Entrevista exclusiva Em entrevista exclusiva, diretor 'O Agente Secreto' fala sobre o filme
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Em entrevista exclusiva ao Diário, o diretor Kleber Mendonça Filho fala sobre O Agente Secreto, seu novo filme estrelado por Wagner Moura, e revela como a mistura de gêneros e o olhar sobre o Brasil surgem de forma natural. O diretor comenta o prestígio internacional da obra, fala sobre o passado doloroso do Brasil, defende a regulamentação do streaming e faz uma análise sobre o papel dos cinemas de rua.
O filme mistura elementos de thriller político e neo-noir. Como o Sr. equilibra essas linguagens com o Recife dos anos 70?
A mistura de gêneros é muito natural, porque o cinema é muitas coisas. Eu não sou aquele tipo de pessoa que diz: “Ah, eu só gosto de filme de ação.” Eu gosto de filme de ação, de documentário, de terror, de suspense, de comédia. Gosto de filme americano, francês, brasileiro, australiano, indiano... Então, essa variedade talvez explique os multigêneros dentro do próprio filme. E eu tenho um prazer muito grande em dirigir um filme que vai para muitos lugares. Isso é muito instigante, é o tipo de filme que eu realmente quero fazer.
Qual foi a motivação que o levou a contar essa história?
Surgiu da vontade de trabalhar com o Wagner Moura. Eu queria desenvolver algo para fazer com ele. Ao mesmo tempo, eu tinha passado muito tempo pesquisando para o Retratos Fantasmas (2023), mergulhando na história do Recife das décadas de 50, 60 e 70. Descobri muita coisa sobre a cidade, sobre uma textura do tempo histórico. Achei que tinha estofo, base, para sentar e escrever um roteiro que se passasse em 1977.
Filmes brasileiros de grande sucesso, como Ainda Estou Aqui, caminham para uma mensagem positiva. Mas, mesmo nas comédias, há um pano de fundo de um Brasil negativo. É possível mostrar o Brasil de maneira totalmente positiva?
O Agente Secreto tem sido muito prestigiado fora do Brasil, e muitas reações ao filme são de encanto com o País, apesar de não ser uma propaganda turística. O filme tem muita afeição, carinho e amor, embora seja também um longa com um lado sombrio e violento. Acredito que o melhor retrato é aquele que é lindo e, ao mesmo tempo, duro. Fazer só um retrato enfeitado, bonito, não é tão interessante. Mesmo sendo franco e honesto em relação à História do Brasil, que é dura, ainda assim há uma energia positiva e própria do País.
Qual o impacto da regulamentação do streaming no avanço do cinema nacional?
É o ajuste mais importante no Brasil agora. Países como Itália, França e Portugal já taxam esses serviços, eles não podem operar desregulados. Têm que colaborar com a indústria audiovisual local. A gente precisa ter uma conversa séria sobre isso no Brasil. Isso vai beneficiar a produção audiovisual: séries, filmes, formação de público, novas salas de cinema, restauração e preservação do acervo nacional.
E em relação ao cinema de rua, o Sr. pensa que há algum movimento de volta?
Acho improvável. O que acredito mais é no investimento em salas específicas, que podem e devem ser fortalecidas. O cinema de rua traz vida para a rua. Quando você coloca um cinema dentro de um shopping, que é um modelo já consolidado no Brasil há 40 anos, você tira as pessoas das ruas e as coloca em um espaço privado. Acredito no cinema de rua como um espaço mais democrático e bom para a cidade, mas quero que O Agente Secreto seja visto em todos os tipos de cinema. É muito importante que o filme esteja em todos os tipos de salas, público e faixas de preço.
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A partir desta quinta-feira (6), os moradores do Grande ABC poderão conferir nos cinemas O Agente Secreto, novo longa-metragem de Kleber Mendonça Filho, diretor de Bacurau e Aquarius. O filme estreia em circuito nacional e está em cartaz nas redes Cinemark, Cinépolis e UCI, além do Cine Araújo, em Mauá.
Ambientado em 1977, o longa acompanha Marcelo, vivido por Wagner Moura, um especialista em tecnologia que retorna a Recife após anos fora, em busca de tranquilidade. No entanto, o que encontra é uma cidade repleta de segredos, vigilância e tensões políticas que ecoam o passado e o presente do País, que na época vivia a ditadura militar, chamada, no filme, de ‘tempos de pirraça’.
Com atmosfera de suspense e crítica social, a produção foi a grande vencedora da última edição do Festival de Cannes, conquistando os prêmios de Melhor Direção para Mendonça Filho, Melhor Ator para Moura, o Fipresci (Federação Internacional de Críticos de Cinema) e o Art et Essai, da Afcae (Associação Francesa de Cinema de Arte e Ensaio).
Além de Moura, o elenco reúne nomes de peso como Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone, Thomás Aquino e o alemão Udo Kier.
Para o protagonista, o filme é uma oportunidade de pensar o Brasil por meio do cinema. “O País tem algumas questões com memória, tende a esquecer de muita coisa, e eu acho que o cinema é um instrumento muito bom para resgate. Ele te diverte, mas também informa sobre o lugar onde a gente vive”, afirma Moura, em coletiva de imprensa da qual o Diário participou.
“As pessoas lá fora veem e dizem: olha só, a Perna Cabeluda (personagem do filme), que coisa louca. Mas, sobretudo, somos nós, aqui, nos vendo. O cinema brasileiro tem uma história quase documentarista. É um cinema que nasce de um País tentando se entender”, complementa.
Mendonça Filho celebra a recepção internacional e as expectativas para o Oscar 2026. “O Wagner e eu estamos muito felizes com tudo que está acontecendo. Espero apoiá-lo, trabalhar pelo filme e divulgá-lo da melhor maneira possível, como bom representante que sou do cinema brasileiro.”
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