Cooperação técnico-científica A parceria permitirá ao Butantan utilizar um equipamento recém-adquirido para aprofundar análises sobre o mero e outras espécies marinhas vulneráveis
FOTO: Divulgação | Aquário de São Paulo

Um passo decisivo para a conservação de uma das maiores espécies de peixes ósseos do planeta foi dado nesta segunda-feira (24), em São Paulo. O Projeto Meros do Brasil e o Instituto Butantan firmaram um termo de cooperação técnico-científica que inaugura uma nova fase de pesquisas sobre o mero (Epinephelus itajara), peixe que pode ultrapassar 400 quilos e está criticamente ameaçado de extinção.
A parceria permitirá ao Butantan utilizar um equipamento recém-adquirido para aprofundar análises sobre o mero e outras espécies marinhas vulneráveis. A cerimônia ocorreu no Aquário de São Paulo, único do mundo a manter um harém de meros e parceiro de longa data do projeto nos estudos de reprodução da espécie.
Com o novo método, os pesquisadores poderão analisar hormônios reprodutivos a partir do muco – e não mais do sangue dos peixes. A técnica reduz drasticamente o manejo dos animais e torna o processo menos invasivo.
“Hoje, para avaliar hormônios, precisamos conter o peixe, sedá-lo e coletar sangue. Com a identificação desses hormônios no muco, ganhamos em bem-estar animal e segurança para a equipe”, explica Eduardo Sanches, coordenador do Projeto Meros em São Paulo.
O muco — coletado por meio de uma raspagem simples na pele do peixe — traz informações sobre saúde, estresse, período reprodutivo e até o sexo do animal. Para Leonardo Bueno, coordenador de Integração de Pesquisa do projeto, entender esses padrões em ambiente controlado é essencial: “Isso nos permite correlacionar o comportamento dos meros no aquário com o que acontece na natureza e subsidiar melhores estratégias de manejo”.
O acordo prevê a análise de amostras coletadas nos nove estados onde o Projeto Meros atua, com patrocínio da Petrobras via Programa Petrobras Socioambiental. O objetivo é ampliar o banco de dados científicos e fortalecer ações de conservação em todo o litoral brasileiro.
Segundo Daniel Carvalho Pimenta, responsável pela coordenação científica do novo centro no Butantan, a tecnologia também abrirá portas para estudos avançados:
“O projeto permitirá monitorar contaminantes invisíveis, avaliar estresse crônico e até identificar possíveis compostos com valor biomédico no muco desses animais. É ciência de fronteira a serviço da preservação.”
Para o Aquário de São Paulo, a chegada do Instituto Butantan à pesquisa marca um salto importante. “Temos trabalhado juntos há anos na conservação dos meros. Agora, com a expertise do Butantan, ampliamos nossa capacidade de entender a espécie e criar condições melhores para sua reprodução em cativeiro”, afirma Laura Reisfeld, veterinária-chefe do aquário.
Criado em 2002 após denúncias de mergulhadores e pescadores sobre o desaparecimento da espécie, o Projeto Meros do Brasil atua em educação ambiental, pesquisa e engajamento comunitário nos estados do Pará, Pernambuco, Alagoas, Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Santa Catarina.
O mero, que pode chegar a 2,5 metros de comprimento, habita águas tropicais e subtropicais do Atlântico. Está protegido por lei desde 2002, quando sua captura passou a ser proibida pela Portaria MMA nº 148, após forte declínio populacional.
Agora, com a união entre Butantan, Projeto Meros e Aquário de São Paulo, pesquisadores acreditam que a ciência ganhará um importante aliado na luta para impedir que esse gigante dos mares desapareça das costas brasileiras.
Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.