Sem luz Falta de água, prejuízos e dificuldades para cuidar de idosos e crianças são relatos de moradores no terceiro dia sem energia elétrica após a ventania; Enel diz trabalhar para restabelecer serviço
FOTO: Denis Maciel/DGABC

Sem energia elétrica há três dias, o pedreiro Anderson Braga Barbosa, 43 anos, tenta manter a rotina no terreno onde vive com outras três famílias, no bairro Baraldi, em São Bernardo. A principal preocupação é o pai, Sebastião Barbosa, 71, acamado há cerca de cinco anos após dois AVCs (acidentes vasculares cerebrais) e dependente de cuidados diários. Com a ausência de luz, a bomba do poço não funciona, e a água, essencial para a higiene e a alimentação, passou a ser retirada com baldes, apenas para o básico.
No local, vivem cerca de 16 pessoas, entre elas, crianças pequenas. À noite, a falta de iluminação deixa a área completamente no escuro, e dificulta ainda mais a rotina da família. Segundo o filho, o problema também compromete o acesso à comunicação e a possibilidade de socorro em caso de emergência. “Se alguém passar mal aqui, a gente não tem nem como ligar para pedir ajuda”, relatou.
A falta de luz também interfere diretamente na segurança e no conforto do pai do pedreiro dentro de casa.
Com mobilidade reduzida, ele depende de iluminação adequada para evitar quedas. À noite, a família busca não acender velas no interior do imóvel por receio de acidentes, o que obriga o filho e os demais moradores a realizar os cuidados quase no escuro.
A situação enfrentada pela família se repete em diferentes bairros do Grande ABC desde a passagem de um ciclone extratropical pelo Estado na quarta-feira (10). De acordo com Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), as rajadas de vento chegaram a 98 km/h e provocaram a queda de árvores e danos severos à rede elétrica.
NÚMEROS
Até as 20h de sexta-feira (12), milhares de moradores ainda estavam sem energia na região. Segundo dados da Enel Distribuição São Paulo, São Bernardo concentrava 43.396 imóveis impactados. Em Santo André, eram 16.085 clientes; em Diadema, 11.940; em São Caetano, 4.612; em Mauá, 2.566; em Ribeirão Pires, 2.204; e em Rio Grande da Serra, 425.
Na Rua Coronel Seabra, em Santo André, a assistente social aposentada Maria do Carmo Ribeiro, 71, afirmou que moradores de parte do quarteirão se encontravam havia cerca de 58 horas sem energia, enquanto vias próximas já estavam com o serviço restabelecido. Segundo ela, a interrupção ocorreu após a queda de uma árvore sobre uma residência e levou ao desligamento preventivo da rede elétrica.
A moradora contou que, mesmo após a retirada da árvore com apoio da Prefeitura, o trecho onde vive não teve a energia religada. “Vieram dois caminhões da Enel, ficaram o dia todo esperando a limpeza terminar e, quando religaram, nosso pedaço ficou de fora”, relatou. Maria disse já ter registrado ao menos cinco protocolos junto à concessionária, sem retorno sobre a situação.
Ela afirmou ter perdido alimentos armazenados no freezer e também o receio de que eletrodomésticos sejam danificados quando o fornecimento for retomado. Segundo a moradora, técnicos estiveram no local, mas não apresentaram explicações sobre o motivo de a rua continuar sem energia.
Na Estrada do Rio Acima, também em São Bernardo, a administradora Tatiana Bomfim, 47, relatou que as interrupções no fornecimento são frequentes, mesmo em dias sem chuva ou vento. De acordo com ela, desde a entrada da Enel, o bairro passou a registrar quedas constantes de energia. “Meu freezer já descongelou. Perdi toda a comida que iria até o Natal”, afirmou.
Tatiana destacou que a principal dificuldade enfrentada pelos moradores da região, neste terceiro dia sem fornecimento de energia, é a falta de água. A maioria das casas utiliza poços, que dependem da eletricidade para funcionar. “Tem gente sem água para beber ou cozinhar. Não é só banho, é sobrevivência”, disse.
Em nota lançada nesta sexta-feira, a Enel Distribuição São Paulo informou que já restabeleceu o fornecimento de energia para cerca de 1,8 milhão de clientes, dos 2,2 milhões afetados pelo ciclone extratropical em sua área de concessão.
A empresa afirmou ainda que, ao longo do dia seguinte ao evento, cerca de 500 mil novos chamados foram registrados em razão da continuidade dos ventos.
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