Direto da Seleção Kleber Santos, Roger Guerreiro e Rafael Fontes acharam um inédito propósito na modalidade, após anos atuando no cenário profissional
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Entre as arquibancadas lotadas das periferias com seus gramados improvisados, a várzea segue sendo uma parte alternativa do futebol brasileiro. Longe dos holofotes e dos grandes estádios, a modalidade se tornou um refúgio para ex-atletas que decidiram continuar atuando no esporte que os formou.
Por muitos anos, o futebol varzeano foi visto com um certo preconceito, associado à desorganização, violência e à falta de estrutura. Entretanto, a realidade atual mostra um cenário bem diferente. Os torneios amadores movimentam grandes públicos, patrocínios, transmissões e também, em muitos casos, uma boa remuneração, onde o pagamento varia, com os atletas podendo receber por partida ou por torneio, dependendo das negociações. É nesse ambiente que ex-profissionais inspiram as novas gerações.
Acumulando passagens por Corinthians, Flamengo, Celta de Vigo (Espanha), Légia Warszawa (Polônia) e Seleção Polonesa, Roger Guerreiro, 42 anos, é uma das figuras mais conhecidas da várzea. O meio-campista, que começou nas categorias de base do São Caetano, explica o que motivou a voltar às suas origens, onde nos últimos tempos vestiu a camisa do Nacional Vila Vivaldi, Vila Izabel e XI Unidos. “Depois de tantos anos no futebol profissional, acabei retornando para a várzea. Na verdade, eu vim da várzea. Comecei jogando nos campos de terra e, quando encerrei a carreira, decidi voltar para esse ambiente que sempre fez parte da minha história”, disse o futebolista.
O ex-jogador também destacou o impacto que a várzea exerce sobre as comunidades e os esportistas. “A várzea tem um impacto muito positivo para os torcedores e jogadores. Muitos vivem disso, e os jogos movimentam o comércio local. É um ambiente que nunca vai acabar, e que sempre será um celeiro de craques”, explicou.
DA SELEÇÃO À VÁRZEA
Outro nome que encontrou um novo fôlego nos campos amadores é Kleber Santos, 34, ex-lateral-direito que vestiu a camisa do São Paulo, Internacional, Criciúma, Al-Shabab (Arábia Saudita) e Seleção Brasileira sub-19. Após uma carreira sólida, ele descobriu na várzea uma forma de continuar sentindo o prazer de jogar, atuando no Blumenau EC, Cidade Tiradentes, Marcone Futebol Clube e MEC.
“Hoje, na várzea, encontrei uma nova forma de viver o futebol. Ela se transformou em um verdadeiro trabalho, com clubes que oferecem luvas, premiações e salários por jogo. Já fui campeão da Super Copa Pioneer (principal torneio de várzea do País) e fui eleito o melhor lateral da competição. É uma sensação incrível”, disse ele, emocionado.
Conciliando a rotina de motorista de aplicativo com as partidas, ele encara a várzea como um estilo de vida. “Para mim, jogar na várzea é quase uma terapia. Sinto um frio na barriga antes de entrar em campo, como se fosse no profissional. A torcida te abraça e te reconhece. Isso é gratificante demais.”
Já o atacante Rafael Silva Fontes, 33, viveu experiências em equipes como Paraná, Coritiba, Gama e até uma passagem pela base do Barcelona (Espanha). O jogador se apaixonou pela atmosfera da várzea, defendendo as cores do União Bandeirantes, Choko Loko e Maria Eugênia. E um simples convite para disputar a tradicional Super Copa Pioneer mudou sua trajetória.
“Eu não tinha o objetivo de ir para o futebol amador, mas acabei aceitando o convite do União Bandeirantes e me surpreendi. A várzea é muito boa, e me acolheu de uma forma incrível”, contou.
Ele também pontuou a força técnica e emocional. “Hoje vivo da várzea, me cuido para ela. São muitos jogos e muita gente qualificada. Representar uma comunidade não tem preço. A gente faz o possível para dar alegria ao povo, e isso vale mais do que qualquer salário”, finalizou.
Os três jogadores mostram que mesmo após pendurar as chuteiras, não abriram mão da bola nos pés. Na várzea, eles encontraram o prazer de jogar sem a pressão dos grandes clubes, mas com a mesma intensidade de quem ainda busca títulos e reconhecimento, representando o verdadeiro espírito do futebol brasileiro.
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