Artigo

Em 1985. quando os militares de 1964 devolveram o poder aos civis – muitos deles vindos do exílio ou das prisões políticas – o País mergulhou num momento de esperança. A Nação nutria a ideia de melhores dias e de paz, algo até então escasso, principalmente aos que se opuseram ao período de exceção. Dizia-se aos quatro ventos que viveríamos numa pátria humana e solidária, diferente em essência, do que a das duas décadas anteriores.
Com os políticos que voltaram a atuar vieram as ideias por eles recolhidas em suas andanças por todos os quadrantes do planeta. Para começar a grande mudança, o presidente José Sarney convocou a Assembleia Nacional Constituinte com a tarefa de levar um novo e moderno país às gerações seguintes. A Constituição foi promulgada em 5 de outubro de 1988 e permanece em vigor até hoje, apesar das queixas de desrespeito a parte do seu texto.
O novo Estado brasileiro, surgido sob o estandarte de Nova República, rejeitou o legado dos militares e teve a liberdade como mote principal. Mas não conseguiu consolidar a paz e a tranquilidade sonhada no advento da redemocratização.
A radicalização das diferentes correntes colocou a política brasileira no insensato clima de polarização. A maioria dos políticos trabalha para destruir o adversário quando, o melhor seria apenas tentar demonstrar ser melhor do que ele e, com isso, merecer o voto do eleitor. A temperatura na área é elevadíssima e, sem qualquer dúvida, prejudica a Nação.
Durante os anos que a radicalização cresceu, os políticos passaram a acusar-se mutuamente a judicializar suas desavenças. Provocado, o Poder Judiciário tornou-se proativo na área e hoje sofre a acusação de imiscuir-se indevidamente em assuntos de competência tanto do Executivo quanto do Legislativo (Senado e Câmara).
A prisão de Lula foi algo discutível – tanto que ele foi libertado e reabilitado eleitoralmente. Da mesma forma, a prisão domiciliar já consumada e a sentença contra Jair Bolsonaro, acusado de tentar golpe de Estado em 2023, carece de fundamentos. E muitas outras prisões e medidas coercitivas contra detentores de mandato são discutíveis. O País precisa recuperar os ideais de 1985 e anos seguintes.
E tratar melhor os seus agentes públicos. Não perdoar seus erros, mas evitar atropelá-los a ponto de serem tratados como párias e depois ter de libertá-los por falta de provas ou qualquer outra anormalidade. É difícil raciocinar sobre o positivo e o negativo em décadas.
Queremos o País acalentado pelos reformistas no fim do regime militar. Como elemento de reflexão, vale lembrar que das quatro décadas pós governos militares (1985-2025), o País foi governado pela direita (Bolsonaro) por apenas quatro anos; o resto foi de governos de matiz socialista. Só o PT, de Lula e Dilma esteve no poder por 19 anos. Basta verificar se melhoramos ou pioramos para, com isso, concluir quem acertou e quem eventualmente errou.
Dirceu Cardoso Gonçalves é dirigente da Aspomil (Associação de Assistência Social dos Policiais Militares de São Paulo).
Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.