Setecidades Titulo Raízes e resistência

Racismo estrutural faz de tudo para que os negros não cheguem ao poder, diz docente

Professor da UFABC explica como a barreira da cor impede ascensão pessoal; só 36% dos 145 vereadores da região são pretos ou pardos

17/11/2025 | 08:39
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FOTO: Celso Luiz/DGABC
FOTO: Celso Luiz/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Na concepção de especialistas, o racismo estrutural nasce da própria organização social, que privilegia determinados grupos raciais em detrimento de outros. O professor da UFABC (Universidade Federal do ABC) e coordenador do Núcleo de Estudos Africanos e Afro-Brasileiros, Acácio Santos, explica que o fenômeno é determinante na formação das relações de um indivíduo, influenciando desde o acesso a serviços básicos até a própria expectativa de vida.

Para o docente, o conceito força a sociedade a acreditar que pessoas negras não possuem capacidade. “Ele estrutura as relações sociais, econômicas e políticas do início ao fim da vida. Então, vai ser determinante, por exemplo, na esperança da vida, no acesso à justiça e à saúde, fazendo com que pessoas vivam mais do que outras dependendo da raça”, afirmou Santos.

Uma forma de exemplificar essa barreira presente no cotidiano de milhares de brasileiros, segundo o especialista, é observar que há poucas pessoas negras em cargos de liderança e que, muitas vezes, são as únicas ou primeiras da história a ocuparem essas posições.

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“Criou-se a coisa do negro único, um só já é o suficiente. A questão do racismo estrutural é bem perversa, porque mascara que a situação é coletiva. Fui a primeira pessoa da minha família a fazer um curso universitário e isso não é motivo de orgulho, visto que, mesmo após 30 anos, ainda há pessoas se considerando as primeiras da linha. As políticas públicas não têm dado resultado”, afirmou o professor.

No Grande ABC, há reflexos dessa realidade. Nos 14 cargos de prefeito ou vice-prefeito há apenas duas pessoas negras, sendo eles o vice-prefeito de Mauá, Juiz João (PSD), e a vice-prefeita de Rio Grande da Serra, Vilma Marcelino (PSDB). 

Para Vilma, apesar da evolução, ainda há muito a ser feito para se atingir a paridade. “Sempre tivemos que fazer esforço em dobro para o racismo estrutural ser apagado. A sociedade não está acostumada às pessoas pretas em lugar de ascensão. Na própria organização política, sabemos que, até na questão de verba, nossa raça recebe valores menores.”

Ainda de acordo com ela, seu mandato carrega muita representatividade e serve como inspiração. “Vejo com grande responsabilidade para todo o Grande ABC. Preciso dizer para uma jovem ou mulher negra que é possível alcançar seus objetivos. Tenho procurado desenvolver e não ficar só na expectativa”, completou Vilma, adiantando que Rio Grande da Serra protocolou um termo de intenção para o Ministério Público para se tornar cidade antirracista.

CÂMARAS MUNICIPAIS

No Grande ABC, 36% dos vereadores em exercício se autodeclaram pretos ou pardos, o que corresponde a 53 parlamentares nas Câmaras Municipais. A representação de pessoas negras, porém, é de apenas 9%, totalizando 14 vereadores. Os dados têm como base as fichas de candidatura das eleições de 2024, registradas no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), onde cada candidato informa sua cor ou raça.

Dos 145 vereadores da região, 85 são brancos, um total de 58%. Outros sete não informaram. Recentemente, a Câmara de São Bernardo teve uma presidência histórica. A vereadora Ana Nice (PT) foi a primeira mulher negra, mesmo que por curto período, 84 dias, a assumir o principal posto da Casa.

Para ela, o racismo estrutural normaliza a violência e a falta de oportunidades. “A desigualdade econômica é terrível. O racismo estrutural acaba conduzindo todas as mazelas que nosso País tem com o povo preto. Somos mais de 50% da população brasileira, mas isso não reflete em cargos de poder, representado, na maioria, por homens brancos”, disse a parlamentar.

‘Abri a porta e perguntaram: a patroa está?’

Foi em 2023 que o comando da Refinaria de Capuava, no Polo Petroquímico de Mauá, passou de ser apenas uma gestão para se tornar história. A engenheira química, Márcia Cristina Alves, 52 anos, assumiu o posto de gerente-geral, sendo a primeira mulher negra após 68 anos de funcionamento do complexo.

Nascida em Volta Redonda, no Rio de Janeiro, e formada pela UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro), Márcia está na Petrobras desde 2006. 

Mesmo com tamanha representatividade, a gestora comentou que o racismo estrutural está presente no seu dia a dia. “É uma realidade. O senso comum atribui ao negro um lugar determinado, que normalmente não é de liderança. Gosto de ilustrar como essa mentalidade está atrelada à nossa sociedade com a situação que passei. Tocou a campainha lá de casa, atendi a porta e fui questionada: a patroa está?”, relatou a engenheira.

O professor da UFABC (Universidade Federal do ABC) e coordenador do Núcleo de Estudos Africanos e Afro-Brasileiros, Acácio Santos, explicou que situações como essa descrita por Márcia são um dos exemplos do conceito de racismo estrutural. “A sociedade tem que mudar a visão de que negros só servem para limpar aquilo que os outros sujam ou servir o próximo”, disse.

Para ele, o aumento de pessoas negras em filmes e programas de TV é um passo para que se alcance a equidade racial. “Quando Barack Obama foi presidente dos Estados Unidos, tornou-se um exemplo para todas as crianças do mundo. Mas a representação não pode se limitar a uma única pessoa. Esse é o problema”, completou.

Márcia relatou que sua representatividade é vista quando há reunião em um projeto social, causando impacto nos jovens quando ela é apresentada como gerente-geral. Segundo diz ser a porta-voz reforça que o lugar pode ser deles também.

“O sentimento de ser pioneira é ambíguo. Por um lado, me dá honra saber que sou a primeira e que tive o privilégio de abrir o caminho para que outras possam suceder. Por outro, fico me perguntando por que somente após 68 anos?”, reforçou a engenheira.

A Petrobras tem feito algumas ações de diversidade e equidade, conforme informou a empresa. Uma das metas do Plano de Negócios é alcançar 25% de pessoas negras em cargos de liderança até 2029, sendo que a Refinaria de Capuava já alcançou esse índice neste ano.

Para completar, Márcia afirmou que seu legado vai muito além de ser a primeira da história. “Não se restringe à questão da representatividade, mas também às conquistas que a refinaria alcançou. Em 2024, realizamos a primeira parada programada intermediária com sucesso. Em outubro deste ano, atingimos dois recordes históricos: carga diária na destilação e carga mensal processada”, celebrou a gerente-geral.

RAÍZES E RESISTÊNCIA

Essa é a primeira reportagem da série em celebração ao Dia da Consciência Negra, celebrado na quinta-feira.




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