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FOTO: DGABC

Vivemos em um tempo em que ser produtivo se tornou sinônimo de valor em nossa sociedade. A rotina acelerada e a cobrança por resultados fazem com que muitas pessoas se orgulhem de ‘dar conta de tudo’. No entanto, por trás dessa imagem, existe um esgotamento que poucos percebem.
O hábito de realizar várias tarefas ao mesmo tempo parece um sinal de competência, mas é o contrário. Pesquisas mostram que o cérebro não faz multitarefa, apenas alterna entre tarefas e perde até 40% da eficiência. É como ouvir várias músicas de uma vez: vira ruído.
Essa busca por produtividade nasce de uma cultura que associa valor ao que entregamos, não ao que vivemos. Descanso, tédio e silêncio passam a ser vistos como desperdício de tempo.
Mesmo quando o corpo para, a mente salta de um pensamento a outro, incapaz de desligar. A tecnologia, que deveria facilitar a vida, amplia essa dinâmica: estamos sempre disponíveis e distraídos.
O resultado é cansaço permanente. Dormir não basta, relaxar parece impossível e o tempo livre perde o sentido. A pressa rouba a presença. Você está com alguém, mas pensa em outra coisa. A necessidade de estar ocupado impede que se perceba o essencial: em que momento você está presente?
Aqui entra algo que muda o jogo: o play (em português, ‘brincar’, mas a palavra não traduz a complexidade do fenômeno). Não é o videogame no escritório, mas um um estado que envolve corpo, mente e relações, tira do modo sobrevivência e coloca no modo viver.
Quando foi a última vez que você fez algo ‘inútil’? Refiro-me a algo que não rendesse post, currículo ou produtividade? É aí que mora o antídoto para a exaustão.
Atualmente, vivemos cercados por ‘entretenimento’: Netflix, TikTok, jogos. Mas isso é distração algorítmica, não play genuíno. Desacelerar virou ato de coragem. Desligar o celular, permitir-se o tédio e fazer uma coisa de cada vez exige resistência a uma cultura que glorifica o excesso.
A verdadeira eficiência está em escolher o que merece atenção. É comprovado que nosso cérebro não foi feito para corridas de estímulos, mas para alternar entre foco e recuperação, fazer e ser.
Talvez a saída não seja produzir mais, e sim reencontrar o ritmo natural, onde o tempo se torna espaço para existir com clareza. Quanto mais tentar dar conta de tudo, mais se esquecerá de si mesmo.
Lucas Freire é psicólogo e autor de Exaustos: Imaginando saídas para o cansaço diário.
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