20.000 edições Em 1953, um dos fundadores rabiscou em um guardanapo o projeto do jornal, que viria se tornar realidade quatro anos depois
Arquivo DGABC

Há sonhos que atravessam anos. Assim nasceu o News Seller, um projeto que parecia pequeno demais para o tamanho da vontade de quatro jovens – Edson Danillo Dotto, Fausto Polesi, Angelo Puga e Maury de Campos Dotto –, o qual completa hoje 20.000 edições impressas, referência consolidada, como o Diário do Grande ABC.
Em 1953, Edson Danillo Dotto desenhou no guardanapo, em um bar, a primeira página de um jornal e que tinha até nome, News Seller, que demorou mais quatro anos para se concretizar.
A ideia do tabloide começou quase como uma casualidade: um convite aceito por acaso no ônibus, outro feito na calçada. De um encontro imprevisto brotou a decisão de lançar uma publicação quinzenal, modesta, de oito páginas, que circularia pela Zona Leste e bairros vizinhos. Não havia técnicos, jornalistas formados ou qualquer estrutura profissional.
Comerciante por comerciante, quarteirão por quarteirão, os jovens perceberam que havia espaço para que o jornal existisse.
O nome, News Seller, nasceu como ousadia: uma estratégia de impacto, inspirada pelos grandes periódicos da capital. A distribuição era gratuita, porém, artesanal. Os rapazes colocavam os exemplares em carriolas e percorriam as ruas no domingo pela manhã para fazer a entrega porta a porta. O entusiasmo inicial resistiu oito meses. O jornal não se pagava e teve de parar de circular.
Porém, sonho de verdade não termina, amadurece. No ano seguinte, o grupo retomou a ideia, maior e mais estruturada, decidido a transformar o jornal em publicação semanal. Os sócios, então, percorreram cidades que despontavam no mapa do desenvolvimento – Santos, Sorocaba, Campinas e Santo André – medindo as possibilidades.
Santo André se destacava, em pleno auge do chamado Triângulo das Indústrias, juntamente com São Bernardo e São Caetano. Multinacionais instalavam-se, fábricas multiplicavam empregos, e a cidade despontava entre as primeiras do País a experimentar o avanço tecnológico do telefone. O cenário fez de Santo André a escolha natural e definitiva.
Em 11 de maio de 1958 o projeto virou realidade e foi distribuído o primeiro exemplar do semanário News Seller, em formato standard e com tiragem de 15 mil exemplares.
Primeira edição é entregue em carrinhos
A empresa nasceu de forma modesta: Redação e administração dividiam a mesma sala, uma pequena sobreloja na Rua Coronel Oliveira Lima, em cima da Câmara. Sem gráfica própria, o material era impresso no Notícias Alemãs, na Avenida Liberdade, em São Paulo.
Sem dinheiro, mas movidos pela vontade de trabalhar, os quatro amigos anunciaram nas paredes do Centro a chegada do News Seller. A Sears, maior loja de departamentos da época, decidiu investir com anúncios de página inteira.
A primeira edição semanal circulou em 11 de maio de 1958, um domingo de Dia das Mães, estratégia pensada para reforçar o caráter familiar do jornal, que trazia apenas temas amenos. Para distribuir os exemplares, contrataram escoteiros, mas muitos faltaram e várias crianças não suportaram o peso dos pacotes. Determinados a não falhar logo na estreia – muito menos decepcionar a Sears – os sócios pegaram carrinhos e, a pé, percorreram os bairros de Santo André fazendo a entrega.
O esforço compensou. Mesmo com infraestrutura limitada, o jornal nunca deixou de circular e conquistou rapidamente o público, tornando-se um sucesso local, sem concorrentes diretos. O News Seller priorizava assuntos da comunidade, dicas femininas, administração do lar e artigos, quase sem política no início.
Aos poucos o jornal passou a integrar a vida da cidade: registrava movimentos populares, cobria com destaque o famoso Carnaval de rua e criou as provas da Lanterna e do Garçom, que aproximaram ainda mais os leitores, consolidando o News Seller como porta-voz da comunidade.
Com o crescimento, a empresa mudou-se para um salão maior na Rua Bernardino de Campos e, em 1960, os sócios adquiriram área de 800 m² na Rua Catequese, onde funciona até hoje a sede do Diário.
Palácio da Imprensa marca transição para o ‘Diário
O jornal viveu um período de forte crescimento impulsionado pelo departamento de vendas, que desde o início fechou contratos expressivos, atendendo grandes clientes como a norte-americana Sears, a Mesbla, a Eletroradiobras e a então iniciante Casas Bahia.
Em 1961, o jornal passou a circular também em Mauá e Ribeirão Pires, e foi nesse mesmo ano que a política regional ganhou mais espaço nas páginas do News Seller. Já em 1962, o periódico adotou uma postura mais combativa, marcada por denúncias e críticas às administrações públicas.
No ano seguinte teve início a construção da sede própria na Rua Catequese, batizada de Palácio da Imprensa. O prédio recebeu o maquinário de composição e impressão, incluindo a rotativa Walter Scott, de padrão germânico e sete colunas de texto. Enquanto isso, a Redação e a Administração funcionavam em uma pequena casa em frente da obra.
Em editorial publicado em 10 de março, o jornal convidou o público a conhecer suas futuras instalações: “As oficinas instaladas em prédio próprio, com seu completo conjunto de máquinas de compor e imprimir, estarão em breve expostas à visitação dos nossos leitores, para que vejam como se faz o News Seller”.
Mesmo sob a ditadura, o crescimento seguiu firme. No segundo semestre de 1965, a empresa adquiriu todo o parque gráfico do Jornal de Campinas, recém-fechado. Um ano depois, a antiga Walter Scott foi substituída pela rotativa MAM, que permitiu imprimir o jornal em formato padrão e com cores perfeitas.
Finalmente, em 11 de maio de 1968, dez anos após a primeira edição do News Seller, circulou a edição inaugural do Diário. O novo logotipo já estampava a capa, mas o nome News Seller permaneceu ali até janeiro de 1971.
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