Segundo Ministério da Saúde Foram 519 notificações de janeiro a agosto deste ano contra 437 em 2024; alterações genéticas do embrião é a principal causa
Vanessa Guelli perdeu seu bebê em 2017 mas teve uma nova chance | Foto: Denis Maciel/DGABC

O Grande ABC contabilizou 519 abortos espontâneos de janeiro a agosto, uma média de 65 por mês, de acordo com dados do DataSUS, plataforma do Ministério da Saúde. No ano passado, foram 437 casos no mesmo período, crescimento de 19%.
Este foi o maior registro desde 2019, quando foram contabilizadas 615 notificações. A interrupção da gestação é considerada um aborto espontâneo somente até 22 semanas. A partir disso, a perda é menos recorrente e computada como morte fetal. Nos oito primeiros meses deste ano, a região registrou 18 óbitos e no mesmo período de 2024 foram 30 mortes.
De acordo com a ginecologista e obstetra Larissa Pires, a maioria das perdas ocorre devido a alterações genéticas do embrião. O segundo motivo mais recorrente são problemas hormonais, seguido de malformações uterinas, infecções, doenças autoimunes e trombofilias hereditárias ou adquiridas.
“A natureza é extremamente seletiva. Muitas perdas acontecem porque aquele embrião, apesar de desejado, não estava saudável. É difícil de ouvir, mas é também uma forma do corpo proteger a mulher”, justifica a médica, que atua nos hospitais Pro Matre e Santa Joana e na clínica Ideia Fértil, em Santo André.
O corpo se recupera fisicamente em alguns dias, em média, o útero volta ao tamanho normal de duas a quatro semanas e a menstruação retorna entre quatro e seis. Entretanto, a recuperação emocional não segue calendário. “É um luto que dói de forma visceral. É a perda de um bebê imaginado, de um futuro projetado, de uma identidade materna que estava se formando”, destaca Larissa.
RECOMEÇO
A dona de casa de Diadema Vanessa Guelli, 42 anos, teve uma gestação interrompida em setembro de 2017. “Quando estava com seis semanas de gestação, tive pequenos sangramentos e fui ao hospital. No exame transvaginal, não encontraram os batimentos do bebê. A médica, de forma bastante fria, explicou que poderia ser cedo demais para identificá-los ou que eu já poderia ter sofrido um aborto. Eu e meu marido nos agarramos à primeira possibilidade, mas alguns dias depois o aborto foi confirmado. Perdi o chão.”
Felizmente, dois anos depois, em setembro de 2019, Vanessa deu à luz a duas bebês. “Esperei um ano para tentar novamente e em janeiro engravidei das meninas. Tive sangramento também com seis semanas e fui desesperada ao hospital, quando recebi a grande notícia de que eram gêmeos. Caí em prantos, mas dessa vez de felicidade. Achei que tinha perdido um e estava esperando dois. Elas são o meu milagre”, conta a mãe.
A médica Larissa Pires explica que a partir de dois meses a mulher já pode tentar uma nova gestação e que um aborto não determina insucesso em futuras gestações. “O risco só aumenta quando há dois ou mais abortos consecutivos, situação que chamamos de aborto recorrente e que merece investigação mais detalhada.”
Logo após o aborto espontâneo, podem ficar restos embrionários ou placentários no útero da mulher, os quais o corpo pode expelir ou reter. Quando há tecido em quantidade maior, o ideal é retirar, geralmente por curetagem ou por métodos mais modernos de aspiração, a fim de evitar infecções e preservar a saúde reprodutiva da mulher.

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