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Feminicídio revela fracasso coletivo

15/11/2025 | 09:20
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 Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


O feminicídio é uma das expressões mais brutais das desigualdades de gênero que atravessam a sociedade brasileira. Mais do que um problema de segurança pública, ele reflete uma estrutura social que ainda legitima o controle e a violência sobre o corpo e a vida das mulheres. A cada novo caso, o país expõe não apenas a falha de seus mecanismos de proteção, mas também a persistência de valores que sustentam o machismo e a desumanização feminina. A violência de gênero, portanto, não nasce do acaso, ela é resultado de uma cultura construída ao longo de gerações, em que o poder masculino foi naturalizado e a autonomia feminina, frequentemente negada.

A explicação para essa realidade não está restrita à criminalidade, mas às estruturas culturais e sociais que sustentam o comportamento violento. A grande causa da violência contra a mulher é o machismo estruturante da sociedade brasileira, que se manifesta de forma sutil no cotidiano. Práticas aparentemente inofensivas, como o ciúme justificado, a desvalorização da autonomia feminina ou a naturalização da sobrecarga doméstica, alimentam uma cultura de desigualdade e controle. O machismo cotidiano serve como base simbólica para a violência extrema.

Quando a sociedade tolera piadas sexistas, culpabiliza vítimas ou relativiza comportamentos abusivos, reforça a ideia de que o corpo e a vida das mulheres estão à disposição de um poder masculino. Esse ambiente cria as condições psicológicas e culturais para o agressor agir, sentindo-se amparado por uma lógica que o absolve e por uma comunidade que silencia. É nesse ponto que o feminicídio deixa de ser um ato isolado e passa a representar o ápice de uma cadeia de violências normalizadas.

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Interromper esse ciclo exige encarar o feminicídio como um problema social e não apenas criminal. Medidas punitivas são necessárias, mas insuficientes se não houver transformação cultural. É fundamental investir em educação de gênero desde a infância, em políticas de prevenção e em redes de proteção que funcionem de forma articulada entre saúde, segurança pública e assistência social. A formação de meninos e meninas deve incluir o aprendizado sobre respeito, empatia e igualdade como pilares da convivência humana, para que as futuras gerações não repitam os padrões que hoje ceifam vidas.

Portanto, os números alarmantes do feminicídio não são uma fatalidade, mas o reflexo direto da cultura que construímos e perpetuamos. Reduzi-los depende de uma coragem coletiva e política capaz de enfrentar as raízes do problema e de sustentar mudanças duradouras. O Brasil precisa substituir a lógica da dominação pela da convivência, do controle pela empatia e do poder pela parceria. A transformação que buscamos não virá apenas de leis mais severas, mas do reconhecimento de que cada gesto, palavra e escolha social contribui para moldar o tipo de país em que vivemos. Enfrentar o feminicídio, portanto, é decidir que tipo de humanidade queremos preservar, e que vidas estamos dispostos a proteger.

Nicollas Rosa de Souza é psicólogo e fundador e coordenador da Brapsi, startup de psicologia voltada à inovação e à pesquisa em saúde mental.




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