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Margot Bina Rotstein: ‘Essa história precisa ser contada para nunca mais vermos’

Era 9 de novembro de 1938, e Margot tinha apenas 6 anos; naquela noite, nazistas lançaram um violento ataque coordenado contra lojas, edifícios e sinagogas judaicas

10/11/2025 | 08:31
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FOTO: André Henriques/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


A alemã naturalizada brasileira Margot Bina Rotstein lembra-se vivamente do dia em que sua vida mudou para sempre. Era 9 de novembro de 1938, e Margot tinha apenas 6 anos. Naquela noite, nazistas lançaram um violento ataque coordenado contra lojas, edifícios e sinagogas judaicas, o qual ficou conhecido como ‘Kristallnacht’ ou ‘Noite dos Cristais’, devido aos inúmeros cacos de vidro espalhados pelas ruas após a destruição de janelas, vitrines e portas de propriedades judaicas. Completam-se 87 anos desde essa data trágica, que marcou uma escalada sem precedentes da violência contra os judeus na Alemanha e na Áustria. A ‘Noite dos Cristais’ foi um divisor de águas, abrindo o caminho para o horror que se seguiria: o Holocausto. “Essa triste história precisa ser contada para que nunca mais tenhamos de ver”, afirma Margot.

Como era a vida antes da ‘Noite dos Cristais’?

É uma história muito triste, mas tem de ser contada, porque assim nunca mais vamos ver. Nasci em Berlim, em 1932. Era uma vida pacata de uma família de classe média. Não tenho muitas lembranças, porque eu tinha 6 aninhos de idade. Então, não dá para lembrar, mas tem coisas que ficaram muito gravadas na minha memória. Não havia muitas preocupações até lá (a noite de 9 de novembro). Porém, os judeus sempre ficavam um pouquinho preocupados com a situação da Alemanha, porque tinha um zum zum zum de que ia acontecer alguma coisa. Porém, ninguém sabia da gravidade e do terrorismo que ia ser e o que ia acontecer.

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O que a senhora se lembra da noite e o que mais ficou gravado em sua memória? 

De ver aqueles destroços de cristais e de livros sagrados jogados na rua. Isso é uma coisa que impacta muito, mesmo com a idade de 6 anos. Entretanto, é uma idade que você não tem muito conhecimento da realidade, mas meus pais já sabiam que o tinha acontecido. Então, foi um barulho tremendo, de vidros quebrando, porque jogaram tudo para fora da sinagoga. Os livros sagrados, a Torá, tudo, tudo eles jogaram fora. Arrebentaram as lojas dos judeus e entraram em muitas casas. Foi muito triste, muito trágico. Ouvimos do nosso apartamento os estrondos.

Como foi o acordar no dia 10, depois da violência? 

Aí tive de tomar consciência do que aconteceu. Aí, minha mãe me fez tomar noção da gravidade das coisas. Naquele mesmo dia veio uma amiga da minha mãe muito íntima e disse: ‘manda embora teu marido, porque o meu já pegaram e vão pegar (o seu) com certeza. Imagina uma coisa dessas?Uma pessoa chegar na casa da outra e dizer para mandar o marido embora porque o dela já sido levado? Mas, infelizmente, foi isso que aconteceu. 

Depois desse aviso, o que aconteceu com sua família?

Depois, meu pai desceu (as escadas), mas como eles (soldados) não o conheciam, nem perguntavam nada para ele. Meu pai foi para minha tia, a irmã da minha mãe e lá ele ficou. Então, eu tinha de levar todas as notícias para ele, e dele para minha mãe. Eu andava sozinha pelas ruas cheias de cacos de vidro, mas a minha mãe me dizia: ‘não olha para ninguém’. Eu, de fato, ia em frente, não olhava para ninguém e chegava na casa da minha tia onde meu pai estava escondido. Meu pai mandava recados para minha mãe. Fui andando várias vezes até a casa da minha tia, até que um dia, chegando lá, vi que a Gestapo (polícia secreta da Alemanha Nazista) estava lá em frente e tiraram um casal, jogando escada abaixo. Eu não sabia nem o que fazer, nem o que dizer, mas aconteceu. Então, são coisas assim que a gente viu muito sofrimento com isso. Mas aí, voltei para a casa da minha mãe. No dia seguinte a Gestapo chegou à minha casa e perguntou pelo meu pai. Minha mãe disse: ‘não sei. ele saiu à noite, não me disse nada e não tenho nem noção de onde está’. Reviraram a casa todinha. Procuraram debaixo dos colchões, dentro dos armários, mas não encontramos ninguém e avisaram: ‘vamos voltar amanhã’. Voltaram no dia seguinte e a mesma coisa. Estávamos com as malas prontas para fugir, mas não deu. Aí meu pai voltou e deu para nós fugirmos. Foi muito difícil. As minhas coisas ficaram todas lá (no apartamento). Pegamos o trem com a roupa do corpo, porque a bagagem toda ficou. Até uma bonequinha minha também não me deixaram pegar. Aí fomos em frente, para a França. Para o Porto de Marselha, para o desconhecido. Quando estávamos na fronteira, os soldados franceses entraram e tiraram todos os homens. As mulheres com as crianças ficaram e, de repente, o trem recomeçou a andar. Os soldados franceses jogaram alguns homens de volta para dentro e o meu pai teve a sorte de estar entre eles, porque os outros não não conseguiram entrar. Então, chegamos ao Porto de Marselha, nos encaminharam para aquele navio de terceira categoria da Itália, que não seria de fato. Não sabíamos para onde iríamos. Era uma tristeza total. Havia beliches de um lado para os homens e do outro, para as mulheres com as crianças.

