Editorial O Brasil acaba de assistir à criação de mais uma sigla, o Missão, articulada por lideranças do MBL (Movimento Brasil Livre) e agora oficialmente reconhecida pelo Tribunal Superior Eleitoral. Trata-se do 30º partido em atividade no País – número que, por si só, convida à reflexão. Em tese, partidos existem para representar ideologias, correntes de pensamento e projetos distintos de sociedade. Contudo, é difícil sustentar que haja, no cenário político nacional, três dezenas de concepções ideológicas diferentes a justificar tal diversidade. O que parece ocorrer é processo de fragmentação que vai além do campo das ideias, indicando que a fundação de legendas se tornou instrumento de estratégia eleitoral.
A proliferação de partidos pode ser vista como sintoma de um sistema em que a identidade ideológica se dilui em meio a cálculos pragmáticos. O discurso de oposição e independência, como o anunciado pelo Missão em São Bernardo e São Caetano, tende a soar legítimo, mas também levanta dúvidas sobre até que ponto a nova estrutura pretende inovar ou apenas reproduzir práticas conhecidas sob outro nome. A facilidade para registrar siglas e o acesso a benefícios institucionais ajudam a explicar o interesse em multiplicar legendas, ainda que o eleitorado não demonstre igual entusiasmo em diferenciá-las. Nesse contexto, a ideia de “representação” parece ceder espaço à lógica da conveniência.
É legítimo que novos grupos busquem espaço e que vozes distintas participem do jogo democrático. No entanto, a criação do 30º partido convida à ponderação sobre o propósito real dessa expansão. O excesso de siglas tende a confundir o eleitor, fragmentar a base parlamentar e dificultar a construção de consensos. Em vez de fortalecer a democracia, a dispersão pode enfraquecê-la, ao diluir a coerência programática e reduzir o debate público a disputas por espaço e recursos. Se os partidos deveriam ser expressão de ideias, e não de interesses momentâneos, talvez a questão mais relevante não seja quantos existem, mas quantos de fato cumprem a missão que lhes dá sentido.
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