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‘Brasília oficialmente Capital do Brasil’, traz o ‘News Seller’

Na edição semanal de 24 de abril de 1960, ‘Diário’ levou aos leitores do Grande ABC detalhes da inauguração do novo centro político do País

Bruno Coelho
28/11/2025 | 01:10
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Arquivo Público-DF
Arquivo Público-DF Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Em um domingo, mais precisamente 24 de abril de 1960, a edição 103 do News Seller, depois Diário do Grande ABC, descreveu mais um episódio histórico do Brasil: a inauguração de Brasília, cidade que se tornou, até os tempos atuais, o coração político do País. “Nesta altura dos acontecimentos, em diversos setores da vida brasileira, pode-se documentar a realidade destes últimos cinco anos de progresso. Brasília é a síntese de tudo isso, de todo o dinamismo, de todo ímpeto criador de nossa gente”, destacou a capa da edição semanal.

“Decretada a transferência da capital pelos constituintes de 1891 – Dados estatísticos da Novacap (Companhia Urbanizadora da Nova Capital) – Plano Piloto e as construções de destaques – palavras do presidente Juscelino Kubitschek”, estampou a reportagem na capa. O então presidente da República foi grande idealizador em transferir a Capital para o coração do Brasil. De 1956 a 1961, Brasília, enfim, começou a sair do papel e a ganhar contornos hoje conhecidos.

Os primeiros passos do News Seller, nascido em 1958, se misturam com os avanços das obras de Brasília, em uma era em que JK consolidava a economia industrial. Naquele mesmo ano, o Fusca foi lançado na fábrica da Volkswagen, em São Bernardo, com a presença do presidente. “Quando se veem os incontáveis automóveis, caminhões, jipes e outros veículos, saídos do parque industrial de São Paulo, a cruzar os caminhos brasileiros, compreende-se que sem nossa indústria automobilística, o milagre de Brasília seria impossível”, era descrita a capa daquele 24 de abril de 1960.

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Na página 5 daquela edição, a reportagem destacou características e dados sobre a nova Capital brasileira, como as temperaturas, de janeiro a junho, que costumavam chegar a 28,3ºC “acima do zero”. Outro trecho citava a população local, formada por “96.456 habitantes constituídos por médicos, engenheiros, professores, funcionários públicos, operários e pequenos comerciantes”.

“O custo de vida está caro, conforme dados que podemos fornecer: ovos, dúzia, Cr$ 80,00; batata, quilo Cr$ 28,00;; banana, dúzia Cr$ 15,00; maçã cada, Cr$ 15,00; pêra argentina, cada Cr$ 8,00; chuchu, quilo Cr$ 25,00; laranja, dúzia Cr$ 80,00; carne de vaca, quilo Cr$ 80,00; carne de porco, quilo Cr$ 120,00; carne de galinha, quilo, Cr$ 130,00; carne de cabrito, quilo, Cr$ 150,00; carne seca, quilo Cr$ 120,00; arroz, quilo 32,00; feijão, quilo Cr$ 65,00; banha, quilo, Cr$ 120,00; óleo comum, quilo Cr$ 130,00. Aluguel de apartamento varia entre Cr$ 7.000,00 e Cr$ 20.000,00”, mostrou a matéria. Na ocasião, a moeda oficial era o Cruzeiro, que tinha poder de compra maior do que o Real. Em conversão aos dias atuais, um Cr$ em 1960 corresponderia a R$ 3,65.

Editorial trata do impeachment de Osvaldo Gimenez, em Santo André

Naquela mesma edição, o News Seller saía da inauguração da nova Capital dos brasileiros para a fragilidade política do então prefeito de Santo André, Osvaldo Gimenez, eleito em 1959, empossado no ano seguinte, mas sem ter vida longa no comando da cidade. Antes do seu desfecho na administração, o editorial daquele 24 de abril de 1960 já tratava do processo de impeachment em curso no Legislativo.

“Inegavelmente, encontramo-nos às vésperas de importante acontecimento na vida política de Santo André. Enquanto que inúmeros assuntos, de real interesse para o povo, são deixados de lado, perde-se tempo precioso para tratar-se do propalado impeachment que se pretende aplicar contra o prefeito Osvaldo Gimenez”, afirmou o editorial.

