Pensamos também em quais são os nossos filtros. Existem músicas com letras preconceituosas, que não fazem sentido estar nos nossos eventos. Temos refletido sobre o nosso papel ao fazermos parte dessa cultura”, explica.
PROTAGONISMO
Criado há 11 anos, o Pé de Calçada tem levado centenas de pessoas a eventos no Parque Celso Daniel, em Santo André, e no Parque Salvador Arena, em São Bernardo. “O pessoal não precisa mais ir à Capital para curtir um forró pé de serra (tradicional). A ideia surgiu a partir dessa demanda, de termos, naquela época, apenas a Icaraí (casa de eventos) com festas desse estilo”, pontua o DJ e fundador do coletivo, Tércio Emo Gomes, 42 anos, morador do Parque Novo Oratório, em Santo André.
Ele conta que o grupo começou de forma tímida, com pequenos eventos na região, e, agora, já tem o apoio das Prefeituras. “Servimos como uma espécie de laboratório e colocamos músicas de artistas que as pessoas já estão familiarizadas, como Lenine e Vanessa da Mata, e talvez nem saibam que eles têm forrós. Procuramos ser algo mais cultural do que mercadológico. Todas as agendas são gratuitas. O pessoal vai para o parque com toda a família. Eles dançam, as crianças brincam no playground, todo mundo tem opção. Mostramos como o Grande ABC tem potencial e já é muito bom.”
O Forró Pé de Calçada promove evento neste sábado (13), das 14h às 18h, no Parque Celso Daniel (Avenida Dom Pedro II, 940), com a banda Forrozada.
Santo André ganha visibilidade com programa de rádio ‘Coração do Norte’
O território andreense foi um dos pontos de referência para a disseminação do forró na região e no Estado. Na década de 1960, o músico Pedro Sertanejo, pioneiro do gênero em São Paulo, criou um programa de rádio chamado Coração do Norte, apresentado aos domingos, na Rádio Clube Santo André e, depois, na Rádio ABC. O projeto tinha parceria com os artistas Toninho, do trio Nordestino Paulista, e Francisco de Lima, o Azulão.
“O bairro Utinga, que era composto por muitos operários e nordestinos, foi um forte polo de forró nas décadas de 1960 e 1970. Tínhamos a Rádio ABC, com Pedro Sertanejo como locutor. Ele atraía nomes como Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Marinês, Marinalda, Dominguinhos e Trio Nordestino”, detalha o mestre em Educação Física e professor Khaled Wares.
O Grande ABC tem 16.927 migrantes do Nordeste, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Os principais Estados de origem são Bahia, com 5.922 pessoas; Pernambuco, 2.785; Ceará, 2.712; Piauí, 1.474; e Paraíba, 1.330.

Gabriel Lima, Jéssica Souza e Khaled Wares formam o coletivo Forró da Rapadura. Foto: Yris Froes/Divulgação
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