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FOTO: DGABC

A realização da COP30 em Belém coloca as alterações climáticas no centro das atenções. O aquecimento global, impulsionado pelas emissões de gases de efeito estufa, vem alterando o equilíbrio térmico do planeta, resultando em maior frequência e intensidade de ondas de calor e frio intenso. Esses eventos climáticos extremos, antes esporádicos, tornaram-se recorrentes e estão hoje associados a expressivo aumento da morbimortalidade cardiovascular.
As DCVs (Doenças Cardiovasculares) são a principal causa de morte no mundo, o clima, tradicionalmente considerado fator ambiental secundário, hoje é reconhecido como determinante social e biológico da saúde cardiovascular. Durante ondas de calor, ocorre vasodilatação periférica e sudorese intensa, o que pode causar desidratação, hipotensão e desequilíbrio eletrolítico. Esses mecanismos reduzem o volume circulante e aumentam a viscosidade sanguínea, favorecendo eventos trombóticos.
Em idosos e pacientes com insuficiência cardíaca, o esforço de adaptação térmica sobrecarrega o miocárdio, podendo precipitar isquemia, arritmias e insuficiência cardíaca aguda.
O frio provoca vasoconstrição, aumento da pressão arterial e liberação de catecolaminas, elevando o consumo de oxigênio pelo miocárdio. Tais alterações podem desencadear infarto agudo do miocárdio e AVC (Acidente Vascular Cerebral) isquêmico, especialmente em pessoas com aterosclerose pré-existente. O frio também aumenta a viscosidade sanguínea e a coagulação, contribuindo para fenômenos tromboembólicos.
Os efeitos das mudanças térmicas não atingem todas as populações de forma igual. Idosos, pessoas com doenças crônicas, moradores de áreas urbanas densamente construídas e comunidades em vulnerabilidade socioeconômica estão mais expostos e menos capazes de se adaptar. A falta de acesso a climatização, saneamento, moradia adequada e serviços de saúde agrava os impactos cardiovasculares dos extremos climáticos, especialmente em países tropicais como o Brasil. A integração entre meio ambiente, clima e saúde pública é indispensável para enfrentar o aumento das doenças relacionadas às alterações térmicas.
Desse modo, a crescente evidência científica impõe a necessidade de incorporar o clima como variável fundamental nas políticas de saúde e de mitigação ambiental. O enfrentamento desse problema exige ação intersetorial, que una ciência, política e educação em prol da proteção da vida humana em um planeta em transformação.
Antonio Carlos Palandri Chagas é médico e professor titular de Cardiologia do Centro Universitário FMABC (Faculdade de Medicina do ABC).
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