Herança Tradicional festa oferecida por três décadas em todo dia 25 de dezembro foi interrompida após a Covid-19 e a morte da matriarca Dona Cotinha
Celso Luiz/DGABC

Durante três décadas, a família Lemes transformou a dor de quem passava fome em mesa farta para milhares de pessoas em situação de vulnerabilidade nos dias de Natal no Parque São Bernardo, na cidade que dá nome ao bairro. Porém, a chegada da pandemia da Covid-19 paralisou a festa comunitária, que teve a retomada adiada com a morte da matriarca Maria do Carmo Ribeiro Lemes, conhecida como Dona Cotinha, em 2021, aos 93 anos.
A criadora da ação partiu, mas deixou dezenas de descendentes para dar continuidade a seu legado de solidariedade. Seu filho, Benedito da Silva Lemes, 73, o Ditinho da Congada, diz que este ano o almoço, que o Diário publicou em suas páginas por tantos anos, será retomado. Ele destaca que o retorno está sendo mais difícil que o início, mas que sua motivação é não deixar a tradição morrer e incentivar as próximas gerações a continuar.
“São 40 membros da família Lemes envolvidos, cada um com seu dom, um cozinha, outro atende. Algumas pessoas dizem que poderíamos estar viajando, mas nosso jeito de curtir o Natal é assim, podendo compartilhar o que temos com quem não tem.”
Ditinho lembra que, quando tinha por volta de 16 anos, uma cena o marcou e determinou sua trajetória. “Fui almoçar na casa de uns amigos no Natal daquele ano e, quando colocaram comida no meu prato, comecei a chorar. Me perguntaram por que estava chorando e disse que, enquanto comia, minha família não tinha o que comer”, relata.
A família que o recebeu entregou alimento para ele levar para casa e todos puderam ter uma refeição naquele Natal. “Ficávamos todo ano sentindo o cheiro da ceia dos vizinhos, mas não tínhamos nada no nosso prato”, conta sua irmã Maria de Fátima Lemes, 71. “Meu pai me disse para manter a fé e que um dia teria tanto que poderia doar a quem precisasse”, afirma Ditinho.
O mineiro, que desde jovem reside em São Bernardo, é representante na cidade do movimento cultural e religioso trazido do Congo, na África. Ele destaca que neste ano a expectativa é oferecer 1.500 refeições e distribuir 700 presentes. “Chegamos a fazer para 5.000 pessoas, mas para atingir novamente essa marca precisamos criar novas parcerias”, ressalta.
Os alimentos e brinquedos para as crianças são entregues na Rua Paula Souza, número 39, no Parque São Bernardo, onde diariamente os Lemes recebem não apenas quem pode doar, mas, principalmente, quem precisa de ajuda. Dezenas de pessoas buscam auxílio, seja material, por meio da entrega de cestas básicas, ou espiritual. Uma das filhas de Dona Cotinha, Ana Maria Lemes, 70, seguiu os passos da mãe e é a benzedeira da família em um ritual que atrai muitas pessoas, que formam longas filas em frente à casa.A escola municipal que será cedida para o almoço de Natal deste ano ainda não foi definida, mas o cardápio segue a tradição: arroz, feijão, macarrão e frango. De sobremesa, arroz-doce. A comida é preparada em grandes panelas no fogão a lenha por Maria de Fátima, que começa a cozinhar na noite do dia 24 e permanece durante a madrugada para garantir que as refeições sejam servidas a partir das 11h.
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