Violência contra a mulher Dados apontam que cinco dos 12 assassinatos envolvem facadas; neste fim de semana, em um intervalo de dez horas, houve mais dois casos
FOTO: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Dos 12 feminicídios registrados na região de janeiro a outubro deste ano, em cinco ocorrências as vítimas foram esfaqueadas com objeto cortante ou penetrante, ou seja, 41% do total. As demais mortes, segundo dados da SSP (Secretaria da Segurança Pública de São Paulo), foram três por disparo de arma de fogo, duas por enforcamento, estrangulamento e sufocamento, um por objeto contundente e um por força corporal.
Neste fim de semana, em um intervalo de dez horas, mais duas mulheres foram mortas a facadas na região, números ainda não contabilizados pela SSP nas estatísticas deste ano – a Pasta atualiza os indicadores apenas no final de cada mês. Os crimes ocorreram logo após o Diário destacar o recorde de feminicídios em 2025, mesmo considerando somente os dez primeiros meses do ano. Na comparação com 2015, quando o crime de feminicídio foi tipificado em lei federal, o crescimento é de 500%. Naquele período, a partir de abril, foram notificadas dois óbitos.
No sábado (6) à noite, às 22h15, João Victor de Lima Fernandes, 30 anos, matou a ex-companheira Milena de Silva Lima, 27, com golpes de faca no pescoço e tórax. O caso aconteceu em um apartamento no bairro Canhema, em Diadema, e foi registrado no 3° DP (Distrito Policial) do município. O homem tirou a própria vida na sequência.
No domingo (7), às 8h15, a farmacêutica Daniele Guedes Antunes, 38, foi esfaqueada pelo ex-marido, o mecânico Christian Antunes dos Santos, 38. A tragédia aconteceu no Jardim do Estádio, em Santo André.
De acordo com o boletim de ocorrência, o homem golpeou Daniele com diversas facadas por todo o corpo na frente da filha caçula do ex-casal, de apenas 11 anos. Eles ficaram juntos por duas décadas e tinham outro filho de 18 anos.
Outro caso de feminicídio em que a vítima foi esfaqueada aconteceu no sábado em Andradina, no interior do Estado. Fernanda de Oliveira Andrade, 25, foi assassinada com 54 facadas pelo companheiro Otávio Breno dos Santos Carvalho, 27. A vítima havia solicitado uma medida protetiva quatro dias antes do crime.
A advogada criminalista especializada em violência de gênero, Danildes Teixeira, destaca que a maior ocorrência de esfaqueamento se deve à facilidade à arma branca. “Todo mundo tem uma faca em casa, cenário da maioria dos crimes. Há um fácil acesso a ela na hora da briga. O homem quando tem o sentimento de posse o ódio é tamanho que ele quer deixar a marca dele”, afirma.
RECORDE
Os dados disponibilizados pela SSP contabilizam os casos somente até outubro. Embora todos os crimes de novembro e dezembro ainda não tenham sido divulgados pela SSP, quatro feminicídios se tornaram públicos nos últimos dez dias, contabilizando 16 ocorrências em 2025 na região. O número é três vezes superior ao total contabilizado nos 12 meses de 2024, quando foram notificados cinco feminicídios.
Além dos dois registros no último fim de semana, o Grande ABC teve pelo menos mais outros dois crimes. No dia 29 de novembro, Nayara Prudencio da Silva, 36, foi morta enforcada pelo companheiro Marcelo dos Santos Rodrigues, 34, em um hotel no Centro de Santo André, após uma discussão do casal.
No dia 2 de novembro, Rosimere de Deus, 34, foi assassinada a tiros no Jardim Adelina, em Mauá, supostamente pelo seu ex-marido, Demétrio Costa Neto, de idade não identificada. O caso está sendo apurado no 1° DP da cidade.
AGRESSÕES
De janeiro a novembro de 2025, o Disque 100, painel de denúncias do governo federal, registrou 766 violações de violência contra a mulher no Grande ABC, dentre elas 477 agressões físicas.
“O feminicídio é evolutivo. Ele não se inicia com a execução de uma mulher ou deformidade permanente. São sinais invisíveis, muitas vezes ignorado pela mulher e pela sociedade, que se choca quando a violência chega no ápice, mas acostumou a aceitar as micro agressões como a ameaça, o menosprezo e a perseguição”, ressalta a delegada e diretora da Associação dos Delegados de Polícia do Brasil, Raquel Gallinati.
A policial civil diz que há uma relutância, muitas vezes, da vítima aceitar que está passando por uma violência. “O caminho seria muito sociológico. É a sociedade parar de duvidar e julgar a mulher quando ela aponta os primeiros sinais”, enfatiza Raquel.
MANIFESTAÇÃO
No domingo, milhares de manifestantes tomaram as ruas das capitais em ato contra o fim da violência contra a mulher. A mobilização reuniu, somente na Avenida Paulista, na Capital, 9.200 pessoas.
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