Notificações Medicamentos e drogas ilícitas são as ocorrências mais frequentes, afirma professora de toxicologia; notificações reduziram 16,4% em um ano
FOTO: Celso Luiz/DGABC

No Grande ABC, um caso de intoxicação exógena é registrado a cada duas horas. No total, os sete municípios contabilizaram no primeiro semestre do ano 1.766 ocorrências, média de dez registros por mês. Apesar de altas, as notificações na região reduziram 16,4% em um ano, sendo que no período de janeiro a junho de 2024 foram contabilizados 2.114 casos. Os dados são do DataSUS (Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde). (Veja números por município na tabela)
Janeiro permaneceu como o mês mais crítico, tanto em 2024 quanto em 2025. Neste ano, foram 453 casos, mais que o dobro do volume registrado em junho, mês com menor índice do semestre (184). A tendência, segundo a professora de toxicologia do Centro Universitário FMABC (Faculdade de Medicina do ABC), Marcela Gonçalves, está relacionada às férias escolares e ao aumento do consumo de substâncias por jovens em bares e festas.
Marcela, doutora em Ciências Médicas, explica que intoxicações exógenas acontecem quando há exposição a substâncias tóxicas, principalmente por via oral, respiratória ou pela pele. Medicamentos, drogas ilícitas e produtos de limpeza seguem como principais causadores, além do chumbinho, vendido ilegalmente como falso veneno para roedores e ainda comum entre os atendimentos hospitalares. A especialista também destaca o impacto dos acidentes com animais peçonhentos, principalmente escorpiões, que costumam aumentar durante o verão.
Os sintomas variam conforme o agente envolvido. Ocorrências de ingestão de chumbinho podem provocar diarreia e incontinência; já substâncias como a cocaína desencadeiam hiperexcitabilidade central (aumento da atividade de regiões corticais do cérebro, com uma resposta exagerada a estímulos sensoriais), elevação da frequência cardíaca e da pressão arterial.
“Ainda que no caso de suspeitas de intoxicações, a melhor medida é encaminhar o paciente o mais rápido possível a um pronto atendimento hospitalar, já que quanto mais rápido for o tratamento toxicológico, melhor para o paciente. Certas medidas de tratamento podem impedir que os sinais e sintomas da intoxicação se manifestem com maior intensidade”, alerta a docente.
Entre os grupos mais vulneráveis, a atenção deve ser redobrada. “Para crianças, o ideal é manter agentes de limpeza e medicamentos fora do alcance. No caso de idosos, erros na ingestão de remédios são frequentes e exigem supervisão”, orienta Marcela.
A biomédica Laís Cerqueira, 29 anos, moradora de São Bernardo, viveu uma intoxicação grave aos seis anos, em 2002, após ingerir cerca de 30 comprimidos controlados sem entender o risco. “Minha mãe me chamava, eu ouvia, mas não conseguia acordar”, lembra.
Na noite do acidente, Laís não conseguia dormir e lembrou da rotina da mãe, que quando estava muito cansada, tomava o remédio e rapidamente adormecia. A criança foi até a cozinha e pegou o frasco que continha comprimidos e no momento em que ia voltar para o quarto, ouviu a mãe chamá-la. Assustada, derrubou o recipiente, viu os comprimidos caírem na pia, e decidiu engolir todas as pílulas por medo da reação dos pais.
Horas depois, ao tentar acordar a filha para ir à escola, a mãe percebeu algo errado. Laís não respondia aos chamados. A criança chegou ao hospital em estado crítico, passou por lavagem gástrica e permaneceu internada por uma semana para avaliar possíveis danos renais e hepáticos. Apesar do quadro crítico, ela se recuperou sem sequelas.
Além das intoxicações já comuns na rotina hospitalar, a região voltou a acender o sinal de alerta neste ano devido a uma série de casos de bebidas intoxicadas com metanol. Os primeiros casos foram registrados na Capital e em São Bernardo.
De acordo com última atualização do Ministério da Saúde, divulgada na quarta-feira (19), São Bernardo confirmou nove casos, incluindo um óbito, seguido de Santo André (dois) e São Caetano (um). No total, o Estado de São Paulo tem 48 confirmações e o Brasil 62.
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