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Novos caminhos: mulheres negras se redefinem para além de estereótipos

Personagens da região expõem como consciência racial ajuda sustentar a própria personalidade

Beatriz Mirelle
19/11/2025 | 09:19
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FOTO: Claudinei Plaza/DGABC
FOTO: Claudinei Plaza/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Mulheres negras no Brasil são profundamente afetadas por violências estruturais que as colocam entre as populações mais vulneráveis. Elas enfrentam não apenas discriminação racial e de gênero, mas também uma realidade de marginalização. Ao mesmo tempo, resistem e constroem alternativas de afirmação de identidade e de fortalecimento coletivo.

A professora de ensino de história e cultura africana e afro-brasileira na UFABC (Universidade Federal do ABC), Carolina Bezerra Machado, diz que os dados sobre a população negra são alarmantes e escancaram desigualdades. “Ainda observamos a presença dessas mulheres em condições de subalternidade e, principalmente no mercado de trabalho, em posições muito inferiores na comparação com os brancos”, pontua. 

A docente reforça que as mulheres negras enfrentam diversos estereótipos. “Quando falam de maneira firme, são chamadas de agressivas; quando mostram autoconfiança, são consideradas arrogantes. Há uma ideia de que elas sempre precisam estar em condição de servidão ou disponíveis para cuidar do outro. O cabelo crespo também é alvo constante de ataques, que influenciam a maneira como elas se veem no espelho”, complementa Carolina. 

DGABC

Os indicadores, de diferentes áreas da sociedade, reforçam esse cenário. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024 revelou que mulheres negras representavam 63,6% das vítimas de feminicídio no País, enquanto mulheres brancas eram 35,7%

Dados da FGV (Fundação Getulio Vargas) mostram que, no Brasil, o número de mães negras solo corresponde a 61% do total (6,9 milhões de 11,3 milhões de mulheres) em 2022. Mulheres negras ganham R$ 2.864,39, enquanto o salário de homens não negros fica em R$ 6.033,15 (47,5% do valor deles), como indica o Relatório Anual de Informações Sociais do Governo Federal de 2024.

“A nossa sociedade foi forjada na lógica da democracia racial, de que a mestiçagem foi feita de uma forma harmônica, sem considerar a violência que originou o Brasil. Por vezes, isso impede que foquemos em políticas públicas para grupos historicamente marginalizados”, analisa a docente da UFABC.

CONSTRUÇÃO

Construir a própria identidade para além das marcas do racismo e do machismo é uma tarefa continuamente desafiadora para esse grupo. Enquanto estatísticas revelam cenários de marginalização, personalidades da região contrariam estereótipos e criam novas pontes de afeto e referências de estilo, beleza e coletividade.

Em uma família formada majoritariamente por mulheres negras, o letramento racial da empreendedora Adriana da Silva, 50 anos, moradora da Vila Guarani, em Santo André, chegou a partir do apoio da filha, a auxiliar de biblioteca Isadora Viana, 28, da Vila Humaitá. 

“Foi ela quem me ensinou o que sei sobre os impactos do racismo e do machismo. A partir disso, comecei a questionar os lugares que determinam para mulheres negras e o porquê não me sentia tão bem com o meu cabelo, mesmo sem nunca ter alisado. Ter ganhado essa consciência foi essencial para olhar para minha autoestima de uma forma diferente e saber o que eu não aceito mais”, destaca Adriana. 

Para Isadora, a reconexão com a ancestralidade foi a estratégia para construir e entender a própria personalidade. “Percebi que meu ciclo social era muito branco. Quando fiz minha transição capilar, comecei a ter mais consciência dessas desigualdades. Debato muito sobre questões raciais, mas não quero falar apenas sobre racismo.” 

A auxiliar de biblioteca reforça ainda que é possível mostrar a negritude de diferentes formas. “A partir da troca de saberes, do orgulho, do afeto entre nossos pares. Tudo isso ficou ainda mais latente quando comecei a me expressar esteticamente com mais liberdade ao fazer meus artesanatos e adornos. Crio meus brincos, meus acessórios de cabelo. Amo fazer trança. São coisas que reforçam quem eu realmente sou e quais são as minhas referências”, detalha Isadora.

‘Coletivos são herança ancestral’

Uma das organizadoras do coletivo e clube de leitura andreense Acolhe Afro, a auxiliar de biblioteca Isadora Viana, 28, destaca o papel do aquilombamento da população preta, principalmente das mulheres, de promover um espaço seguro para desenvolver a consciência racial e fortalecer as conexões entre pessoas negras.

“O grupo surgiu de uma necessidade minha e de uma amiga de estarmos com pessoas iguais a nós. Sentíamos falta de lugares no Grande ABC em que negros pudessem se encontrar e falar sobre temas para além das violências raciais. Existem vivências que apenas uma outra pessoa preta vai entender”, comenta Isadora. 

“Os coletivos resgatam uma herança ancestral a partir do fortalecimento dos integrantes. Os povos africanos têm esse histórico de priorizar a coletividade, de estarem em agrupamentos”, detalha a professora de ensino de história e cultura africana e afro-brasileira na UFABC (Universidade Federal do ABC) Carolina Bezerra Machado. 

Para as próximas gerações, Isadora almeja que meninas negras possam se sentir confiantes com a própria pele, cabelo e jeito. “Desejo que a gente seja livre de verdade. Não essa falsa liberdade. Mulheres pretas precisam estar em alerta o tempo inteiro porque as violências nos perseguem diariamente. Não acredito que vamos nos livrar do racismo, mas quero que possamos sair na rua sem nos preocupar se vamos conseguir voltar para casa.”

O próximo encontro do coletivo Acolhe Afro será o Acolhe Connect, baile black realizado no bar Dumingaz, na Rua Gertrudes de Lima, 406, em Santo André, no dia 13 de dezembro, das 18h às 23h.

RAÍZES E RESISTÊNCIA

Nesta quinta-feira (20), o Diário pública a última das quatro reportagens da série em celebração ao Dia da Consciência Negra.




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