Gimenez assumiu a Prefeitura de Santo André e, dias depois, a Câmara recebeu o requerimento solicitando seu impeachment devido a irregularidades administrativas. No texto, o News Seller ressaltou que “a responsabilidade da Câmara é das maiores, uma vez que deverá considerar uma série de argumentos contra o impedimento, inclusive, a defesa do chefe do Executivo, mesmo porque as denúncias foram feitas de modo apaixonado pelo denunciante, que sempre se mostrou contrário à pessoa do atual prefeito (e não a seus atos), mesmo antes ou durante a campanha eleitoral”.

“Quanto ao povo, este quer resolução para os seus problemas que não são poucos e não podem ser solucionados em clima de hostilidade. Câmara e prefeito devem olhar os interesses coletivos, acima de questões individuais”, finalizou o editorial. Em 1961, o Legislativo afastou Gimenez, sacramentando o seu impeachment no ano seguinte.

Vereador Lazari confirma tentativa de suborno durante discurso inflamado

Enquanto o Brasil celebrava a sua nova Capital, a política de Santo André pegava fogo. No dia 28 de agosto, o News Seller estampou na capa a seguinte manchete: ‘Em discurso inflamado, vereador confirma tentativa de suborno’, em um domingo longínquo de 24 de agosto de 1960. Em sessão ordinária, Edson Lazari, filiado ao antigo PSP (Partido Social Progressista), afirmou que foi procurado por um “elemento da Prefeitura, que lhe ofereceu 2 milhões de cruzeiros para abandonar a linha de oposição”.

O incidente deixou mais instável a relação entre o governo do ainda prefeito Osvaldo Gimenez e o Parlamento. Lazari disse abertamente que tentaram suborná-lo, sob promessas de milhões em dinheiro e apoio político para as próximas eleições. “Tim-tim por tim-tim, nosso noticiário do último domingo foi confirmado”, afirmou o jornal na sua edição impressa 121.

As falas de Lazari ecoaram em discursos de outros vereadores, que foram à tribuna, durante a explicação pessoal, para sem exceção criticar o Executivo, que meses depois teria o afastamento de Gimenez confirmado pelo próprio Legislativo.

Câmara são-caetanense prejudica povo

Desde o início de sua trajetória, o News Seller, que se tornaria o Diário do Grande ABC, exerce o seu papel de fiscalizar os trabalhos em prol da população. Em 1960, o jornal destacava que a Câmara de São Caetano, em 2 de setembro, aprovou verbas para aumento salarial a “operários da municipalidade”, construção de um cemitério e aquisições para educação e cultura. Mas negou recursos para compra de iluminação fluorescente nas ruas dos principais bairros e à saúde aos moradores da cidade.

De acordo com a edição 122, o Legislativo, composto por 21 vereadores na época, negou 300 mil cruzeiros para instalação de um posto de puericultura na Vila Julia (hoje na região do bairro Boa Vista); 1.500 cruzeiros para compra de remédios, internação de doentes e pagamento de salário família; 100 mil cruzeiros voltados ao serviço de limpeza urbana e 1 milhão para conservação de vias públicas.

“Deve-se dizer que alguns vereadores não podem negar o interesse em boicotar a atual administração, que agora chega ao fim. A par disto, os elementos da oposição, principais responsáveis pelo problema político que ora afeta SCS, alegam que não votaram tais verbas porque as mesmas foram solicitadas através de códigos no projeto apresentado pelo Executivo. Segundo eles, o Prefeito deveria ter mencionado diretamente o destino das verbas solicitadas, a fim de que as mesmas fossem aprovadas ou rejeitadas em bases plausíveis”, frisou o News Seller, que seguiu: “O importante de tudo isto é que o povo está perdendo”.

Vale destacar que o prefeito de São Caetano na época era Oswaldo Samuel Massei, do finado PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), que deixaria o comando da cidade em abril de 1961. Ele voltaria a ser prefeito da cidade em 1969, desta vez pelo MDB.




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