Artigo Li neste domingo neste Diário artigo do brilhante Paulo Serra, ao qual ouso tecer alguns comentários. Nova York viveu, de fato, um momento histórico. A eleição de Zohran Mamdani, primeiro prefeito muçulmano e imigrante da cidade, marca um ponto de inflexão no cenário político mundial. Mas, ao contrário do que sustenta o ex-prefeito, essa vitória não representa a superação das ideologias pela boa gestão. Representa, isso sim, a força renovada da política como instrumento de disputa de visões de mundo.
Mandami não chegou à prefeitura vendendo um manual de eficiência pública. Ele chegou proclamando uma causa. Falou da desigualdade, custo de vida, habitação, transporte gratuito e taxação dos milionários, sempre a partir de uma narrativa de enfrentamento. Seu discurso de vitória foi uma convocação à luta dos trabalhadores contra “os ricos e bem conectados” e uma homenagem direta a Eugene Debs, ícone do socialismo americano. Difícil imaginar algo mais ideológico do que isso.
Concordo com Paulo Serra quando afirma que a campanha foi simples e próxima da vida real. De fato, Mamdani traduziu questões complexas em mensagens acessíveis. Mas a simplicidade de sua comunicação não significa neutralidade política. Foi precisamente o uso hábil da linguagem emocional, popular e direta que deu força ao conteúdo ideológico. Mamdani não fugiu da polarização – ele a ressignificou. Construiu uma oposição simbólica entre o povo e as elites, entre o que chama de esperança e o que define como tirania do dinheiro.
Também é justo reconhecer, como faz Serra, que houve uma reconexão entre o cidadão e a política. A alta participação eleitoral confirma isso. Contudo esse engajamento não veio de um apelo técnico à gestão pública, mas do sentimento de pertencimento a um projeto moral e coletivo. A multidão que foi às urnas não acreditava apenas em promessas administrativas, mas em uma causa – e é isso que diferencia as campanhas transformadoras em campanhas burocráticas. Sem aqui querer ensinar sobre campanha a um líder como Paulo Serra que venceu duas campanhas majoritárias e elegeu seu sucessor.
Discordo frontalmente, porém, da ideia de que a vitória de Mamdani simboliza “mais gestão, menos polarização”. A vitória dele é o retrato de um tempo em que o discurso ideológico volta a ocupar o centro do debate. A polarização não é um defeito quando se traduz em confronto de valores e visões de sociedade. O perigo não está em polarizar, mas em esvaziar o sentido político das escolhas, reduzindo-as a meras decisões de gestão.
Paulo Serra acerta ao enxergar na eleição nova-iorquina um sopro de esperança. Mas erra ao concluir que o futuro pertence aos gestores que evitam a política. A lição que vem de Nova York é justamente o contrário; a política recupera seu vigor quando se reconecta à alma das pessoas, mesmo que isso implique confronto. Mamdani venceu não porque negou a ideologia – mas porque a vestiu de emoção, coragem e propósito.
O desafio, agora, será transformar essa energia em resultados concretos. Mas até aqui, a lição não é “menos polarização”. É outra, mais profunda; Sem ideias fortes, não há transformação real.
João Gaspar é jornalista e especialista em comunicação estratégica e marketing político.
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