Então, a senhora não chegou a ir para o campo de concentração? 

Não cheguei a ir para o campo de concentração. Conseguimos fugir de casa antes. Porém, sabemos que grande parte dos judeus foram levados aos campos de concentração e muitos acabaram, infelizmente, em Auschwitz (maior complexo de campos de concentração e extermínio operado pela Alemanha Nazista durante a Segunda Guerra Mundial). Foi uma perseguição violenta contra a comunidade judaica. Um linchamento. O Holocausto perseguiu e matou judeus, ciganos, negros, homossexuais, testemunhas de Jeová, deficientes físicos e intelectuais. Todos aqueles que algumas pessoas achavam que eram inferiores e não mereciam viver.

Com quantos anos a senhora chegou ao Brasil?

Deixamos a França, mas o Brasil não nos deixou entrar naquela época. A sorte que o meu pai tinha visto para o Paraguai e para Bolívia, que foi o único país que nos acolheu. Então, lá fomos reorganizando a nossa vida, Foi uma vida simples, Ficamos na Bolívia por sete anos. Quando voltamos ao Brasil eu já tinha 15 anos. Começamos tudo de novo, mas aí eu já tinha idade para ajudar. Aqui me casei em 1954. Tivemos três filhos, netos e foi uma vida muito feliz. 

A senhora voltou à Alemanha posteriormente? 

Voltei sim, em 1994. Foi a convite da municipalidade de. Berlim convidou. Fui muito bem acolhida pelas pessoas que nos atenderam. Me senti acolhida também vendo juntas as pessoas que tiveram o mesmo sofrimento. Muitas delas foram para campos de concentração e se salvaram. Foi um encontro muito, muito, legal.

Familiares da senhora sobreviveram ao nazismo?

Me encontrei com meus tios, que estão morando nos Estados Unidos, mas os familiares do meu pai, todos faleceram. Não sobrou ninguém. Da minha mãe sobrou essa irmã. Eles (a família) fugiram para Xangai (China), depois foram para os Estados Unidos, onde me encontrei com eles.

Algumas pessoas estão associando Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, a Adolf Hitler. A senhora acredita que há comparação entre o Holocausto e a situação atual na Faixa de Gaza?

Não. Não é tão grave quanto o Holocausto. Porém, precisamos ter sempre na lembrança que foi o Hamas (o Movimento de Resistência Islâmica é uma organização política e militar palestina de orientação sunita islâmica, que governa a Faixa de Gaza) que atacou Israel, porque Israel não estava atacando ninguém. Não estava com vontade de atacar ninguém. Entretanto, o Hamas entrou e o que fizeram foram as piores atrocidades. Uma coisa muito cruel, mas holocausto foi muito, mais muito maior do que isso.

A senhora traz junto ao peito dois colares, um com dizeres. O que significam?

Um deles significa a volta dos reféns (israelenses sob o poder do Hamas na Faixa de Gaza). Vou usar até que o último, mesmo morto, chegue. Este outro tem relação com Israel, por tudo o que aconteceu. Está escrito: o nosso coração está em Gaza. Tenho uma filha que mora em Israel. Eu disse para ela: ‘você não quer vir com teu marido para cá (ao Brasil)?’. Ela me disse; ‘não. meu lugar é aqui’. Ela não sai, mesmo com a guerra está lá firme. Minha filha vem duas vez por ano nos visitar. 

A senhora está confiante em relação à paz em Gaza? 

Duvidoso, mas agora estou um pouquinho mais confiante. Minha filha estava duvidosa até um tempo atrás. Me disse: ‘não sabemos o que vai acontecer’. Israel fez aquilo em Gaza (extensa operação militar para destruir a capacidade militar do Hamas e garantir a libertação dos reféns) porque tinha o direito de se defender. 

Qual a importância de a senhora contar essa parte triste da história? 

A importância é muito grande, porque tem pessoas que não entendem o que foi o Holocausto. Muitas pessoas ainda se negam a acreditar que o Holocausto aconteceu. Então, temos de explicar que realmente ocorreu e a atrocidade que foi para as futuras gerações conhecerem essa história. Temos de mostrar que a Shoá (palavra hebraica para catástrofe e refere-se ao genocídio perpetrado pelo regime nazista) aconteceu, principalmente, pela grande maioria que foi indiferente. Pelo silêncio das pessoas boas. Isso não podemos aceitar. 

Depois do horror que a senhora vivenciou na infância, qual mensagem deixa para as pessoas hoje? 

Para que tenham mais empatia com as religiões, com as cores, sejam qual for. Devem respeitar muito mais. Para as pessoas serem menos preconceituosas, terem mais empatia com os outros. A humanidade precisa não ter preconceito contra nenhuma raça, cor ou religião. Isso é o principal. Aí teremos uma vida mais segura para todos. 




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